Mercado precifica inflação mais alta e "empina" a curva de juros
Mercado precifica inflação mais alta e curva de juros longa segue sob forte estresse no Brasil
O Relatório Focus divulgado nesta manhã trouxe nova aceleração nas expectativas de inflação. As projeções para os horizontes mais próximos subiram para 5,33% em 2026 e 4,15% em 2027, mas o destaque está em 2028, que se tornou o ano-chave para o Banco Central: a inflação esperada para o período está em 3,70%.
Não por acaso. Na semana passada, o Copom sinalizou que passará a observar o primeiro trimestre de 2028 como horizonte relevante de política monetária. Ou seja, a inflação que de fato importa para a leitura atual é a de 2028.
O comportamento do mercado na semana passada veio mais ou menos dentro do esperado: o juro curto caiu e o juro longo subiu — e subiu muito. A curva “empinou”, com as taxas das NTN-Bs disparando nos vencimentos mais longos e, como consequência, a inflação implícita também avançou.
Vale lembrar o que é essa medida. A inflação implícita é a diferença entre a taxa da NTN-B e a do título prefixado de mesmo prazo. Não é uma expectativa que alguém digitou numa planilha — são os preços efetivamente praticados no mercado. Quando subtraímos, por exemplo, a NTN-B 2028 do prefixado equivalente, a inflação embutida vai para 5,43%. Em toda a curva mais longa — 2029, 2030, 2032 —, ela saltou para 5,79%.
Em outras palavras, os preços de mercado já embutem a ideia de que a inflação vai acelerar de forma relevante no Brasil. Isso não significa que vá se concretizar, mas é como o mercado está negociando hoje. Há um estresse forte em relação aos próximos anos, e toda a curva incorpora isso — principalmente como reação ao Copom cortar os juros para 14,25% num cenário em que a inflação e seus núcleos estão acelerando.
É claro que há algum exagero: o mercado costuma agir por extremos. Mas a pista já está dada. Se o Banco Central seguir baixando os juros, é provável que a curva empine ainda mais. Foi o que vimos na era Tombini, quando a Selic foi forçada para baixo, perto de 7%, e o juro longo explodiu. O BC controla a ponta curta, mas não a ponta longa — e essa ponta longa sobe sempre que o mercado espera inflação mais alta.
O movimento prejudica diretamente o Tesouro. Ainda nesta manhã, um leilão de NTN-B foi cancelado porque os juros estavam altos demais. O resultado é que o Tesouro acaba encurtando a rolagem da dívida, migrando para LFTs atreladas à Selic — o que encarece toda a rolagem da dívida pública. Mais uma notícia ruim.
E tudo isso decorre de uma inflação que está quente, não há como negar. O IPCA já acumula cinco meses acima de 3% e, sem ação, o processo tende a se desancorar. O mercado está apenas colocando isso nos preços dos ativos financeiros. Na economia real, o quadro é o mesmo: crescimento acima do esperado, emprego firme e inflação pressionada.
Abrimos a semana com a curva de juros um pouco aliviada — em parte por conta do mercado externo, já que houve feriado na sexta-feira. Mas a ponta longa segue muito estressada, com os juros reais acima de 8%.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




