Gustavo Tapioca avatar

Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

74 artigos

HOME > blog

Maduro Sequestrado e a América Latina em Xeque

A operação foi uma demonstração ostensiva e cruel do poderio militar americano

Nicolás Maduro (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, o mundo assistiu, estarrecido, ao desmantelamento final do direito internacional. Em uma operação digna dos piores filmes de guerra fria, Donald Trump, o autoproclamado “xerife do mundo”, lançou a “Operação Absolute Resolve”, uma invasão militar em larga escala que culminou no sequestro brutal do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. 

Este não foi um “show de TV de 47 segundos”, como Trump cinicamente descreveu. Foi um ato de pirataria estatal que joga a América Latina no abismo da incerteza e arrasta o planeta para um novo e perigoso ciclo de barbárie imperialista.

A Noite da Infâmia: Como Trump Ameaçou o Mundo - A operação foi uma demonstração ostensiva e cruel do poderio militar americano, calculada para humilhar e intimidar. Sob o pretexto esfarrapado de combater o “narcoterrorismo” – acusação jamais provada em fóruns internacionais – o aparato de guerra dos EUA foi acionado com uma ferocidade assustadora.

Os Céus de Caracas sob Ataque: Cerca de 150 aeronaves de combate e transporte de diferentes ramos militares da temida Delta Force, incluindo caças F-35 e bombardeiros B-2 Spirit, foram mobilizadas. A capital venezuelana foi palco de ataques aéreos coordenados que visavam neutralizar as defesas antiaéreas e as forças militares leais a Maduro. Mísseis de cruzeiro Tomahawk atingiram alvos estratégicos, enquanto a população civil de Caracas era aterrorizada por explosões e pelo som ensurdecedor dos jatos.

A Elite da Morte: A Delta Force, conhecida por sua brutalidade e por atuar em missões de alto risco com apoio do FBI mobilizou paraquedistas nas proximidades do Palácio de Miraflores, a residência presidencial, em uma ação que visava a captura ou a eliminação do presidente da Venezuela e sua companheira.

A tecnologia de ponta, incluindo drones de reconhecimento avançado e sistemas de guerra eletrônica, foi empregada para cegar as comunicações venezuelanas, garantindo o controle total do espaço aéreo e terrestre durante as horas críticas da operação.

O Alvo: Nicolás Maduro e Cilia Flores foram sequestrados. Fontes extraoficiais apontam para um uso excessivo da força e uma violação de qualquer protocolo mínimo de direitos humanos na captura, com relatos de intimidação e agressão física. Eles foram transportados para uma base americana na região e, posteriormente, para Nova York, onde Trump já anunciou que “enfrentarão a justiça americana”, um escárnio à soberania venezuelana.

O saldo imediato: mais de 40 mortos em Caracas, a maioria civis, e um rastro de destruição que expõe a hipocrisia de Washington, que clama por “democracia”, enquanto impõe sua vontade com bombas e esquadrões da morte.

A Indignação Global: Uma Ordem em Colapso - A reação internacional foi imediata e polarizada. O mundo, ou pelo menos a parte que ainda preza pela civilidade e pela lei, condenou a ação tresloucada de Trump.

1. Brasil: Lula Lidera a Condenação ao Neoimperialismo

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro líder de peso a se manifestar, e o fez com a contundência esperada de um defensor da soberania e da integração latino-americana. Em uma coletiva de imprensa na manhã de sábado, Lula não poupou críticas:

“O que vimos em Caracas não foi uma operação contra um presidente, mas contra a própria ideia de nação. Ações como esta remetem aos piores momentos da interferência militar na América Latina, onde a vontade de Washington prevalecia sobre a autodeterminação dos povos. O Brasil não aceitará que a Venezuela, um vizinho irmão, seja tratada como um quintal a ser invadido e saqueado por capricho. É uma afronta gravíssima à soberania, e. faremos de tudo, na ONU e em todos os foros internacionais, para que essa barbárie não se torne um precedente”.

O Itamaraty, sob a liderança de Mauro Vieira, já mobilizou seus esforços para convocar uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU e da CELAC, buscando uma condenação unificada e mecanismos de proteção para a região contra futuras agressões imperialistas. A preocupação é que a “Operação Absolute Resolve” sirva de modelo para futuras intervenções, transformando a América Latina em um tabuleiro de xadrez para os delírios de poder de Washington.

2. Moscou: “Banditismo de Estado e Ameaça à Paz Mundial”

A Rússia não hesitou em classificar a ação de Trump como um ato de “banditismo de Estado”, uma violação flagrante de todos os preceitos do direito internacional. A TASS e a RT ecoaram a indignação do Kremlin, que vê na captura de Maduro uma provocação direta e um sinal de que os EUA se consideram acima de qualquer lei.

“O que Washington fez na Venezuela é um ato de pirataria, um sequestro de um chefe de Estado soberano. Isso não é política externa; é terrorismo de Estado. Os Estados Unidos transformaram o direito internacional em um pedaço de papel rasgado, e a “democracia” que eles tanto apregoam é apenas uma desculpa para saquear recursos e impor sua hegemonia. A Rússia não ficará indiferente diante da violação da soberania de seus parceiros e exige a libertação imediata de Maduro” – Sergei Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia.

A preocupação russa é palpável. Moscou não apenas perde biliões em investimentos na PDVSA e na venda de armamentos à Venezuela, mas também vê um precedente perigoso para a “exportação” desse tipo de “justiça” para outras regiões do globo, incluindo suas próprias fronteiras.

