O escândalo Epstein e a engrenagem obscena do poder global
E-mails registram presentes, empregos e favores sexuais como moeda de poder, envolvendo Hollywood, monarquia britânica, ex-presidentes e 74 menções a Bolsonaro
A divulgação escalonada dos arquivos ligados a Jeffrey Epstein produziu um abalo que ultrapassa o campo policial e invade o coração do poder contemporâneo. Não se trata apenas da exposição tardia de um predador sexual em série, mas da revelação de um sistema transnacional de cumplicidades que envolveu autoridades públicas, celebridades, empresários, intelectuais e intermediários financeiros em diversos países. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, circuitos de Hollywood e, em menor escala, conexões que alcançam o Brasil aparecem entrelaçados em documentos oficiais liberados pelo Departamento de Justiça norte-americano entre 2023 e 2026.
O impacto é global porque o esquema era global. E porque lança suspeitas sobre instituições inteiras, corroendo a confiança pública em democracias já fragilizadas.
Jeffrey Epstein entrará para a história como um dos mais bem-sucedidos — e mais repulsivos — operadores sociais do século XXI. Não construiu poder formal, mas dominou os bastidores. Circulava com desenvoltura entre banqueiros, cientistas renomados, políticos, bilionários e figuras centrais da indústria cultural.
Seu método era direto: troca de favores, acesso privilegiado, presentes de alto valor, exploração sexual sistemática de jovens vulneráveis e, segundo investigadores, a manutenção deliberada de ambientes propícios à chantagem. Poucos pareciam fora de seu alcance. Apenas Vladimir Putin, segundo os registros conhecidos até agora, jamais apareceu em sua órbita.
Um padrão se repete nos arquivos: a negação organizada. Quase todos os citados afirmaram publicamente que “mal o conheciam”. Diante da liberação de e-mails, fotos, agendas de voo, listas de convidados e mensagens diretas, a narrativa migrou para outra defesa: diziam não saber o suficiente para perceber crimes sexuais contra menores.
O resultado foi previsível: carreiras interrompidas, conselhos administrativos desfeitos, contratos rompidos, reputações irremediavelmente manchadas. O espanto não está na queda, mas no tempo de tolerância social que a antecedeu.
Mesmo após sua condenação em 2008, na Flórida, por crimes sexuais envolvendo menores, Epstein continuou a ser recebido por figuras centrais do establishment. Em 2019, quando voltou à prisão acusado de tráfico sexual em âmbito federal, o círculo de relações ainda estava ativo. O sofrimento das vítimas — muitas delas adolescentes recrutadas em situação de vulnerabilidade econômica e emocional — permaneceu, por anos, em segundo plano.
A razão é brutalmente simples: Epstein oferecia vantagens concretas. Acesso a redes exclusivas, atalhos profissionais, viagens privadas, prestígio simbólico e um fluxo contínuo de benefícios materiais. Os arquivos revelam, com clareza desconfortável, o desejo de uma elite que se julgava acima das regras.
Os exemplos são explícitos. Bolsas de luxo, voos em jatos particulares, estadias em ilhas privadas no Caribe, doações direcionadas a escolas e fundações, empregos arranjados para filhos e protegidos. Uma jovem conseguiu trabalhar em um filme de Woody Allen; trata-se de uma vítima inserida no circuito profissional por intermediação direta de Epstein, o que reforça o padrão de favorecimento pessoal e a assimetria de poder presente nessas relações. Outros receberam “companhias femininas” descritas em linguagem fria, técnica, quase administrativa.
Tudo registrado sem constrangimento, como se fosse parte natural de um sistema de trocas.
Anand Giridharadas definiu bem o mecanismo ao analisar lotes anteriores de e-mails: tratava-se de uma economia de trocas baseada em privilégios e informações não públicas. Não era o mundo das gentilezas sociais, mas o da negociação silenciosa. Epstein operava como um facilitador de luxo, um articulador de acessos no interior do poder global. Providenciava helicópteros, aviões, festas, encontros seletivos e conexões estratégicas.
Em 2012, trocou mensagens diretas com Elon Musk sobre transporte aéreo e eventos privados. Nada era acidental, improvisado ou inocente.
A lista de presentes documentados impressiona. Relógios caros, bolsas Hermès, roupas sob medida, milhares de dólares em vestuário enviados a Steve Bannon, Noam Chomsky e ao próprio Woody Allen. O jornalista Michael Wolff aparece reiteradamente agradecendo mimos recebidos, com naturalidade constrangedora, como se a troca de favores fosse parte banal do cotidiano.
Entre os casos mais simbólicos está o do príncipe Andrew, figura central da família real britânica à época e filho direto da rainha Elizabeth II. Fotografado com Virginia Giuffre, então com 17 anos, Andrew tornou-se um dos rostos mais visíveis do escândalo.
A repercussão foi tão devastadora que, em 2022, ele foi obrigado a se afastar da vida pública, perdeu seus títulos militares honorários e deixou de usar o tratamento de “Sua Alteza Real”, em uma decisão inédita e profundamente constrangedora para a monarquia britânica moderna. O episódio abalou o prestígio simbólico da Coroa e expôs fissuras éticas em seu círculo mais fechado.
Há também registros envolvendo Bill Clinton, que aparece em fotografias, agendas e registros de deslocamento ligados a viagens e encontros privados.
O que não deveria surpreender, dado o abismo sem fundo em que a cúpula do poder político e econômico em uma dezena de países do mundo se encontra, é que nenhuma dessas conexões foi suficiente, à época, para romper o pacto de conveniência que protegia Epstein e preservava o silêncio coletivo.
Os arquivos revelam ainda conexões com o Brasil. O nome do ex-presidente Jair Bolsonaro aparece citado 74 vezes nos documentos analisados por autoridades norte-americanas, em registros de contatos indiretos, menções cruzadas e relações com figuras que transitavam no mesmo circuito internacional de Epstein. Não há, até o momento, acusação formal de crime, mas o volume de citações levanta questões legítimas sobre proximidade política, redes de relacionamento e a normalização de ambientes frequentados por um criminoso sexual já conhecido internacionalmente.
Há algo que precisa ser dito com clareza, sem eufemismos nem cautela diplomática.
O que os arquivos Epstein revelam é uma rede marcada por promiscuidade sistêmica, pela banalização da prostituição e pelo tráfico sexual de meninas menores de idade, exploradas como mercadoria em ambientes de poder. Não se trata de excessos individuais, mas de um padrão de comportamento que naturalizou a violência sexual como parte do jogo social.
O silêncio cúmplice, a relativização moral e a disposição em “não perguntar demais” transformaram o crime em rotina e a exploração em moeda. Essa rede não apenas abusou de menores — ela contou com adultos instruídos, ricos e influentes que escolheram olhar para o outro lado.
O nome de Donald Trump aparece milhares de vezes nos arquivos. Ironia histórica: foi ele quem prometeu desmontar a elite corrupta que Epstein simbolizava. O discurso colou, alimentou ressentimentos e abriu espaço para teorias conspiratórias como o QAnon.
Delirantes na forma, mas ancoradas em uma intuição real: existia, de fato, uma elite global blindada pela impunidade.
Os arquivos Epstein misturam o banal e o monstruoso, a vaidade e o crime. Revelam que a condenação moral jamais foi um obstáculo quando havia algo a ganhar.
Epstein não foi uma exceção isolada. Foi um sintoma extremo de um sistema que normalizou a amoralidade como método, o abuso como privilégio e o silêncio como proteção. E é isso — mais do que os nomes — que torna esse caso verdadeiramente explosivo. Os estilhaços continuarão repercutindo neste e nos próximos anos, se as investigações forem conduzidas com a seriedade que todos esperam.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
