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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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O fim da democracia norte-americana

A escalada autoritária sob o governo Trump expõe riscos reais à democracia dos EUA e reforça o alerta para que o Brasil não repita o mesmo caminho

Policiais agridem um manifestante que bloqueava a entrada da garagem do Edifício Federal de Los Angeles após múltiplas detenções pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), no centro de Los Angeles, Califórnia, EUA, em 6 de junho de 2025 (Foto: REUTERS/Daniel Cole)

A democracia não costuma morrer de uma vez. Ela vai sendo tensionada, corroída, esvaziada por dentro. O que se observa nos Estados Unidos sob o governo Trump é justamente esse processo: uma sequência de decisões e gestos políticos que, somados, desenham um preocupante enfraquecimento das bases democráticas.

A atuação do ICE tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa escalada. A política de perseguição agressiva a imigrantes, com operações espetaculosas e detenções em massa, ultrapassa o debate legítimo sobre controle migratório e assume contornos de intimidação social, inclusive naturalizando a morte de cidadãos norte-americanos por esses agentes. Mais grave ainda é o envio de agentes federais para atuar de maneira ostensiva em estados e cidades governados por democratas, muitas vezes à revelia das autoridades locais, tensionando o pacto federativo e criando uma espécie de intervenção política indireta.

A democracia também se enfraquece nos gestos simbólicos. A exclusão de governadores democratas de eventos tradicionais que historicamente reuniam lideranças de ambos os partidos com o presidente — inclusive a ausência de convite ao único governador negro do país — não é mero detalhe protocolar. É sinalização política de que o diálogo institucional deixa de ser regra para dar lugar à lógica da exclusão e do adversário como inimigo.

Há ainda o uso do orçamento como instrumento de pressão. O corte ou bloqueio de verbas destinadas a áreas sensíveis, como saúde pública, em estados governados pela oposição, não se enquadra apenas como divergência administrativa. Trata-se de uma prática que instrumentaliza políticas públicas para punir o povo em nome de divergências políticas, ferindo o princípio de que o Estado deve servir à população independentemente da cor partidária de seus governantes.

A retórica constante de deslegitimação de eleições, ataques à imprensa, confrontos com o Judiciário e estímulo à polarização permanente completam esse quadro. Democracias vivem do respeito às regras do jogo, da alternância de poder e da confiança nas instituições. Quando o próprio chefe do Executivo coloca esses pilares sob suspeita contínua, o sistema passa a operar sob tensão permanente.

Não por acaso, manifestações de rua e mobilizações da sociedade civil têm se multiplicado nos Estados Unidos. Parte significativa da população percebe que a normalização de práticas autoritárias corrói silenciosamente o regime democrático. A história mostra que erosões institucionais nem sempre são abruptas; muitas vezes acontecem sob o manto da legalidade formal.

Esse modelo não é distante da realidade brasileira. Foi exatamente esse tipo de projeto que a família Bolsonaro tentou implementar no Brasil, seja pela via eleitoral, seja pela tentativa de ruptura institucional entre 2022 e 2023. A afinidade política e discursiva não era coincidência. Documentos já tornados públicos indicam, inclusive, a circulação de recursos e articulações internacionais que levantam questionamentos sobre financiamentos e conexões transnacionais de grupos extremistas. Parte dos documentos do caso Epstein que vieram a público confirma o repasse de milhões de dólares a pessoas no Brasil.

O Brasil escapou de um processo mais profundo de deterioração democrática graças à resistência institucional e à reação da sociedade. Mas o alerta permanece. O que se observa nos Estados Unidos não pode ser tratado como modelo a ser seguido. Ao contrário, deve servir de advertência.

A democracia norte-americana, com sua tradição e seus freios institucionais, certamente reagirá. As manifestações nas ruas indicam que parte expressiva da sociedade não aceita a substituição do diálogo pelo confronto permanente. Muito provavelmente, essa inflexão autoritária será rechaçada pelos próprios eleitores.

O fim da democracia não é inevitável — e, por isso, exige vigilância constante. Essa é uma lição que vale tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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