O capitalismo superindustrial
Fernando Haddad se destaca como um dos raros casos que combinam, de forma consistente, teoria e prática
Fernando Haddad é um caso especial de grande dirigente político que consegue, ao mesmo tempo, ter uma trajetória intelectual extraordinária. O que deveria ser a regra geral, ao estilo de Marx, Lenin e Gramsci, na tradição marxista, infelizmente ainda não é exemplo entre muitos outros. Intelectual e dirigente político, ele se apresenta como expressão da práxis marxista.
Em sua formação acadêmica, acumulam-se três pós-graduações — em direito, economia e filosofia — período em que tive o privilégio de ser seu professor, ao mesmo tempo em que ele ajudava seu pai no comércio da Rua 25 de Março, tradicional reduto do bairro árabe de São Paulo.
Sua mais recente obra, “Capitalismo superindustrial, caminhos diversos, destino comum”, reúne um conjunto de reflexões teóricas elaboradas enquanto exercia funções públicas de destaque. O livro é resultado dessa combinação entre pensamento e prática, trazendo reflexões de um dirigente político profundamente inserido na realidade concreta.
A obra, como um clássico marxista, inicia-se com análises da acumulação primitiva, mas voltadas à periferia do capitalismo. Em seguida, o autor examina três padrões periféricos de acumulação primitiva de capital, além de dialogar com interpretações de outros pensadores sobre o tema.
Na sequência, Haddad concentra-se na análise do que denomina marxismo oriental, abordando tanto o marxismo soviético quanto o trotskismo. Posteriormente, dedica-se ao que classifica como dissidência ocidental, incluindo o capitalismo de Estado, o coletivismo burocrático e a revolução organizacional.
No capítulo seguinte, a análise retorna ao que o autor caracteriza como desenvolvimento histórico não linear, incluindo discussões sobre o modo de produção asiático, os intelectuais e o redistributivismo racional, além do que denomina protossocialismo.
Em seguida, o livro se volta ao tema central: o capitalismo superindustrial. Haddad aborda uma nova configuração de classes sociais e as perspectivas emancipatórias, discutindo também o capitalismo cognitivo e o tecnofeudalismo, sempre sob uma perspectiva crítica.
Essa exposição apenas enuncia os temas centrais da obra. Como o próprio autor destaca, citando Marx na abertura do livro, “Essa história fala de você”. “A história do capitalismo é a história mundial, fala sobre todos nós”, acrescenta Haddad. Segundo ele, os caminhos da modernização em cada país não foram totalmente singulares, razão pela qual precisam ser compreendidos tanto em suas particularidades quanto em sua inserção em um mesmo processo. Daí sua preferência pelo termo “mundialização” em detrimento de “globalização”, que, para ele, obscurece realidades históricas distintas.
A ideia de capitalismo superindustrial apresenta uma visão do estágio atual, marcado pela mercantilização do conhecimento e sua incorporação como fator de produção. Trata-se de uma leitura sobre a natureza do capitalismo contemporâneo e suas implicações teóricas e práticas para a nova configuração das classes sociais.
Fernando Haddad se destaca como um dos raros casos que combinam, de forma consistente, teoria e prática, elaboração intelectual e atuação política. A publicação desta obra ocorre em um momento de intensa atividade pública, reforçando essa articulação entre reflexão e ação.
Este texto não pretende esgotar a riqueza e a complexidade do livro, mas apenas chamar a atenção de leitores interessados nas principais questões teóricas e na realidade contemporânea do Brasil e do mundo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
