André Fernandes avatar

André Fernandes

Graduado em Direito e Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Recursos Naturais pela UPeace - Universidade das Nações Unidas. Pesquisador de antropologia da América do Sul.

2 artigos

HOME > blog

O Neoliberalismo é uma arma do Imperialismo

Neoliberalismo como projeto político de dominação: guerra econômica, fragmentação social e perda de soberania a serviço do imperialismo global

O Neoliberalismo é uma arma do Imperialismo (Foto: Freepik )

Acredito que muitos leitores já estão convencidos que o neoliberalismo é uma arma letal do Imperialismo, um “artefato de destruição em massa” que mata aos poucos e tem quase o mesmo efeito, a longo prazo, das bombas que liquidam milhares de famílias mundo afora em nome da “democracia e da liberdade”. Mas, permitam-me fazer uma reflexão sobre este tema que, segundo o eminente geógrafo David Harvey, não se trata de um sistema econômico, mas sim de um projeto político.

Como muitos sabemos, esta arma letal surgiu das mentes doentes de Margaret Tatcher e Ronald Reagan, inspiradas em arautos da economia como Milton Friedman, Friedrich Hayek e Ludwig Von Mises e a tão “notória” Escola Austríaca que apedeutas profissionais ainda insistem em clamar como prova de “conhecimento, inteligência e cultura”.

Em seu livro “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”, Vladimir Safatle - este sim um grande intelectual nacional - descreve o cotidiano sofrimento na sociedade assim como o calvário pelo qual passam os excluídos de um sistema econômico injusto e cruel que, apesar dos estragos feitos mundo afora, ainda possui propagandistas nas academias e nos meios de comunicação. Um sistema econômico que somente reproduz a disparidade social pela qual vivem os países do Sul Global - e agora, também os do Norte - fragmentando sociedades e destruindo países sem a necessidade de invasões militares - ou mesmo preparando-as para isto - e, por isso mesmo, semelhante a uma arma de guerra.

Clau von Clausewitz dizia que a guerra é a “continuação da política por outros meios". Como base neste princípio, me parece justo determinar que os políticos que defendem o neoliberalismo em solo pátrio são agentes e traidores pertencentes a uma “internacional” neoliberal que pretende destruir as nações com a finalidade de espoliar seus recursos naturais. Sendo assim, aqueles políticos que saúdam a bandeira nacional e se propalam zelosos da sociedade e “defensores da educação”, mas que defendem medidas neoliberais que beneficiam interesses alienígenas e os bancos privados, pertencem a uma força estrangeira para destruir o Brasil

e os países do Sul Global, independente da sigla e da ideologia que “dizem” pertencer. Aqueles que usam do cargo público para defender o sistema financeiro em detrimento da população são traidores, ponto final.

O neoliberalismo insiste em permanecer nos Estados nacionais, por mais que seja combatido. Como bem descreveu Naomi Klein em sua obra de referência - A Doutrina de Choque - o sistema neoliberal, muitas vezes é implantado como “solução” de crises políticas em tempos de “terra arrasada”. Tal qual uma “bomba silenciosa”, destrói famílias e provoca suicídios, pauperização e, finalmente, violência social mundo afora. A “solução”? Repressão policial. E assim, cria-se uma reação em cadeia onde a pobreza e a violência se reproduzem, sociedades são destruídas, e as potências imperialistas e o sistema financeiro ficam livre para exercer a espoliação e o saque. O objetivo final deste “método do caos” é transformar todos os países, inclusive o Brasil, em um “El Salvador”, que se tornou em um “exemplo” de administração estatal para aqueles que em suas vidas medíocres perderam a esperança de um mundo melhor.

Não é uma coincidência que a agressividade Europeia e Anglo-saxã se voltem para as nações que não adotaram o neoliberalismo como sistema econômico. Pouco importa se os bárbaros das estepes russas, os “confucianos marxistas”, ou os ”aiatolás” herdeiros dos sassânidas. A questão não é a “autocracia” eslava, os uigures de Xinjiang ou a obrigatoriedade do “hijab”: não se trata disso. Isso é para amadores que não enxergam o quadro mundial. Nem o espectro ideológico não importa aqui. Um dos grupos terroristas que levaram recentemente o caos às ruas de Teerã eram marxistas curdos, junto com fundamentalistas islâmicos que cortaram cabeças pelas ruas das cidades do Irã, enquanto a mídia internacional os chamavam de “manifestantes pacíficos”. Pretensos marxistas e “cortadores de cabeça” do mais radical islamismo, lutando juntos, financiados e treinados pelo Imperialismo “turbo capitalista”. Às vezes penso que, de fato, o mundo enlouqueceu. O espectro ideológico não faz a menor diferença na modernidade líquida de Bauman do ultra-neoliberalismo do turbo capitalismo selvagem que, agora, perdeu toda a vergonha na figura do Sr. Donald Trump.

