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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O alerta ao Brasil dos protestos contra Trump nos EUA

Cerca de 10 milhões saem às ruas em 3.200 atos nos 50 estados na maior jornada de protesto da história recente dos Estados Unidos

O alerta ao Brasil dos protestos contra Trump nos EUA (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Donald Trump começou a enfrentar aquilo que os projetos autoritários mais temem: o instante em que o medo deixa de paralisar e passa a se transformar em resistência de massas. Neste sábado, 28 de março de 2026, milhões de pessoas ocuparam as ruas dos Estados Unidos e de outros países sob o lema “No Kings” — “Sem reis” — em mais de 3.200 atos espalhados pelos 50 estados.  

A dimensão da mobilização, descrita por parte da imprensa internacional como uma das maiores da história recente do país, não foi apenas numérica. Foi política. Mostrou que a rejeição ao trumpismo deixou de ser um fenômeno restrito às grandes metrópoles liberais e passou a ganhar densidade nacional. 

Não se trata de um detalhe de conjuntura. Trata-se de um sintoma histórico. Quando milhões vão às ruas para dizer “No kings”, o que está sendo recusado não é apenas a retórica inflada de um presidente narcisista. O alvo é um método de governo assentado na concentração de poder, na intimidação institucional, na perseguição a imigrantes, na normalização da força e na guerra como espetáculo de comando.  

As ruas perceberam antes de boa parte do establishment aquilo que muitos ainda tentam diluir em eufemismos: Trump não representa apenas uma direita agressiva. Representa uma mutação autoritária do poder nos Estados Unidos. 

As ruas romperam o silêncio 

A força dos protestos está na escala e na nitidez. Os manifestantes reagiram à escalada militar contra o Irã, às ações repressivas contra imigrantes, ao custo de vida e à erosão das normas democráticas. O Washington Post registrou que esta foi a maior mobilização coordenada da história do próprio movimento “No Kings”. O Guardian foi além e a situou entre as maiores da história americana. Quando uma contestação alcança esse patamar, ela deixa de ser desabafo. Vira advertência. 

Não foi um espasmo liberal de fim de semana. Foi uma mensagem política clara. Uma parte expressiva da sociedade norte-americana já percebeu que o trumpismo não é excentricidade eleitoral. É ofensiva estrutural contra as bases mínimas da democracia.  

O presidente que trata adversários como inimigos internos, transforma a repressão em linguagem de governo e usa a guerra como demonstração permanente de mando já não pode mais ser lido como extravagância. O que as ruas disseram, em escala continental, é simples: há um limite. E ele começou a ser defendido publicamente. 

Jeffrey Sachs e o cemitério da hegemonia 

É aqui que a leitura de Jeffrey Sachs ganha peso. Na entrevista a Glenn Diesen, publicada em 25 de março, Sachs sustenta que a ofensiva contra o Irã não demonstra força renovada dos Estados Unidos, mas decadência estratégica. A formulação é devastadora: o Irã pode se tornar o “cemitério da hegemonia americana”.  

Para Sachs, Washington vem acumulando erros de cálculo, subestimando adversários e agindo sem racionalidade estratégica estável. O que aparenta ser demonstração de poder seria, na verdade, sinal de desgaste imperial. 

A tese desmonta o mito central do imperialismo tardio: o de que a exibição de força recompõe automaticamente autoridade. Sachs sugere o oposto. Um império em declínio, mas ainda armado até os dentes, torna-se mais perigoso justamente porque reage à perda de centralidade com brutalidade, improviso e fuga para a frente.  

A guerra, nessa leitura, não restauraria a grandeza americana; aceleraria sua corrosão. E, se isso estiver correto, os protestos de 28 de março ganham ainda mais significado: eles não enfrentam apenas um governante autoritário, mas a fase mais errática e explosiva de uma hegemonia em desgaste. 

Sachs alerta: a “psicopatologia de Trump está piorando”  

Sachs foi além da crítica geopolítica e entrou num terreno ainda mais explosivo: o estado mental de Donald Trump. Na entrevista, afirmou que é preciso levar a sério a hipótese de que Trump “vive num mundo delirante”, “confabula” e apresenta sinais de deterioração. O ponto central aqui não é transformar a voz do artigo em diagnóstico clínico, mas registrar que um intelectual do porte de Sachs passou a vincular explicitamente o comportamento de Trump na guerra a uma possível desorganização psíquica do centro de comando da Casa Branca. 

E isso não surgiu agora. Em fevereiro de 2018, em texto coassinado com Bandy X. Lee, Sachs já havia escrito que Trump sofreria de um comprometimento mental que tenderia a piorar sob pressão. Em julho do mesmo ano, voltou ao tema ao afirmar que a “psicopatologia” de Trump estava piorando. O que aparece em 2026, portanto, não é um rompante ocasional. É a radicalização de um alerta antigo. Em outras palavras: a escalada atual contra o Irã não estaria sendo conduzida apenas por um projeto ideológico extremista, mas possivelmente por um centro decisório ainda mais errático do que se supunha. Quando esse centro controla a maior máquina militar do planeta, o problema deixa de ser doméstico. Torna-se mundial. 

Cuba já entrou na mira 

É nesse contexto que a ameaça a Cuba deixa de parecer bravata isolada e passa a compor um desenho maior. Em discurso em Miami, no dia 27 de março, Trump declarou que “Cuba is next”, ao exaltar as ações dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã. A Reuters informou que ele não apresentou um plano detalhado, mas vinculou a fala à percepção de colapso do governo cubano e insinuou que, em certas circunstâncias, “às vezes é preciso usar” a força. A frase não pode ser tratada como mero excesso verbal. Ela é um enunciado político: primeiro a asfixia, depois a ameaça, depois o teste da correlação de forças. 

