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Gustavo Guerreiro

Indigenista na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Pesquisador do Observatório das Nacionalidades, editor da Revista Tensões Mundiais. Doutor em Políticas Públicas. Especialista em questões militares. Diretor de Pesquisas do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz).

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O garrote de Ormuz e a agonia do Direito Internacional

O Irã não fechou Ormuz por sede de sangue; fechou porque foi empurrado contra a parede

Ilustração com mapa do Estreito de Ormuz (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

As águas estratégicas do Estreito de Ormuz nunca foram apenas um acidente geográfico; são, em última análise, o termômetro da arrogância ocidental. Quando o governo de Teerã, fustigado por décadas de um cerco econômico que a historiografia futura certamente classificará como uma espécie de genocídio, decide finalmente colocar a mão no registro e suspender o fluxo de energia, o que ressoa em Washington não é de surpresa, mas de uma fúria imperial. O império ruge porque, pela primeira vez em muito tempo, um ator soberano resolveu aplicar a gramática do poder que os próprios Estados Unidos santificaram: a força bruta como extensão da política. Tendemos a crer, embalados pela narrativa hegemônica, que o bloqueio iraniano é um ato de “terrorismo comercial”, um capricho de uma teocracia isolada. Nada poderia ser mais distante da realidade que se desenrola neste 14 de abril de 2026.

O que assistimos em Ormuz não é o início de uma agressão, mas o ápice de uma resistência. É preciso ter a coragem intelectual de dizer o óbvio, algo que se tornou raridade na nossa diplomacia: o Irã está exercendo o seu direito à legítima defesa contra uma potência que utiliza o sistema financeiro global como uma arma de destruição em massa. Se os Estados Unidos se arrogam o direito de bloquear as contas bancárias de uma nação, de impedir a venda de seus produtos e de asfixiar seu povo através de sanções unilaterais que atropelam qualquer resquício de legalidade na ONU, por que o Irã não teria o direito de utilizar o trunfo geográfico que a natureza lhe concedeu? A resposta da Realpolitik é seca: o bloqueio iraniano é a resposta física ao bloqueio invisível imposto pelo dólar.

A China, com a paciência milenar de quem observa o desmoronamento do império ianque, compreendeu o jogo. Pequim não apenas apoia tacitamente a manobra de Teerã; ela a valida como uma peça necessária no tabuleiro da multipolaridade. Para os chineses, o Estreito de Ormuz é uma artéria da Nova Rota da Seda, e permitir que Washington dite quem pode ou não navegar por ali sob o pretexto hipócrita de “segurança marítima” seria aceitar a vassalagem permanente. O apoio chinês ao Irã é o reconhecimento de que a era da arrogância estadunidense acabou. Quando a frota dos EUA tenta impor uma “interceptação administrativa” (termo exuberante em seu cinismo) para reabrir o estreito à força, ela não está defendendo o livre comércio; está defendendo o monopólio da coerção. A China sabe que, se o Irã cair hoje sob o garrote dos EUA, o Mar do Sul da China poderá ser o próximo alvo da fúria regulatória de um império que não aceita o ocaso.

Causa-me um profundo desconforto observar como a grande imprensa brasileira, sobretudo aquele setor que se autodenomina “liberal-conservador”, mas que na verdade é apenas colonizado, trata o episódio. O fatídico editorial do jornal O Estado de S. Paulo, intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã” é um monumento à desonestidade. Ao classificar a reação iraniana como um atentado à “ordem global” e ao “mundo livre”, o jornal ignora propositalmente que a tal “ordem” foi estraçalhada por Washington no momento em que os estadunidenses abandonaram o acordo nuclear de forma unilateral e impuseram sanções extraterritoriais. Chamar o bloqueio físico de Ormuz de crime e o bloqueio financeiro de Teerã de “diplomacia” é uma ginástica retórica que faria os sofistas gregos corarem de vergonha.

O que está em jogo em Ormuz é a própria definição de soberania no século XXI. Se o Direito Internacional serve apenas para proteger os interesses de quem imprime a moeda de reserva mundial, então ele não é direito, é um manual de instruções para a submissão. O Irã, ao bloquear o estreito, está testando a validade da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS) sob uma nova luz: a luz da sobrevivência nacional. É irônico que os Estados Unidos invoquem a liberdade de navegação de um tratado que eles mesmos se recusam a ratificar integralmente. Eles querem os bônus do direito sem os ônus do dever. O bloqueio iraniano é o espelho que devolve a Washington a imagem de sua própria arbitrariedade.

