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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O colapso de Orbán e a encruzilhada brasileira

A crise de Viktor Orbán, ídolo de Trump e vitrine mundial da ultradireita, expõe fissuras num modelo autoritário que durante anos pareceu invencível

Viktor Orbán em Budapeste 14/11/2024 (Foto: REUTERS/Bernadett Szabo)

Mesmo com Jair Bolsonaro condenado a 27 anos e três meses por tentativa de golpe e outros crimes, o bolsonarismo segue vivo, competitivo e pode tentar voltar ao poder pela candidatura de Flávio Bolsonaro, hoje em empate técnico com Lula. 

A Hungria mostra que até um “homem forte” pode sangrar. O Brasil mostra que a ultradireita não morre sozinha. Ela muda de forma, troca de rosto e volta a disputar o poder. 

O próximo domingo, 12 de abril, pode marcar o início do fim para um dos maiores símbolos da erosão democrática contemporânea. Na Hungria, o regime autocrático de Viktor Orbán, que há 16 anos asfixia instituições e controla a narrativa nacional, enfrenta a ameaça real de um despejo pelas urnas.  

Segundo a Reuters, a reta final da disputa parlamentar chega com pesquisas independentes mostrando o oposicionista Péter Magyar e o partido Tisza à frente do Fidesz, ainda que Orbán siga competitivo num sistema inclinado a seu favor.  

Se vier, sua queda não será apenas uma derrota local. Será um golpe devastador naquilo que se pode chamar de Internacional Reacionária: a rede de ultradireita global que transforma ódio, pânico moral e ressentimento em combustível para o poder. 

Uma referência para setores trumpistas e bolsonaristas 

Orbán não é apenas o primeiro-ministro da Hungria. É um símbolo mundial da ultradireita. Durante 16 anos, foi tratado como a prova de que era possível esvaziar a democracia por dentro sem abolir formalmente as eleições, sem fechar o Parlamento e sem recorrer a tanques nas ruas.  

Sob seu comando, a Hungria virou o laboratório mais acabado de um novo autoritarismo: nacionalista, antiliberal, ultraconservador, sustentado por guerra cultural permanente, concentração de poder, corrosão dos freios institucionais e captura progressiva da esfera pública. O modelo clássico da ultradireita global e da extrema direita brasileira. 

Conforme noticiado pela AP e pelo Guardian, foi exatamente isso que transformou Orbán em vitrine internacional da nova direita autoritária e em referência para setores trumpistas e bolsonaristas. 

Orban e Bolsonaro: ambos partiram do mesmo núcleo 

A comparação com o Brasil não é forçada. Orbán e Jair Bolsonaro governaram com estilos distintos, mas com a mesma gramática política. Orbán foi mais frio, mais paciente e mais eficaz na ocupação institucional. Bolsonaro foi mais tosco, mais estridente e mais destrutivo.  

Um operou como engenheiro do autoritarismo. O outro, como incendiário permanente. Mas ambos partiram do mesmo núcleo: nacionalismo agressivo, uso político da religião, guerra cultural sem trégua, demonização da imprensa, fabricação de inimigos internos e hostilidade aberta a limites democráticos. Orbán consolidou esse método por 16 anos.  

Bolsonaro não conseguiu completá-lo: perdeu a eleição de 2022, tentou subverter o resultado e acabou condenado a 27 anos e três meses de prisão por tramar um golpe de Estado, como registrou a Reuters. Agora, tenta recuperar o poder via o primogênito e herdeiro político Flávio Bolsonaro. 

O laboratório Orbán entra em zona de risco 

A novidade mais eloquente da reta final é o desgaste de Orbán entre os jovens. Segundo a Reuters, a rejeição ao premiê é particularmente intensa entre eleitores de 18 a 39 anos, muitos dos quais associam seu governo à corrupção, à crise da educação, à falta de perspectivas e até ao desejo de deixar o país caso ele seja reeleito.  

Esse dado é devastador. Regimes autoritários suportam escândalos, suportam crises e até suportam recessão por algum tempo. O que lhes corrói a base histórica é a perda de futuro. Quando a juventude passa a ver o poder como sinônimo de atraso, bloqueio e sufocamento, o regime começa a envelhecer em praça pública. 

A campanha húngara também entrou numa zona de tensão quase permanente. Segundo a Reuters, autoridades sérvias encontraram explosivos perto de um gasoduto que leva gás russo à Hungria, e Orbán convocou um conselho de defesa para tratar o caso.  

O episódio reforçou um traço clássico do orbanismo: governar sob clima contínuo de ameaça, excepcionalidade e insegurança. De acordo com a AP, Péter Magyar passou a apresentar a eleição como um referendo sobre o lugar da Hungria no mundo: continuar a deriva iliberal, frequentemente alinhada a Moscou e em confronto com a União Europeia, ou tentar uma reaproximação com a UE e com padrões mais liberais de democracia.  

A Hungria já não está escolhendo apenas um governo. Está escolhendo uma orientação de regime. 

O problema brasileiro já não é Jair. É a herança 

Mas o ponto mais grave para o Brasil já não é Jair Bolsonaro em si. É a sua herança política. É a possibilidade de o sobrenome, a base social, a máquina digital, o capital simbólico e o projeto autoritário do ex-presidente serem transferidos para Flávio Bolsonaro.  

Esse é o núcleo do perigo brasileiro. Se a Hungria mostra como a ultradireita pode ocupar o Estado por dentro, o bolsonarismo mostrou até onde pode ir no Brasil quando converte ressentimento, fanatismo e desinformação em estratégia de poder. 

É isso que dá à eleição presidencial de outubro de 2026 um peso histórico. Os dados mais recentes confirmam que o risco não é retórico. Segundo a Genial/Quaest, divulgada entre março e abril, Lula e Flávio aparecem em empate numérico absoluto no segundo turno, com 41% para cada lado.  