Cuba aparece, assim, como laboratório de intimidação hemisférica. O que se anuncia contra Havana não diz respeito apenas à ilha. É um recado para toda a América Latina. O trumpismo precisa de inimigos externos para compensar seu desgaste interno, reativar seu discurso de poder e reorganizar sua base em torno da lógica da guerra, da tutela e da submissão regional. Quando um império em declínio decide provar que ainda manda, a primeira vítima quase nunca é apenas militar. É política. É simbólica. É civilizatória. 

América Latina sob aviso 

A ameaça a Cuba não é episódio isolado. Ela se encaixa numa lógica mais ampla de reorganização da política hemisférica sob o signo do trumpismo. O inimigo externo cumpre dupla função: sustentar a retórica imperial e disciplinar a periferia. A mensagem é simples e brutal. Governos, povos e processos políticos que resistirem à nova extrema direita global serão tratados como obstáculos a serem neutralizados. Havana ouviu isso primeiro. O restante do continente faria mal em ignorar. 

É por isso que os protestos de 28 de março têm interesse direto para a América Latina. Eles mostram que Trump não é invencível, que o medo pode ser rompido e que a resistência de massas continua sendo uma força material da história. Mas mostram também outra coisa: o autoritarismo, quando acuado internamente, tende a se radicalizar externamente. O desgaste doméstico de Trump não é garantia de moderação. Pode ser, ao contrário, combustível para aventuras ainda mais agressivas. 

Brasil 2026: a advertência chega até aqui 

No Brasil, esse alerta ganha peso redobrado. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg publicada pela Reuters em 25 de março mostrou Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em empate técnico numa simulação de segundo turno. Isso significa que a eleição presidencial de 2026 não pode mais ser lida apenas como disputa doméstica entre candidaturas. Ela passa a integrar um choque mais amplo entre dois projetos de época: de um lado, a centro-esquerda progressista de Lula; de outro, a extrema direita bolsonarista, afinada com o universo político e ideológico do trumpismo. 

O que estará em disputa nas urnas brasileiras não será apenas a sucessão presidencial. Será o lugar do país diante da ofensiva internacional da ultradireita. Não há mais espaço para ingenuidade. O bolsonarismo não é um fenômeno isolado nem puramente nacional.  

Ele faz parte de uma constelação autoritária mais ampla, que tem em Trump seu centro simbólico e estratégico. O que parece crise americana já produz efeitos concretos sobre a América Latina. E o Brasil reaparece, mais uma vez, como terreno decisivo dessa disputa. 

“Cuba é a próxima” não foi bravata  

Os milhões que saíram às ruas nos Estados Unidos neste 28 de março não protestaram apenas contra um presidente. Protestaram contra um regime em formação. Protestaram contra a transformação da Casa Branca em quartel-general de um projeto autoritário, militarista e imperial que já não disfarça sua disposição de esmagar adversários internos, incendiar o Oriente Médio e recolocar a América Latina sob a velha lógica da intimidação.  

Quando uma mobilização dessa escala passa a ser descrita como uma das maiores jornadas de protesto da história recente dos Estados Unidos, o que está em jogo já não é popularidade. É legitimidade. É autoridade moral. É a percepção crescente de que Trump deixou de ser apenas um problema americano e se converteu numa ameaça global. 

E é precisamente por isso que Cuba, a América Latina e o Brasil precisam olhar para esse sábado como quem olha para um aviso histórico. Trump já disse que “Cuba é a próxima”. Não foi bravata solta. Foi a verbalização brutal de uma doutrina: primeiro sufocar, depois ameaçar, depois avançar até onde a correlação de forças permitir.  

O que hoje aparece contra Havana amanhã pode se voltar, com outras formas, contra qualquer governo, povo ou processo eleitoral que se recuse a se ajoelhar diante do novo imperialismo trumpista. A América Latina inteira está sendo avisada de que, para Washington, soberania voltou a ser tratada como insolência. 

Uma escolha nada difícil 

No Brasil, esse alerta ganha densidade dramática. A eleição presidencial de 2026 já não será apenas uma disputa entre nomes ou partidos. Será uma disputa entre campos históricos. Entre um projeto de reconstrução democrática, social e soberana e um projeto de submissão ideológica à nova extrema direita global.  

Não há mais espaço para ingenuidade. O que estará em disputa nas urnas brasileiras não será apenas um governo. Será a capacidade do país de não se deixar arrastar para a órbita política, simbólica e estratégica do trumpismo. 

Se Jeffrey Sachs tem razão ao dizer que o Irã pode se tornar o cemitério da hegemonia americana, as ruas dos Estados Unidos acabam de mostrar outra verdade complementar: o trumpismo começou a encontrar seu limite também dentro de casa. Mas ninguém deveria se iludir. Impérios em declínio não recuam serenamente. Tornam-se mais agressivos.  

Líderes acuados não se moderam. Radicalizam-se. E é por isso que o protesto contra Trump, embora nascido nas ruas americanas, já diz respeito diretamente a Havana, Brasília e a toda a América Latina. Em 2026, no Brasil, essa disputa deixará de ser apenas análise internacional. Entrará, brutalmente, na urna. 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.