O impacto do atual governo Lula no Brasil profundo
O impacto do governo Lula no Brasil profundo não se resume a números, embora eles sejam expressivos
Há um Brasil que raramente aparece nas capas dos grandes jornais ou nos debates mais ruidosos das redes sociais. É o Brasil profundo — aquele formado por pequenas cidades, comunidades rurais e periferias interioranas onde o Estado, quando chega, transforma de forma concreta o cotidiano das pessoas. É nesse território que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem produzido alguns dos seus efeitos mais visíveis — e, sobretudo, mais mensuráveis.
Diferentemente dos grandes centros urbanos, onde a economia é mais diversificada e menos dependente da ação direta do poder público, o interior do país responde quase que imediatamente às políticas de transferência de renda e investimento social. Dados recentes mostram que, entre 2023 e 2024, cerca de 8,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza, enquanto mais de 14 milhões registraram melhora de renda. A taxa de extrema pobreza caiu para algo em torno de 3,5%, um dos menores patamares da série histórica. Esses números, por si só, já indicam um movimento relevante — mas é no interior onde eles ganham densidade e significado.
Isso porque, em municípios pequenos, o impacto da renda é direto e multiplicador. O dinheiro que chega via programas sociais rapidamente se converte em consumo local. Não há intermediações complexas: ele vira compra no mercadinho, pagamento no açougue, aquisição de material escolar, movimento na feira livre. O resultado é um ciclo econômico básico, porém essencial, que reaquece economias fragilizadas.
A reformulação do Bolsa Família, com aumento do valor médio dos benefícios e inclusão de adicionais por criança, e a retomada de programas como o Minha Casa Minha Vida e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ajudaram a consolidar esse cenário. No caso do PAA, o efeito é duplo: garante renda ao pequeno agricultor e abastece políticas públicas como a merenda escolar. Em muitas cidades do interior do Nordeste, do Norte e até do Centro-Oeste, isso significa fortalecer a agricultura familiar ao mesmo tempo em que combate a insegurança alimentar.
Os dados sobre fome reforçam esse diagnóstico. Estima-se que mais de 20 milhões de brasileiros tenham deixado a condição de insegurança alimentar grave nos primeiros anos do governo. Em regiões historicamente vulneráveis, como o semiárido nordestino, isso representa uma mudança concreta: menos famílias em situação de escassez extrema e maior estabilidade no acesso à alimentação.
Outro indicador importante é o mercado de trabalho. Desde 2023, o Brasil registrou a criação de aproximadamente 3,7 milhões de empregos formais, enquanto a taxa de desemprego caiu para cerca de 6,1%, o menor nível em mais de uma década. Ainda que boa parte dessas vagas esteja concentrada em centros urbanos, seus efeitos se irradiam para o interior. O aumento da renda média — que cresceu próximo de 10% no período — amplia o consumo e dinamiza cadeias econômicas que alcançam cidades menores.
Além disso, a retomada de investimentos públicos tem impacto significativo nesses territórios. Obras de infraestrutura, expansão de escolas em tempo integral, reativação de programas habitacionais e fortalecimento da rede de assistência social criam empregos diretos e indiretos. Em uma cidade pequena, uma única obra pública pode alterar significativamente o nível de atividade econômica local.
A redução da desigualdade também merece destaque. O índice de Gini apresentou queda recente, sinalizando uma leve melhora na distribuição de renda. Regiões historicamente mais pobres, como o Nordeste, registraram reduções mais acentuadas nos índices de pobreza, indicando que há um processo — ainda que gradual — de diminuição das disparidades regionais.
É preciso reconhecer, no entanto, que parte desses avanços está fortemente apoiada em políticas de transferência de renda. Críticos apontam riscos relacionados à sustentabilidade fiscal e à dependência dessas políticas no longo prazo. São questões legítimas, que precisam ser enfrentadas com responsabilidade e planejamento. Contudo, no curto e médio prazo, especialmente no Brasil profundo, o efeito dessas políticas é inegavelmente positivo.
Ignorar esse impacto é desconhecer a realidade concreta de milhões de brasileiros que vivem fora dos grandes centros. Em cidades pequenas, onde a presença do Estado muitas vezes define o funcionamento da economia local, a combinação de aumento de renda, queda da pobreza e retomada de investimentos públicos produz efeitos tangíveis e imediatos.
O impacto do governo Lula no Brasil profundo não se resume a números, embora eles sejam expressivos. Ele se revela no movimento das feiras, no aumento das vendas no comércio, na mesa mais farta, no retorno de obras paradas e na sensação, ainda que inicial, de alguma estabilidade. É um impacto silencioso, longe dos holofotes, mas profundamente real — e, para quem vive nesses territórios, absolutamente decisivo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