Segundo a AtlasIntel/Bloomberg, Flávio surge com 47,6%, contra 46,6% de Lula, abrindo uma vantagem marginal que evidencia o peso do desgaste do governo na sobrevivência eleitoral do bolsonarismo. Já a pesquisa BTG Pactual/Nexus, noticiada pela Reuters, mostra Lula à frente no primeiro turno, mas com a disputa final totalmente aberta, sem favorito claro, e com empate técnico no segundo turno. 

O dado é brutal. Significa que, mesmo com Jair Bolsonaro condenado, o bolsonarismo segue plenamente competitivo e pode tentar retornar ao Planalto por via familiar, política e ideológica. Não se trata de mera troca de nomes. Trata-se da tentativa de reciclar o mesmo campo extremista que atacou instituições, desacreditou as urnas e desembocou na tentativa de ruptura.  

O risco é a atualização do bolsonarismo 

Segundo a Reuters, Flávio tem ganhado tempo até para adiar o anúncio de sua equipe econômica porque a melhora nas pesquisas lhe deu fôlego político. Isso, por si só, já dimensiona o tamanho do perigo. 

Isso muda tudo. O risco não é simplesmente a repetição de 2019. O risco é algo mais frio: a atualização do bolsonarismo. Menos improvisada no estilo, talvez. Menos caricatural na forma, talvez. Mas potencialmente mais funcional na estratégia.  

Se Jair Bolsonaro representou a face mais bruta e barulhenta da extrema direita brasileira, Flávio pode encarnar sua versão de aparência mais palatável, capaz de tentar o que Orbán realizou na Hungria: ocupar o Estado por dentro, normalizar o autoritarismo, desgastar gradualmente os freios democráticos e transformar a máquina pública em instrumento de facção. 

É uma inferência política, sim, mas sustentada pela afinidade objetiva entre esses modelos e pelo prestígio internacional de Orbán como referência da direita radical. 

A ameaça real sobre a centro-esquerda até outubro 

É aqui que o alerta precisa soar sem anestesia. A centro-esquerda progressista brasileira não enfrenta apenas um adversário eleitoral. Enfrenta um campo político que já demonstrou desprezo pelos limites democráticos e que conserva base social, presença institucional, capilaridade religiosa, potência digital e capacidade permanente de fabricar caos.  

A condenação de Jair Bolsonaro não dissolveu o bolsonarismo. Apenas o obrigou a buscar outra embalagem. E a embalagem de 2026 pode ser Flávio Bolsonaro. 

Isso significa que o campo democrático não tem direito à distração. Não pode apostar apenas no desgaste natural do adversário. Não pode tratar o extremismo como fenômeno em declínio automático. Não pode confundir o enfraquecimento de um símbolo internacional, como Orbán, com a neutralização da ameaça local. 

 Projetos autoritários não caem sozinhos 

A crise húngara é importante porque fere um mito. Mas mito ferido não basta. No Brasil, o perigo continua inteiro. E continua eleitoralmente viável. Os números de Quaest, AtlasIntel/Bloomberg e BTG/Nexus mostram exatamente isso. 

O caso húngaro ensina, aliás, uma lição dura e simples: projetos autoritários não caem sozinhos. Eles se desgastam, sim. Envelhecem, sim. Perdem brilho, sim. Mas continuam perigosos enquanto conservam estrutura, narrativa e capacidade de converter medo em voto.  

Orbán talvez esteja provando isso em tempo real. Mesmo sob desgaste, segue competitivo porque passou anos rearranjando o tabuleiro. Esse deveria ser o aprendizado brasileiro.  

Nenhuma democracia derrota a extrema direita apenas esperando que ela apodreça no próprio tempo. É preciso enfrentá-la politicamente, desmontar sua mitologia, expor seus vínculos internacionais, denunciar seus métodos e mobilizar maiorias concretas. 

O aviso da Hungria para o Brasil 

A situação de Orbán pode, sim, ser lida como sinal de desgaste da ultradireita global, mas só até certo ponto. Ela não autoriza decretar o fim desse campo. A extrema direita continua organizada, internacionalizada e capaz de mobilizar medo, conservadorismo religioso, ressentimento social e antipolítica.  

O que a Hungria mostra, segundo Reuters, AP e Guardian, é algo mais preciso: até o modelo mais celebrado pode entrar em erosão. Até um regime longo, com máquina, propaganda e regras favoráveis, pode perder tração. Para o Brasil, isso tem valor simbólico e político. Enfraquece a ideia de que a ultradireita só sabe avançar. Mostra que também pode recuar. Mas seria um erro fatal transformar esse diagnóstico em conforto. 

No Brasil, o teste virá em outubro 

O Brasil chegará a outubro diante de uma escolha que vai muito além da alternância de governo. De um lado, estará a via democrática, popular e progressista representada por Lula. De outro, a tentativa de devolver ao centro do poder, por herança familiar e reciclagem estratégica, um projeto autoritário ligado à internacional ultradireitista que tem em Trump seu centro de gravidade e em Orbán um de seus modelos mais acabados. 

É esse o tamanho do desafio. É esse o tamanho do risco. E é esse o alerta que a centro-esquerda progressista precisa levar a sério até outubro: a ameaça não desapareceu. Só está mudando de forma. 

A novidade da Hungria apenas reforça essa conclusão. Orbán já não parece invencível. Mas continua perigoso. O bolsonarismo brasileiro talvez caminhe para a mesma encruzilhada. Só que, no Brasil, o teste virá em outubro. E virá com um detalhe que deveria soar como sirene: o projeto que tentou romper a democracia pode voltar com outro rosto, outro tom e o mesmo objetivo. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.