Não é tendência, é poder: mulheres negras redesenhando o Brasil
Quando uma mulher negra ocupa espaços de comando, o impacto é inevitavelmente político
Os números divulgados recentemente pelo Sebrae não podem ser lidos com neutralidade. Quando mais de 2 milhões de pequenos negócios no Brasil passam a ser liderados por mulheres em um único ano, não estamos diante de uma simples estatística econômica, estamos diante de um movimento político, um deslocamento de poder, um recado direto.
Mas é preciso dizer com todas as letras: esse avanço tem cor. As mulheres negras sempre foram a base invisível da economia brasileira. Muito antes de qualquer formalização, já empreendiam para sobreviver, sustentavam famílias inteiras, organizavam redes de cuidado e movimentavam territórios inteiros com pouco ou nenhum acesso a crédito, formação ou reconhecimento. O que os dados de 2025 revelam não é o nascimento desse protagonismo é, finalmente, a sua evidência.
E mesmo assim, o sistema insiste em impor limites. A própria pesquisa escancara que, quanto maior o porte do negócio, menor é a presença feminina. Isso não é acaso. É uma estrutura social brasileira. É o reflexo direto de um país que ainda decide quem pode crescer, quem pode acessar recursos e quem deve permanecer à margem.
Por isso, quando uma mulher negra ocupa espaços de comando, o impacto é inevitavelmente político. Estou presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Mãe, avó, mulher candomblecista. Minha liderança não cabe em categorias simplistas. Carrego comigo a força de uma tradição em que mulheres negras sempre estiveram à frente, seja nos terreiros, nas casas ou nas comunidades.
O que incomoda não é a ascensão. É a visibilidade. Porque uma mulher preta no poder rompe pactos históricos de exclusão. Desafiamos a lógica que naturaliza a subalternidade e expõe o quanto o Brasil ainda resiste em aceitar novas centralidades. Não se trata apenas de ocupar cargos, mas de redefinir o próprio significado de liderança.
E essa redefinição já começou. Cada CNPJ aberto por uma mulher, especialmente por uma mulher negra, é também um ato de enfrentamento. É a recusa em aceitar os limites impostos. É a construção de autonomia em um país que historicamente nos negou essa possibilidade.
Mas não basta celebrar recordes. É preciso disputar as condições. Sem políticas públicas robustas, sem acesso real a crédito, sem combate ao racismo estrutural, o empreendedorismo feminino corre o risco de ser romantizado quando, na prática, muitas vezes nasce da necessidade e da ausência de alternativas.
O Brasil vive um momento decisivo. Ou transforma esses números em mudança estrutural, ou continuará assistindo mulheres, sobretudo nós negras, fazerem muito com quase nada. Porque nós sempre fizemos. A diferença é que agora estamos sendo vistas. E, uma vez vistas, não aceitamos mais sair do centro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
