O Dia das Mães e a mentira da perfeição materna
Mães brasileiras enfrentam abandono e reinventam caminhos
Conta uma antiga narrativa andina que, antes de existir qualquer estrada, as mulheres caminhavam carregando os filhos presos ao corpo enquanto atravessavam montanhas geladas. Não havia caminhos pavimentados, apenas pedras, vento e altitude. Diziam que a Pachamama, a mãe-terra, observava aquelas mulheres em silêncio. E que certa vez uma criança perguntou à mãe por que ela continuava andando mesmo tão cansada. A mulher respondeu apenas: “Porque quando uma mãe para, o mundo do filho também para.”
Talvez a maternidade seja isso desde sempre. Uma travessia construída enquanto se caminha.
De diferentes culturas surgem histórias parecidas. Entre povos indígenas das Américas, divindades maternas aparecem menos como rainhas idealizadas e mais como figuras que sustentam a vida em meio à dureza do mundo. Na tradição iorubá, Iemanjá é mãe das águas e também mulher ferida, exausta, atravessada por deslocamentos e perdas. Já entre povos inuítes, Sedna, a Mãe do Mar, transforma dor e abandono em força vital para alimentar comunidades inteiras.
Nenhuma dessas histórias fala de maternidade como perfeição, elas falam de mulheres que seguem abrindo passagem quando não existe estrada pronta.
No Brasil, o Dia das Mães ainda é vendido como uma espécie de estrada pavimentada. Um roteiro pronto onde toda mulher nasce destinada ao cuidado, ao amor incondicional e ao sacrifício silencioso. Flores, propagandas e comerciais insistem numa maternidade linear, doce e moralmente impecável. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que a experiência materna quase nunca foi uma via lisa. Ela sempre esteve mais próxima da travessia, da improvisação e da sobrevivência.
Os números ajudam a desmontar uma das maiores ficções da história brasileira. Segundo dados recentes do IBGE, quase metade dos lares do país já é chefiada por mulheres, realidade que ultrapassa os 50% em alguns estados brasileiros. Em milhares de casas, são mães, avós e mulheres solo que sustentam economicamente, emocionalmente e afetivamente a vida cotidiana. Ainda assim, seguem recebendo menos, acumulando jornadas exaustivas de trabalho e assumindo, quase sempre sozinhas, o cuidado doméstico e a criação dos filhos. O que durante séculos foi narrado como liderança masculina dos lares revela outra verdade quando atravessado pelas estatísticas. O Brasil foi sustentado silenciosamente por mulheres que trabalharam até a exaustão para manter suas famílias de pé, muitas vezes sem reconhecimento, sem descanso e sem o direito sequer de falhar.
A filósofa Simone de Beauvoir já alertava que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. A maternidade, nesse sentido, não pode ser entendida apenas como instinto biológico. Ela é também construção histórica, política e cultural. Durante séculos, mulheres foram empurradas para um caminho previamente autorizado, uma espécie de “estrada pavimentada” da feminilidade normativa, onde ser mãe aparecia não como escolha, mas como destino inevitável.
Essa metáfora da estrada ajuda a compreender como a sociedade organiza expectativas sobre família, gênero e afeto. Eu tenho tentado discutir justamente os mecanismos que tornam algumas vidas menos dolorosas e outras que são desviantes. Existe um percurso socialmente legitimado para o que se entende como “boa mulher” e “boa mãe”. Quem escapa desse modelo encontra sanções e violências simbólicas.
Mas há mulheres que nunca puderam caminhar sobre as estradas prontas. Gloria Anzaldúa fala das existências construídas nas fronteiras, nos terrenos instáveis, nas travessias improvisadas. Mulheres outras, as lésbicas, as periféricas, as trans e tantas outras. Para mães negras, pobres, periféricas, indígenas, trans e dissidentes, a maternidade raramente foi uma experiência protegida, foi luta cotidiana contra o abandono social.
Audre Lorde fala que a maternidade é uma sobrevivência política. Criar filhos, para inúmeras mulheres, significou enfrentar estruturas inteiras organizadas para destruir suas famílias, seus corpos e suas possibilidades de futuro. Lélia Gonzalez demonstrou como o Brasil foi sustentado por mulheres invisibilizadas que carregaram trabalho doméstico, cuidado e sobrevivência sem reconhecimento econômico ou simbólico.
Por trás da romantização do Dia das Mães existe uma realidade menos confortável. Nem toda maternidade produz acolhimento e nem todo amor protege. bell hooks lembrava que amor não é apenas sentimento declarado, o amor exige responsabilidade, reconhecimento e cuidado ético com a humanidade do outro.
A psicanálise também nos obriga a abandonar idealizações simplistas. O psicanalista Donald Winnicott dizia que não existe mãe perfeita, mas mãe suficientemente boa. Ainda assim, existem experiências maternas atravessadas por narcisismo, violência emocional, culpa e controle. Há filhos feridos pela ausência de amor, pelo excesso sufocante de um amor incapaz de reconhecer o outro como sujeito e também aqueles feridos pela falta.
Talvez seja justamente aí que o Dia das Mães precise amadurecer nossa sociedade. Algumas pessoas tiveram sorte e encontraram colo e reconhecimento, outras cresceram em desertos afetivos e houve também aquelas mulheres que, sem glamour ou romantização, decidiram apenas tornar humanos seus filhos, dar comida, estudo e pouco além. Elas tentaram produzir alguma dignidade onde o Estado, a família ou o mundo falharam.
Paulo Freire lembrava que a libertação nunca acontece em caminhos previamente dados pela opressão por que exige construção coletiva de novas travessias. Talvez a maternidade brasileira seja exatamente isso, uma experiência construída entre improvisos, erros e reinvenções.
E enquanto a sociedade insistia em afirmar que os ombros que sustentavam os lares eram masculinos, milhões de mulheres carregavam silenciosamente o peso inteiro da vida cotidiana.
No fundo, o Dia das Mães talvez não devesse celebrar perfeições inexistentes, talvez devemos reconhecer aquelas que, mesmo sem estrada pavimentada, seguiram abrindo caminhos enquanto caminhavam e festeja-las!
Dedico as Mães da Diversidade e as Mães da Resistência, que emergiram de dois grupos políticos opostos e que em 2026 caminharão juntas na PARADA LGBTI de São Paulo em prol das alianças que fazemos na vida por dias melhores por nós e nossos filhos, filhas e filhes.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




