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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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O Estado da União como reality show

Trump transforma a política em espetáculo enquanto os dados insistem em existir

Trump discursa nos Estados Unidos (Foto: Reuters)

Nos Estados Unidos, o State of the Union não é apenas um discurso anual. É uma tradição constitucional prevista no Artigo II da Constituição: o presidente deve informar ao Congresso sobre a situação do país e propor diretrizes legislativas. Trata-se de um rito institucional de grande peso simbólico, televisionado em horário nobre, acompanhado por milhões e interpretado como momento de prestação de contas. Diferentemente de muitos presidencialismos, o evento adquiriu nos EUA contornos quase litúrgicos — uma cerimônia cívica que combina política, institucionalidade e dramaturgia.

O que Donald Trump apresentou nesta terça-feira (24) foi sobretudo dramaturgia.

Desde os primeiros minutos ficou claro que não se tratava de um relatório sobre o estado real da União, mas de uma experiência cuidadosamente roteirizada. Medalhas distribuídas ao vivo. Convidados-surpresa convocados sob aplausos. Reencontros emocionais. Heróis militares chamados ao palco como se estivéssemos na final do Super Bowl. Em vez de uma exposição estruturada de políticas públicas, assistiu-se a um programa de auditório com trilha sonora patriótica.

Quando a política vira game show, a realidade vira figurante.

A economia da hipérbole

Trump insistiu que os Estados Unidos vivem uma “era de ouro”. O crescimento seria “histórico”, os preços estariam “despencando”, a indústria estaria “renascendo como nunca antes”. A retórica, como sempre, operou por superlativos.

Os dados, no entanto, continuam mais sóbrios.

A inflação anual permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve, girando na faixa de 3%–4%. As taxas hipotecárias, mesmo com alguma acomodação, continuam elevadas para padrões da última década. O endividamento das famílias ultrapassa US$ 17 trilhões. O déficit federal projetado para este exercício supera US$ 1,5 trilhão. O custo da saúde continua pressionando os orçamentos domésticos. O crédito ao consumo permanece caro.

Nada disso apareceu como problema estrutural. No universo retórico do presidente, qualquer desaceleração vira “transição estratégica” e qualquer indicador ambíguo se transforma em “a maior recuperação da história”.

Se o crescimento não impressiona, declara-se impressionante. Se a inflação não desaparece, afirma-se que está “despencando vertiginosamente”. Se as tarifas elevam custos internos, chamam-se de “proteção patriótica”.

É uma política econômica por adjetivo.

Estudos recentes mostram que grande parte do custo das tarifas impostas recai sobre empresas e consumidores americanos, pressionando cadeias produtivas e preços domésticos. Mas no discurso presidencial, tarifas são apresentadas como arma mágica contra o déficit comercial, como se a macroeconomia pudesse ser conduzida à base de bravatas.

A política do inimigo

A imigração voltou a ser o eixo emocional da noite. Fronteira sitiada, invasão iminente, ameaça permanente. Dados complexos sobre fluxos migratórios foram substituídos por casos isolados narrados com carga dramática. O método é conhecido: substituir estatística por anedota, análise por indignação.

Estudos acadêmicos reiteram que imigrantes não apresentam taxas de criminalidade superiores às da população nativa. O presidente prefere contar histórias que cabem no tempo da televisão. É mais eficiente politicamente.

A cada momento em que a atenção do público poderia vacilar, surgia um novo gesto teatral: mais uma medalha, mais um herói, mais uma cena emocionalmente calculada. Não se tratava de governar. Tratava-se de manter a audiência.

O mundo reduzido a slogan

No plano internacional, o discurso revelou algo ainda mais inquietante: a ausência de estratégia.

Num momento em que a economia mundial atravessa transição estrutural — com a Ásia respondendo por mais de 60% do crescimento global — a Casa Branca ofereceu pouco além de retórica competitiva. A China foi mencionada como rival, mas sem plano consistente para lidar com sua liderança em tecnologia, semicondutores ou infraestrutura global. Nenhuma reflexão séria sobre a expansão do BRICS, sobre a reorganização financeira internacional ou sobre o declínio relativo da centralidade atlântica.

Enquanto Pequim investe pesadamente em cadeias tecnológicas estratégicas e consolida articulações regionais, Washington celebra medalhas ao vivo.

Em relação ao Irã, manteve-se o tom de ameaça e pressão, mas sem qualquer desenho diplomático claro. A política externa foi apresentada como extensão da política doméstica — musculatura retórica para consumo interno.

Não houve praticamente nenhuma menção substantiva à crise climática, apesar de eventos extremos cada vez mais frequentes no próprio território americano. Nenhuma proposta robusta de reconstrução multilateral. Nenhum esforço visível para recompor a credibilidade internacional erodida nos últimos anos.

O mundo está se reorganizando. O discurso preferiu fingir que está vencendo.

A normalização da ficção

Talvez o elemento mais perigoso não seja o exagero — exageros fazem parte da política. O problema é a naturalização da distorção sistemática como método de governo.

Quando o presidente afirma que “estamos vencendo tanto que as pessoas pedem para parar de vencer”, não se trata apenas de humor involuntário. Trata-se da construção de uma narrativa impermeável a fatos. Uma realidade alternativa que dispensa verificação.

O Estado da União deveria ser momento de convergência mínima institucional. Transformou-se em palco de polarização deliberada. Democratas foram retratados como sabotadores. Críticas foram enquadradas como traição. O Congresso funcionou como cenário.

A política deixou de ser prestação de contas para virar performance.

Há algo de profundamente simbólico nisso. Um governo que inclui figuras oriundas do entretenimento e da televisão constrói uma lógica governamental compatível com essa estética: emoção acima de argumento, imagem acima de diagnóstico, audiência acima de política pública.

O custo democrático

Pesquisas recentes indicam que parcela relevante da população americana acredita que o país está no rumo errado e que sua situação econômica pessoal não melhorou substancialmente. O hiato entre experiência concreta e narrativa oficial cresce.

Quando a política insiste que tudo vai “melhor do que nunca” enquanto o eleitor sente o contrário, instala-se uma tensão cognitiva. Essa tensão não desaparece. Ela se acumula.

Democracias dependem de um mínimo compartilhado de realidade factual. Quando a política passa a operar predominantemente no registro da versão — e não do dado — a erosão institucional é silenciosa, mas constante.

O Estado da União de 2026 não foi apenas um discurso longo. Foi a consolidação de um estilo de governo: espetáculo permanente, polarização estratégica e hipérbole como instrumento central.

Se esse é o “estado da União”, a pergunta que permanece não é sobre aplausos ou medalhas.

É sobre quanto tempo uma democracia consegue sustentar-se quando a política decide competir com o entretenimento — e vencer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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