Jean Paul Prates avatar

Jean Paul Prates

Ex-senador e ex-presidente da Petrobras

21 artigos

HOME > blog

Minerais críticos e o desafio de não repetir velhos erros

Corrida global por lítio, níquel e terras-raras pode repetir modelo extrativista e defende política industrial forte para evitar exportação de baixo valor

Com apoio do BNDES, o Brasil avança na exploração sustentável de minerais estratégicos — como lítio, cobre e terras raras — e se posiciona como protagonista global na transição energética e na nova indústria de baixo carbono (Foto: Divulgação/Freepik )

O Brasil voltou ao centro do tabuleiro geopolítico mundial. Desta vez, não apenas pelo petróleo, pela agricultura ou pela energia renovável, mas pelos chamados minerais críticos, insumos essenciais para a transição energética, para a indústria digital, para a defesa e para as novas tecnologias.

A aproximação com a Índia, as conversas com os Estados Unidos, o interesse da União Europeia e o protagonismo chinês mostram que estamos diante de uma oportunidade histórica.

Ou o país se posiciona como protagonista industrial, ou repetirá, mais uma vez, o papel de fornecedor de matéria-prima barata.

Conceitos

Antes de tudo, é preciso esclarecer um ponto fundamental. Minerais críticos não são sinônimo de terras-raras.

Minerais críticos são aqueles considerados estratégicos para a economia e para a segurança nacional, em função de sua importância tecnológica e de sua oferta limitada. Incluem lítio, cobalto, níquel, grafite, cobre, manganês e, entre outros, as próprias terras-raras.

Já as terras-raras são apenas um subconjunto: 17 elementos químicos essenciais para a produção de ímãs, turbinas eólicas, veículos elétricos, eletrônicos e equipamentos militares. Toda terra-rara é um mineral crítico, mas nem todo mineral crítico é terra-rara. Confundir esses conceitos leva a políticas frágeis.

O mundo vive hoje uma corrida por cadeias seguras de suprimento desses insumos. Estados Unidos, China, Europa, Índia e países do Golfo disputam acesso, contratos e influência. Não se trata apenas de mercado. Trata-se de poder, soberania e segurança nacional.

Nesse contexto, o Brasil, que possui algumas das maiores reservas do planeta, deveria negociar com inteligência e visão estratégica. Não como vendedor apressado, mas como formulador de uma política industrial consistente.

Discurso e prática dissonantes

O presidente Lula tem sido correto ao afirmar que o Brasil não quer repetir o papel histórico de exportador primário. Ao defender a industrialização local dos minerais, acerta no diagnóstico. O problema está na execução.

Na prática, o Ministério de Minas e Energia deixou de funcionar como centro de planejamento estratégico do Estado. Transformou-se, gradualmente, em espaço de acomodação de interesses privados, pressões setoriais e negociações fragmentadas.

Observa-se fragilidade institucional, baixa capacidade técnica interna, dependência excessiva de informações do próprio setor regulado e pouca articulação com a política industrial, científica e tecnológica. O resultado é previsível: prevalece a lógica do curto prazo. Extrair rápido, exportar rápido, lucrar agora, pensar depois.

O setor mineral repete, hoje, um problema já conhecido no setor energético: a captura regulatória. Quando o regulador passa a agir como o regulado, o interesse público desaparece.

Nesse ambiente, atores estrangeiros negociam diretamente com empresas e governos locais, fundos internacionais estruturam cadeias produtivas voltadas para seus países e o Brasil entra apenas com o território e o minério.

Transformação

O grande debate não é se vamos explorar ou não. É como vamos explorar.

Exportar minério bruto gera poucos empregos, baixa arrecadação, pouca inovação e alta dependência externa. Já o beneficiamento, a metalurgia, a fabricação de componentes e a integração industrial geram empregos qualificados, centros tecnológicos, valor agregado e autonomia estratégica.

Não existe país desenvolvido que tenha aberto mão disso. Alemanha, Coreia do Sul, Japão, China e Estados Unidos protegem suas cadeias produtivas críticas. Nenhum deles deixa o futuro industrial “nas mãos do mercado”.

O Brasil já viveu esse filme muitas vezes: com o açúcar, o ouro, o café, o minério de ferro e, em certos períodos, até com o petróleo. Sempre acreditamos que bastava extrair e vender. Sempre perdemos a etapa industrial. Sempre ficamos dependentes.

Agora, com os minerais críticos, o risco é ainda maior. Eles definem o futuro da economia mundial. Errar agora significa comprometer gerações.

O setor precisa de planejamento, coordenação com indústria, ciência e defesa, fortalecimento institucional e autonomia frente a lobbies. A possível mudança no comando do Ministério de Minas e Energia abre uma janela importante. Não se trata apenas de trocar nomes, mas de redefinir o papel do Estado.

Minerais críticos não são apenas commodities. São instrumentos de desenvolvimento, soberania e poder. O Brasil precisa decidir se quer ser protagonista ou figurante.

Se a escolha for feita com base em conveniências políticas e pressões privadas, pagaremos um preço alto. Talvez não imediatamente, mas certamente no futuro. E, mais uma vez, nos perguntaremos por que deixamos escapar uma chance histórica.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados