O jogo eleitoral por trás dos números
Na realidade, mais do que medir intenções de voto, as pesquisas passaram a influenciar percepções e moldar narrativas
O comentário recente do jornalista Jânio de Freitas sobre uma possível manipulação das pesquisas eleitorais levanta uma questão importante: nos últimos anos, elas deixaram de ser apenas um retrato do momento político e passaram a ocupar um papel estratégico no marketing de campanhas, além de se tornarem um grande negócio.
Entre 2018 e 2022, houve um aumento de 50% nos registros de pesquisas eleitorais no país. Pela legislação, todos os levantamentos devem seguir método científico e ser registrados no TSE antes da divulgação. Em 2022, foram quase 3 mil pesquisas. Neste ano, o número tende a ser ainda maior. Resta a dúvida: há fiscalização suficiente?
Após episódios como o “powerpoint” da Globonews, cresce a desconfiança sobre a divulgação desses dados. Principalmente quando há muita disparidade entre os levantamentos.
Na terça-feira (14/04), a pesquisa CNT/MDA mostrava Lula à frente, com 45% contra 40% de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Dois dias depois, a Quaest indicou o oposto: Lula numericamente atrás, ainda que dentro da margem de erro.
O levantamento da Quaest, contratado pela Genial Investimentos e divulgado pela Globo, aponta uma tendência de crescimento de Flávio Bolsonaro ao longo dos últimos meses. Pela Quaest, Lula tinha dez pontos de vantagem em dezembro, sete em janeiro e cinco em fevereiro. Em março, houve empate (41% a 41%). Agora, em abril, Flávio aparece com 42% contra 40%.
Trata-se de um cenário incomum para Lula, que historicamente liderou todas as pesquisas que venceu. Ainda assim, em abril de 2022, a própria Genial/Quaest indicava 54% para Lula contra 30% para Jair Bolsonaro no segundo turno. A aproximação dos dois só ocorreu na reta final, entre outras coisas, pela chamada PEC dos Auxílios ou PEC Kamikaze, que liberou bilhões de reais na criação e ampliação de benefícios sociais.
Hoje, o desafio da campanha de Lula é conter o avanço do adversário no início da campanha. E para isso é fundamental a desconstrução da imagem de Flávio Bolsonaro, marcada por ligações com milicianos. O filho de Bolsonaro homenageou, numa cela da prisão, Adriano da Nobrega, miliciano que ficou conhecido por chefiar o Escritório do Crime, na região de Vargem Grande e Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Flávio empregou ainda em seu gabinete a mãe e irmã do miliciano. Além disso, segundo o Ministério Público, Flavio teria se beneficiado da arrecadação de salários de 15 funcionários do seu gabinete na ALERJ, esquema que perdurou até 2018.
Em meio a tantos levantamentos, é difícil saber qual retrata melhor a realidade. O que parece consenso é que a disputa será acirrada e qualquer movimento pode ser decisivo.
Na realidade, mais do que medir intenções de voto, as pesquisas passaram a influenciar percepções e moldar narrativas. Em uma eleição apertada, a disputa não acontece apenas nas urnas, mas também na interpretação dos números, principalmente os feitos para uso interno das campanhas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