Como disse certa vez a grande intelectual Marilena Chauí, é preciso destruir o neoliberalismo para construir algo novo, nem que para isto

tenhamos que ressuscitar John Maynard Keynes. Karl Polanyi, em sua obra “A grande Transformação”, pregava que o socialismo deve ser exercido como uma forma pontual de combate a miséria deixada pelo sistema capitalista mundial em suas periferias. Eu iria mais longe, o socialismo deve ser usado como uma arma de guerra. Um conflito, às vezes nem sempre silencioso, que, atualmente se transformou em um combate sem trégua pelos recursos naturais do planeta…nem a Groenlândia está a salvo.

Já está mais que claro que o destino dos países que adotam o neoliberalismo é perder sua soberania e seus recursos energéticos, afundados no caos social e dominados pelo narcotráfico, tal qual ocorre hoje num país “andino”, anteriormente pacifico, como o Equador. Uma sociedade desunida e fragmentada é facilmente dominada. Como exemplo maior de resistência, vemos as ruas de Caracas que, mesmo tendo seu presidente sequestrado, foi invadida por uma multidão clamando o seu retorno: pode-se sequestrar um “rei”, mas não a consciência de seus “súditos”, ou de uma nação unida. Ou mesmo nas ruas de Teerã, onde milhões de iranianos saíram às ruas em defesa do “regime iraniano” de forma espontânea - por mais que a imprensa internacional tente ocultar ou desqualificar este fato. A atomização, resultante da “luta de todos contra todos” tem como resultado apenas o enfraquecimento das nações, presas fáceis para a “internacional neoliberal”. Já as tradições, a cultura e o conhecimento histórico são os meios pelos quais as sociedades se defendem, muitas vezes de forma inconsciente, deste grande mal.

As palavras de ordem são “liberdade”, “direitos humanos” etc. Mas quantas liberdades e direitos foram usurpados, e quantas vidas foram destruídas, entre os mais de 6 milhões de mortos e refugiados resultantes das “guerras eternas” - como sempre faz questão de lembrar o analista geopolítico Pepe Escobar - que se iniciaram com a primeira Guerra do Golfo Pérsico no início da década de 1990? Às vezes me questiono: caso os países da América do Sul finalmente resolvessem resistir à “internacional neoliberal”, seguindo o exemplo de Cuba, em quanto tempo as “guerras eternas” não chegariam aqui? Hoje vemos, nos protestos das ruas de Minneapolis, as nefastas consequências deste sistema ultra-neoliberal opressor nas entranhas de sua matriz ideológica e material.

Tão nefasta e cruel, essa “arma de destruição em massa” foge ao controle e se volta, agora, até contra seus criadores, como o monstro de Frankenstein. Enquanto isso, o “caso Jeffrey Epstein” e sua “Ilha de Doutor Morreau”, visitada por políticos, milionários e “celebridades” em busca de “fantasias” macabras e sexuais, explodem as entranhas da elite neoliberal tal qual o “Alien” do diretor Ridley Scott, implodindo “o sangue e as vísceras” de uma elite inexoravelmente corrupta em franco declínio moral, material e espiritual. Tudo isso em um período onde esta mesma “elite” global escatológica tenta provocar uma Terceira Guerra Mundial em nome de uma pretensa ”superioridade” moral - fruto de um racismo endógeno e da alucinação de “mentes em decomposição” - e de uma hegemonia apodrecida desde sua origem.

Como disse certa vez um dos grandes intelectuais de “Terra Brasilis”, Professor José Luis Fiori, as duas ideologias europeias falharam em sua busca da felicidade do homem: o marxismo pela busca da igualdade e o liberalismo pela busca da prosperidade. O futuro, como diz o eminente professor, é um “futuro ético”: mas a busca desse futuro exigirá grande coragem em um mundo imoral. E não estou falando de qualquer moralidade religiosa ou pequeno burguesa, mas de uma “moralidade espiritual”. A procura da ética é o primeiro passo do combate à violência neoliberal e imperial. Talvez, quem sabe, a “reencarnação” da busca incessante e sem trégua do “homem novo”, como dizia antigamente um notório revolucionário: um homem que não luta apenas para obter vantagem pessoal, pela sua segurança material ou pela celebridade social. Uma luta inexorável e sem rendição em nome de dois conceitos frequentemente perseguidos, vilipendiados, esquecidos e ignorados: justiça e liberdade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.