O Galo que luta, mas canta desafinado
Lideranças confusas e personalistas acabam mais dividindo do que unindo a classe trabalhadora, observa Ricardo Nêggo Tom
Recebi um vídeo contendo trechos da participação do influenciador Paulo Lima, conhecido como "Galo de Luta", no podcast 3 irmãos, e percebi alguns problemas estruturais na sua argumentação. Confuso e personalista, ele defende que o machismo e a homofobia dos homens da classe trabalhadora fazem parte do senso comum, e não devem ser repudiados pela esquerda. What? Ele sugere uma conversa de botequim onde dois homens trabalhadores estão tomando uma cerveja e reclamando do excesso de direitos que as mulheres passaram a ter. Segundo ele, “no senso comum, no debate geral entre os trabalhadores homens, em grande maioria e tal, o debate é: as mulheres estão sendo privilegiadas por esse sistema woke de esquerda (...) Agora, num boteco ali, dois trabalhador parou (sic), tá tomando uma cerveja, e provavelmente esse papo tá rolando. Esse papo é forte, xará! Agora tudo é a mulher, a mulher tem direito de tudo. Você não pode nem gritar com a mulher, que você vai preso. Quer dizer que a minha mulher pode me bater, e eu não posso bater nela?”
Para piorar o que já estava muito ruim, Galo reclama que “uma das coisas que mais atrapalha a esquerda hoje, é que não existe espaço para o escroto na esquerda. Você tem que ser perfeito.”, defendendo que falas machistas e misóginas fazem parte do senso comum, e que todos os homens trabalhadores brasileiros estão inseridos nesse contexto. Me tire fora dessa, seu galo. E tire também outros muitos homens que não concordam com esse pensamento. Ele também argumenta que quando não aceitamos o “escroto” na esquerda, estamos jogando-o no colo da extrema direita por se recusar a dialogar com ele. Segundo a lógica que ele utiliza para falar do "machismo da classe trabalhadora", se um trabalhador é racista e está acostumado a chamar o seu colega preto de "macaco", não devemos contrariá-lo para não o jogar nas mãos do fascismo.
Afinal de contas, nos papos de boteco os trabalhadores brancos estão falando que tudo agora é racismo, e os pretos estão sendo beneficiados em tudo. Galo também usa a analogia do futebol para questionar o porquê de ele - que já luta tanto pelos direitos dos motoboys - ter que "defender quem dá o cu", se já tem quem faz isso. E nesse contexto, ele cita de forma “escrota” a deputada Erika Hilton como responsável por defender os LGBTS, os quais ele resume como pessoas que dão o “cool”. O Galo questiona “por que todo mundo tem que jogar na mesma posição? Por que eu, que sou um motoboy, que tenho que fazer greve de motoboy, tenho que defender quem quer dar o c... Olha só a palavra que eu usei: dar o c... Ofensivo, né? Mas é assim que o trabalhador fala. Por que a Erika Hilton não defende isso? Eu defendo o meu, e a gente joga no mesmo campo. Ela numa posição, eu numa outra (...) por que todo mundo tem que se comunicar do mesmo jeito? Por que todo mundo quer ser o camisa 10? Tá todo mundo querendo ser o Ronaldinho Gaúcho. E o gol, e a zaga, e o camisa 3, o camisa 4, o camisa 2, o camisa 8...”
O Galo se esquece que o futebol, assim como a luta dos trabalhadores, deve ser algo coletivo. Sendo assim, todos devem obedecer ao mesmo esquema tático. E dentro de todo esquema tático há situações em que o camisa 3 precisa fazer a função do camisa 2, o camisa 4 precisa fazer a proteção do camisa 5, o camisa 8 precisa dar apoio ao camisa 7 , e o camisa 10 também – geralmente o craque do time – também precisa voltar para ajudar na defesa quando o time precisa. Não que todos tenham que ser craques do time – também não sei se Galo está se achando o craque do time dos motoboys, ou um novo craque dentro do time da esquerda - mas dentro de uma equipe onde os atletas compraram a ideia de jogo e querem ser campeões, todos correm uns pelos outros quando necessário, em busca do mesmo objetivo: as vitórias. São elas que levaram o conjunto ao tão sonhado título.
Frases como: “Uma das coisas que mais atrapalha a esquerda hoje, é que não existe espaço para o escroto na esquerda. Você tem que ser perfeito.”, “Se você não tem uma comunicação direta com o senso comum, o fascismo avança nessa brecha.”, e "Onde já se viu pastor defender LGBT" – esta última, usada por ele para se referir ao pastor se deputado federal Henrique Vieira, e sua pregação evangélica inclusiva - só demonstram o quanto a esquerda deve estar mais atenta às pessoas que alça como lideranças. O Galo consegue perceber que a extrema direita naturalizou o discurso do senso comum para ganhar votos sobre a ignorância de muitos trabalhadores, mas não consegue perceber que esses trabalhadores não devem permanecer nesta ignorância, pois isso só continuará beneficiando o discurso do fascismo.
Será que ele sabe o significado de progressismo? Será que ele entende que alguém que se proponha a ser um revolucionário não deve dialogar com o senso comum? Pelo contrário, deve desconstruir tais pensamentos, pois eles disseminam preconceitos estruturais e culturais que atingem diretamente a pessoas pertencentes às minorias representativas. Será que ele sabe que muitos trabalhadores - incluindo motoboys - também usam o monossílabo sem acento para práticas sexuais? Até alguns que não são oficialmente LGBTS o fazem na encolha (risos e nada contra). Será que ele conhece mesmo a realidade da sociedade? Será que ele conhece mesmo a realidade da maioria da classe trabalhadora brasileira, ou está preso a uma bolha de motoboys que pensam e agem de acordo com o senso comum, e querem padronizar os demais trabalhadores sob o seu paradigma? São mesmo todos os homens trabalhadores, um bando de brucutus sem educação, que gostam de cantar de galo no terreiro dos outros?
Cuidado, caros esquerdistas! Em verdade vos digo que, se o galo continuar cantando nesse ritmo, antes mesmo do amanhecer, você negará o progressismo por três vezes. São Pedro que o diga.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