Nesse cenário de escalada, onde a fumaça dos mísseis já se confunde com o horizonte do Golfo, o Brasil não pode se comportar como um espectador passivo ou, pior, como um animador de torcida do Pentágono. A tradição da nossa política externa, enraizada na defesa da não intervenção e da solução pacífica de controvérsias, exige que reconheçamos a legitimidade das preocupações de segurança do Irã. Mais do que isso, exige que identifiquemos na China o parceiro estratégico que busca equilibrar uma balança que Washington insiste em desregular. Vejo com clareza que o silêncio obsequioso do Itamaraty diante da agressividade imperialista é uma forma de conivência.

O BRICS+, agora expandido e contando com o próprio Irã em suas fileiras, deve ser o palco da contraofensiva diplomática. É imperativo que o bloco emita uma nota de repúdio à política de sanções ilegais dos EUA, que desencadeou a crise. O bloqueio de Ormuz é um sintoma; a doença é o imperialismo unipolar que se recusa a morrer. O governo brasileiro, exercendo sua liderança natural no Sul Global, tem a obrigação de articular uma denúncia formal contra a “pirataria de Estado” exercida pela Marinha americana sob o pretexto de escolta comercial. Se o Brasil quer ser levado a sério como potência emergente, precisa parar de pedir licença para defender o direito dos povos à resistência contra o cerco econômico.

É preciso perguntar: o que restará da ordem internacional se permitirmos que a miséria e o isolamento sejam usados como ferramentas de negociação? O Irã não fechou Ormuz por sede de sangue; fechou porque foi empurrado contra a parede. É uma manobra de alto risco, sem dúvida, mas é a manobra de quem não tem mais nada a perder exceto a sua dignidade nacional. A China entende que a estabilidade global hoje depende da contenção dos ímpetos messiânicos de Washington, que tenta exportar sua crise interna através de conflitos externos. A aliança sino-iraniana é o embrião de uma nova arquitetura de segurança global.

Deixo um alerta: não se deixem enganar pela estética da “defesa da democracia”. Em Ormuz, o que se defende do lado ocidental é o direito de continuar saqueando e controlando o fluxo vital de nações soberanas. Do lado iraniano e chinês, o que se busca é a imposição de limites a esse saque. O bloqueio é um grito de “basta”. É a materialização de que o Sul Global não aceitará mais ser o quintal de um império que, em seu crepúsculo, torna-se cada vez mais perigoso e errático.

A conclusão é inarredável, ainda que amarga para aqueles que ainda nutrem ilusões sobre a benevolência de Washington. O garrote de Ormuz aponta para um novo mundo. Um mundo onde as regras serão negociadas em termos de igualdade, ou não haverá regras. A agonia do Direito Internacional que testemunhamos hoje é, na verdade, o trabalho de parto de uma ordem multipolar que nasce com dor e o silêncio cúmplice das potências europeias decadentes. O Brasil precisa escolher de que lado da história quer estar: se na vanguarda da soberania dos povos, junto aos seus parceiros do BRICS+, ou se no rodapé poeirento de um império que já não consegue manter o controle nem das suas próprias águas, quanto mais das alheias.

A provocação final que deixo é simples: se o Brasil estivesse sofrendo o mesmo cerco econômico e militar, se nossa agricultura fosse sabotada e nosso petróleo proibido de ser vendido pelo mero arbítrio de uma potência estrangeira, o que faríamos? Cruzaríamos os braços ou usaríamos nossa geografia como escudo? A resposta a essa pergunta define o caráter de uma nação. E o Irã, para o bem ou para o mal, já deu a sua.

O “Estadão” e seus congêneres continuarão a bater tambores de guerra, disfarçados de clamores por ordem. Ignoram que a ordem que defendem é a ordem do cemitério para o desenvolvimento do Sul. A nossa tarefa é desmascarar esse fetiche da legalidade imperial. O bloqueio de Ormuz é um ato de soberania radical. E em um mundo que tenta abolir a soberania em nome do lucro de poucas corporações transnacionais, a radicalidade é a única forma de sanidade que resta. A paz real só virá com o fim do cerco ao Irã, e não com a capitulação.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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