O jornal Kommersant alertou para a possibilidade de medidas de retaliação em “outros teatros de operações”: uma clara ameaça que eleva a tensão geopolítica a níveis pré-Guerra Fria.

3. Pequim: “Hegemonia, Caos Econômico e o Cowboy na Sala de Porcelana”

A China, com sua habitual pragmática e calculada indignação, condenou a ação de Trump como um golpe direto à ordem econômica e à estabilidade global. Para Pequim, a invasão da Venezuela é o exemplo mais gritante da “mentalidade de guerra fria” que ainda assombra Washington.

“A ação unilateral dos Estados Unidos na Venezuela é um ato de bullying hegemônico que ignora completamente a soberania de uma nação e as normas internacionais. O pretexto do “narcoterrorismo”; não pode esconder a verdadeira intenção: o controle do petróleo e a imposição de uma ordem global ditada pelos interesses de Washington. 

Tal comportamento irresponsável só trará caos aos mercados energéticos e desestabilizará o cenário internacional. A China, de acordo como editorial do Global Times, reitera seu princípio de não-intervenção e exorta os EUA a respeitarem a soberania dos Estados.

A mídia chinesa, através da Xinhua, destacou o perigo para os investimentos chineses na Venezuela – uma dívida de dezenas de biliões de dólares e importantes contratos de fornecimento de petróleo. 

A China vê a manobra de Trump como uma tentativa de controlar os preços globais da energia, ameaçando sua segurança energética e suas rotas comerciais. A imagem do “cowboy na sala de porcelana” – o desrespeito de Trump pelas regras e a destruição da ordem – tornou-se o mote da crítica chinesa, que busca solidariedade no chamado Sul Global contra o unilateralismo americano.

4. A Traição de Milei: O Lambe-Botas do Império

Enquanto o mundo civilizado condenava o ato de pirataria, a voz dissonante da América Latina veio do Sul, de um autoproclamado “libertário” que não perde uma oportunidade de se ajoelhar diante do império. Javier Milei, presidente da Argentina, celebrou a captura de Maduro com uma efusão de mensagens nas redes sociais, gritando “Viva la Libertad, carajo!”; e elogiando Trump como “verdadeiro estadista”que “enfrenta os tirano”: - “O que Trump fez hoje na Venezuela é a prova de que a liberdade sempre vence a tirania! Finalmente, um líder com coragem para varrer os socialistas corruptos. Que sirva de exemplo para todos os que defendem a liberdade contra a opressão. Viva a liberdade, carajo!” afirmou Javier Milei em sua conta oficial no X (antigo Twitter).

A postura de Milei é uma vergonha para a história da Argentina e para a memória de figuras como Perón e Che Guevara. Ao apoiar cegamente o imperialismo americano, Milei se alinha aos piores carrascos da América Latina, mostrando-se um mero fantoche a serviço dos interesses de Washington. Sua “liberdade” é a liberdade de alguns para oprimir outros, a liberdade do capital financeiro para saquear os povos. 

A “Operação Absolute Resolve” revelou, mais uma vez, a subserviência e a mediocridade de certos líderes da direita latino-americana, dispostos a vender a alma da região por um aceno do patrão do norte.

O Preço da Barbárie: Impacto Econômico e o Futuro Incerto - Além do impacto político e humanitário, o sequestro de Maduro tem implicações econômicas devastadoras:

Petróleo em Xeque: A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo. Com a remoção de Maduro, Trump sinalizou sua intenção de que o petróleo venezuelano volte a fluir para os EUA; com petroleiras americanas (como ExxonMobil e Chevron) assumindo o controle da PDVSA. Isso poderia causar uma queda vertiginosa nos preços globais, beneficiando o consumidor americano, mas arruinando as economias de países produtores e desestabilizando mercados.

Dívida Bilionária: A Venezuela tem uma dívida massiva, especialmente com a China e a Rússia. Com a mudança de regime forçada por Trump, a questão é: quem pagará essa dívida? Os bilhões devidos a Pequim e Moscou correm o risco de serem simplesmente anulados por um governo interino pró-EUA, gerando uma crise de confiança nos investimentos internacionais e acirrando ainda mais a guerra comercial e financeira.

Caos e Saque: A ausência de um plano de transição claro após a captura de Maduro significa que a Venezuela pode mergulhar em um caos ainda maior. A luta pelo poder dentro do país, combinada com a interferência externa e o saque dos recursos naturais, ameaça transformar a nação em um barril de pólvora, com consequências imprevisíveis para a estabilidade regional.

A Aurora de um Mundo Mais Perigoso - A “Operação Absolute Resolve” não foi apenas o sequestro de um presidente; foi o sequestro da esperança de um mundo regido por leis e não pela força bruta. Trump, com sua ação tresloucada, deu o tiro de misericórdia na ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, abrindo a porta para uma era de intervenções militares arbitrárias e desrespeito total à soberania nacional.

O que morreu em Caracas não foi apenas o regime chavista; foi a ilusão de que a América Latina havia superado a era dos golpes e das intervenções. O que nasce agora é um mundo mais perigoso, onde o poder de um único homem – ou de uma única nação – pode definir o destino de povos inteiros. A resposta à barbárie de Trump não pode ser o silêncio; deve ser a união das forças progressistas e soberanas para resistir ao império e construir um futuro de paz, justiça e respeito aos povos. A luta apenas começou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados