“Madame Manicure”
Jacob Pinheiro Goldberg desvenda mistérios do Estado Novo
EU: Sejam bem-vindos a mais um programa Cessar-Fogo. Eu nem vou perder muito tempo na apresentação, porque o meu convidado de hoje tem tantos assuntos que é melhor começar a conversar com ele logo. Ele é um grande psicólogo, político, poeta, um intelectual, um intelectual daqueles da antiga, um erudito, dá para falar com ele sobre política, sobre maconha, sobre sonhos. Ele é Jacob Pinheiro Goldberg. Olá, Jacob, como está você? Tudo bem aí?
JACOB: Muito bem, muito prazer em falar com você mais uma vez. Nós que já tivemos longas conversas a respeito, de como salvar o mundo e a gente mesmo.
EU: Jacob, eu sei que uma conversa com você dá para uns quatro ou cinco programas, devia ter uma série da Netflix com você, mas vamos tentar falar, primeiro vamos falar do livro escrito pelo bisneto do Marechal Lott, o Felipe Lott, um livro maravilhoso, falando sobre o teu projeto nacionalista.
JACOB: Eu não sei se você, Alex... acredita em milagres, mas eu só acredito em milagres. Tem um filósofo cristão que eu gosto muito, Teilhard de Chardin, ele disse o seguinte, que na dimensão do cosmo, só o milagre é compreensível. Você imagine só, e quem está nos assistindo, na década de 60, a marcante década de 60 da história do Brasil, eu, jovem, nascido em Juiz de Fora, servindo lá ao NPOR do 12o. Regimento de Infantaria, sob o comando de um oficial… eu estou tomando cuidado com as palavras, porque esses assuntos delicados demandam um certo zelo, porque eles tratam do destino pessoal, mas também do destino coletivo do Brasil. Eu fui servir como cidadão brasileiro obrigatoriamente na ocasião, o exército. E logo nos primeiros dias, Alex, eu percebi que o comandante tinha uma atitude de perseguição comigo. E eu pensei, mas o que será, né? O que será? Paranóia minha ou é uma realidade? Conversando com alguns amigos, os meus amigos me alertaram. “Veja bem, esse cidadão é um sujeito fanático. E como você participou da União da Juventude Comunista, na fantasia louca dele, você continua sendo”. Eu não era, Alex. Eu fui comunista por um dia. Eu fui comunista, vamos dizer, com a menor frequência na história do comunismo, porque eu entrei na União da Juventude Comunista no dia em que a União Soviética invadiu os países socialistas. Eu fui ingenuamente na reunião e eu era um recém-vindo e disse, “pessoal, nós temos que protestar… como é que é isso? Como é que a União Soviética invade um país socialista? Temos que protestar”. O Peralva de Miranda Delgado, que era o nosso chefe, querido meu amigo, saudoso amigo meu, depois reitor da universidade lá no Rio de Janeiro, virou e disse, “pessoal, eu proponho a expulsão do Jacob”. Eu falei, “meu Deus, eu acabei de entrar, vou ser expulso?” E fui. Fui expulso porque propus esse protesto. Mas, enfim, acontece que o tenente não sabia disso. Ele tinha informações ruins sobre mim. E esse sujeito resolveu, durante um ano inteiro, me perseguir. Eu só encontrei uma alternativa. A família da minha mãe morava em São Paulo, eu pedi transferência e vim para São Paulo. Em São Paulo, eu fui para o CPOR em primeiro lugar e fui acolhido pelo maior advogado dos direitos humanos que o Brasil teve. Mário Simas, advogado de D. Paulo Evaristo Arns, da Terezinha Zerbini. E ele disse, “realmente, você não é paranoico, aquele sujeito é que é maluco”. E, posteriormente, a Comissão da Verdade desvendou que ele foi um grande torturador e um dos responsáveis pelo horror que foi a ditadura. Eu não vou declinar o nome, porque a vida me deu uma lição. Eu vou fazer uma citação em grego. Eu acho que todos os seus ouvintes conhecem a língua grega, então eu vou falar em grego mesmo. Posso falar em grego?
EU: Oh, claro, tranquilamente. Você pode tudo.
JACOB: Não se chuta cachorro morto.
EU: Rsrsrsrs…
JACOB: Eu aprendi isso, a vida me ensinou. Então, não vou declinar o nome dele, mesmo porque, por fatalidade, ele, fisicamente, inclusive, está morto mesmo. Mas o fato é que eu vim para São Paulo, saí de Juiz de Fora, na década de 60, depois de dirigir, em Juiz de Fora, uma greve estudantil que marcou a cidade, na União Nacional de Estudantes Secundários, que era o grupo de esquerda contra a União Brasileira de Estudantes Secundários. Aí vim para São Paulo e depois fui servir no 40. Regimento de Infantaria, sob o comando do saudoso, na época coronel, posteriormente general, Euryale de Jesus Zerbini, uma das maiores figuras do nacionalismo brasileiro, em sendo, na ocasião, o Marechal Lott, o ministro da Guerra. Veja a sorte que eu tive. Quer dizer, eu saio daquele inferno de perseguição e venho para um local de acolhimento, que foi aqui o meu quartel em Quitaúna. Agora vamos dar um salto histórico. Passam-se décadas e décadas e décadas. E um dia, um jovem me telefona e diz, um amigo nosso, Wagner William, o grande historiador brasileiro Wagner William, que escreveu a biografia da Maria Teresa Goulart, que eu tive a satisfação de fazer o prefácio, deu o meu telefone para o bisneto, veja bem se isso não é milagre, do Marechal Lott, e esse moço resolveu escrever a biografia desse caipira judeu com quem você está falando e passou a achar que naquela ocasião esse projeto teve uma importância enorme pelo aspecto ideológico, político, social, de tentar transpor os quartéis para a rua e aproximar as Forças Armadas e a sociedade em cima do destino comum da nação brasileira. Em resumo, é isso. E eu quero que você saiba que quem ajudou a recolher documentação, o acervo de tudo isso, que vai sair agora em livro, foi a doutora Thais Infante, que é uma entusiasta do movimento nacionalista e que hoje, inclusive com um grupo de civis, cidadãos e coisa e tal, quer resgatar esse ideal, ainda mais nesse momento em que a noção de pátria, de nação, independente de esquerda, direita, começa outra vez a ter um papel no cenário internacional.
EU: Como é que você participou do movimento nacionalista? Foi lá em Juiz de Fora, foi em São Paulo? Como é que foi isso?
JACOB: Começa lá em Juiz de Fora, com o Centro de Estudo e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional, na campanha “O petróleo é nosso”. Começa ali e vai se espraiando e depois, quando venho para São Paulo, onde eu me aproximo naturalmente das lideranças do movimento militar nacionalista da época, particularmente de uma figura, Alex, que ficou deixada de lado por questões que no livro o Felipe aponta. O livro é uma bomba, o livro é um escândalo, o livro desvenda bastidores fundamentais para a gente compreender tudo o que aconteceu, tudo o que acontece e tudo o que vai acontecer nos próximos anos no Brasil em termos de desenvolvimento sociológico profundo. Porque nós sabemos que a política é só a exterioridade de processos mais internos, mais profundos. O que é que acontece no psiquismo coletivo das massas? Por que o indivíduo se identifica, por exemplo, com esquerda, com direita, política de gênero e assim por diante? O que é que existe atrás e por baixo de tudo isso? A política, principalmente partidária, é só a ponta do iceberg. É necessário entender as placas tectônicas da política. Essa turbulência por debaixo. É isso que realmente modifica a história. Então, vamos lá. Eu me aproximei do grupo do General Stoll Nogueira. Na época, o movimento em torno do Marechal Lott basicamente tinha várias correntes. Uma corrente era do chamado Partidão, que era o Partido Comunista. Acontece que o Marechal Lott era um católico militante, mas era um homem sensível à miséria, às causas populares brasileiras. Ele recebeu uma espada de ouro entregue pelo grupo da Comissão Geral dos Trabalhadores do Clodsmidt Riani, de Juiz de Fora. O Clodsmidt Riani foi o Lula pré-Lula. Então, veja bem que ele era uma figura, de certa maneira, estranha, esdrúxula no cenário político social brasileiro. Um marechal do Exército defendendo causas que eram consideradas, na época, de ultra-esquerda. Quando candidato a presidente contra o Jânio Quadros, ele disse, num comício aqui no Brás, em São Paulo, como está publicado no livro do William Wagner, “eu aceito o voto comunista, mas não aceito o voto do Partido Comunista”. Ulisses Guimarães estava do meu lado. Eu era o presidente do Comitê General Stoll Nogueira, pró Lott. Eu virei para o Ulisses e disse, “o Marechal acabou de decretar sua derrota”. Naquele momento, centenas de bandeiras vermelhas do partido foram se abaixando e a militância do partido e simpatizantes foram se retirando. Ali começa o germe do chamado Jan-Jan. A chapa, criada aqui em São Paulo, Jango-Jânio. Aliás, desculpe, Jânio-Jango, e que foi realmente eleita. Essa movimentação... É óbvio que eu acompanho absolutamente por dentro, dia e noite, acompanhando não só o marechal, mas a filha dele, a combativa deputada Edna Lott, assassinada em circunstâncias suspeitas. Você sabe que o assassinato na política brasileira, frequentemente, é uma saída para situações de impasse. Infelizmente, essa é a realidade. Ainda mais quando você pensa e você fica toda hora tocando aí nos nervos da sensibilidade. Eu até tenho um livro, né? O título é “Rua Halfeld - Ostroviecz”. Ostroviecz é a cidade dos meus pais na Polônia. Então, eu, na minha fantasia, fiz uma interseção entre a rua principal de Juiz de Fora, que é a Rua Halfeld, a rua da facada do Jair Bolsonaro. A rua do Olímpio Mourão Filho, que inventou o Plano Cohen e era chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista Brasileira e que desencadeou o golpe de 64. Porque tudo isso tem um encadeamento. Tem pessoas que acreditam que a história é uma sucessão de acasos. Não. É uma sucessão de causos.
EU: Você está reconstituindo os anos 60, que foram tão turbulentos e tão tenebrosos, os anos de chumbo. Qual era o sentimento predominante nessa época?
JACOB: O medo. A psicanálise me ensinou que o medo é contagiante. Então, eu vou fazer o seguinte, já que você está me provocando. Eu vou dar asas à livre associação de ideias. Eu vou deitar aqui no divã, mesmo sentado, e vou falando. Eu me lembro que há poucos anos atrás, alguém falou em “ditabranda”. Não existe “ditabranda”. A ditadura brasileira teve uma peculiaridade que eu acho que ainda não foi suficientemente explorada. Além de todo o horror policialesco que a gente conhece de tortura, assassinatos, mortes e assim por diante, violação de todos os direitos políticos. Além disso, e você aí, com a sua sensibilidade, captou no ar, quando você falou que, de certa maneira, eu estava tentando descrever um clima. Esse clima é que me parece fascinante que a história registre. Eu criei na Universidade de São Paulo o curso de Psicologia e História no Núcleo de História da Ciência da USP. E eu disse que “a história é madrasta da verdade”. Os horrores da ditadura são aquilo que não é dito, que não é feito, que não é acontecido, mas paira no ar. É o clima do medo contagiante. Chega um certo instante, isso inclusive foi denunciado por um escritor alemão, o nome dele me foge, quando ele explica porque o povo alemão assistiu paralisado e às vezes participante ativo do terror do Hitler. A brutalidade, a violência das ditaduras… elas trabalham naquilo que é mais profundo do psiquismo humano, que é o medo, essa emoção incontrolável amparada no instinto de sobrevivência.
EU: Você acha que a ditadura de 64 teve algum componente nazista?
JACOB: Eu não tenho dúvida nenhuma, inclusive eu escrevi um artigo cujo título foi “O integralismo e a revolução”. Revolução, entre aspas, de 64. O general Olímpio Mourão Filho, quando capitão, foi o chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista Brasileira. Ele conta isso, ele não escondeu isso. Ele inventou a Intentona Comunista numa máquina de escrever, num delírio à noite, que ele chamou de Plano Cohen, para dar um sobrenome judeu, teve sim a influência maciça, na minha opinião, do pensamento nazista. Não esqueça que o próprio Getúlio Vargas namorou e flertou com o nazismo. Eu acho que ele não namorou e flertou, não. Desculpe a expressão forte que eu vou usar. Eu acho que eu não vou usar, não. Getúlio Vargas não flertou só com o nazismo, não. Ele é o homem que entregou a Olga Benário Prestes para a Gestapo. Grávida. E tem gente que acha que Getúlio Vargas, esse mistagogo, era um homem de esquerda. Meu Deus do céu, o que é isso? O chefe da Polícia Política de Getúlio Vargas, Filinto Muller, tinha o apelido de “Madame Manicure”. Você sabe por que, não?
EU: Arrancava as unhas.
JACOB: Arrancava as unhas dos prisioneiros. A tortura era brutal e violenta, a perseguição era total.
EU: Você acha que a ditadura de 64 foi uma continuação do Estado Novo?
JACOB: A ditadura no Brasil é oligárquica. Ela muda de máscara, ela muda de aparência, mas não muda de essencialidade. Essencialmente, são sempre os mesmos grupos, as mesmas pessoas. Eu prefiro não declinar nomes, mas muitos dos políticos de hoje são filhos e netos das mesmas cinco famílias que praticamente dominam e controlam 50% do PIB brasileiro. Uma vez eu dei uma entrevista para o “Journal de Geneve” e eu disse que quem controla a realidade social, política, econômica no Brasil não são as Forças Armadas ou desarmadas. É a oligarquia. É quem controla o psiquismo coletivo da sociedade brasileira. A tese não é minha, é do Elias Canetti. A palavra é muito mais poderosa do que qualquer arma. É através dela que você coopta e transforma multidões democráticas e multidões fanáticas capazes de matar e linchar, em nome do amor e de Deus. Respondendo à sua pergunta, eu não tenho dúvida que o que aconteceu no período de Getúlio Vargas tinha absolutamente pairando o espírito, abre aspas, nacionalista, de Plinio Salgado, o chefe da Ação Integralista Brasileira. Porque existem muitos nacionalismos. Existe o nacionalismo fascista, que é chauvinista, que é tribal, que é sociopata. Imagina, por exemplo, que a pátria, dependendo da região, é do branco, bonito, perfeitinho, falando de uma certa maneira, de preferência, em certa época em francês, depois em inglês e assim por diante. Mas é chauvinista. O resto do mundo merece morrer, não merece viver. Existe esse nacionalismo que era da Ação Integralista, que foi de Getúlio Vargas, até que, politicamente, ele teve interesse e criou, então, o PTB. Você sabe que ele tinha dois partidos. Porque o que é o mistagogo? A América Latina teve dois grandes mistagogos: Perón, na Argentina, e Getúlio, no Brasil.
EU: O que é o mistagogo?
JACOB: O mistagogo é uma palavra que engloba o significado do místico e do demagogo. É o sujeito que acredita, ou finge acreditar, que é um reenviado de Deus. É o pai da pátria. Aliás, o Getúlio dizia que era pai dos pobres. E a oposição do Carlos Lacerda, da UDN, dizia que ele era pai dos pobres e mãe dos ricos. Isso é muito frequente no Brasil. Lá mesmo em Juiz de Fora, indo e vindo, já que estamos indo nesse intercurso, nós tivemos um outro mistagogo, que foi meu colega no Instituto Grambery. Eu estudei no Colégio Evangélico a vida inteira. Daí esse meu conceito de judeu-cristianismo. O Itamar Franco. É toda uma posição de superioridade tratando a massa como se a massa fosse infantilizada. E o demagogo é aquele grande orador que, no fundo, é um showman. Um dia desses eu estava vendo, ouvindo, vendo, ouvindo, vendo, ouvindo na televisão um político com quem eu tive um debate fortíssimo na Rádio Excelsior, alguns anos atrás, e que é considerado um... alguns consideram populista, outros não. Eu prefiro não declarar o nome do cidadão. Você não imagina a arrogância do sujeito por baixo da aparente humildade. Esse é o mistagogo. Quantos de nós somos capazes de apontar essa ordem de políticos como constante no Brasil? Daí, inclusive, o fato de que nesse livro, o Felipe Lott, esse livro são 500 páginas. É um tratado de história política oculta do Brasil. O editor, inclusive, fez uma chamada, “A História do Brasil como você nunca viu”. Eu estou em pânico, Alex, eu estou em pânico. O livro vai sair, eu já sei que vou virar mais saco de pancada do que sempre fui. Mas, voltando à Rádio Excelsior, eu estava debatendo com o sujeito. Você ouvindo ele falar na rádio, isso faz alguns anos, no programa do Isidro Barioni, o sujeito era um santo… eu quase caí de joelhos... “Mas esse sujeito é um santo, enviado do Senhor. Um sujeito puro, maravilhoso, feminista, a favor de todas as causas que a gente acha que são essenciais à dignidade humana”. O sujeito falava de negro, eu passei uma parte da minha vida cuidando da negritude… eu fui ao Senegal para estudar Léopold Sédar Senghor, o grande poeta e presidente negro, que criou o conceito de negritude. No intervalo do programa, passou uma moça no estúdio. Se você ouvisse o comentário que o sujeito fez de desrespeito à mulher, você diria, é um aiatolá. Essa dupla face é característica de uma ordem da política brasileira que, na minha opinião, tem um hibridismo totalitário. O mesmo hibridismo que fez com que Hitler denominasse a sua agremiação assassina de Partido Nacional-Socialista do Povo Alemão.
EU: Como você definiria os generais da ditadura de 64?
JACOB: Politicamente, eu definiria como fascistas. Eu diria para você que fica entre fascistas e nazistas. Aliás, eu me lembro nitidamente de um determinado instante, nitidamente desse instante, eu era comandante da 1a. Companhia de Fuzileiros do 4o. Regimento de Infantaria, antes de 64. Quando um capitão chega para mim, no meio do pátio do quartel, e diz mais ou menos assim, “me diga uma coisa, vocês, oficiais judeus, vocês têm uma dificuldade de matar, né? O judeu tem uma”... vou usar a expressão que ele usou, né?... “tem uma frescura com a história de matar. E você sabe que a nossa profissão é matar, né?” Eu olhei para ele e falei… eu me fiz de besta, é claro, né?... quantas vezes é necessário se fazer de besta? Eu falei, “mas capitão, o que é que o senhor está querendo dizer com isso?” Ele disse, “filosoficamente, eu tenho uma posição: a única maneira de consertar o Brasil é matando metade da população”. Eu acho que com isso eu respondo para você como é que eu enxergo politicamente, filosoficamente, a maneira de pensar dos generais de 64. Mas eu vou me atrever. Na minha idade, ou a gente se atreve ou não se atreve, né? Então, eu vou me atrever. Não pensavam o fascista por natureza; o totalitário por natureza não pensa. O ser humano que pensa é flexível, é maleável, é democrata por essência e natureza. Ele dialoga. Não me lembro se foi o Primo Levi que disse, “se você olhar nos olhos do seu inimigo, ele não será mais um inimigo, será um adversário, e você jamais terá condições de matá-lo se você for capaz de enxergá-lo”. Não, não, foi Martin Buber. E eu estou convicto disso. Eu me lembro que o general Figueiredo, num determinado instante, reclamou do povo que estava acampando em protesto na frente do Palácio do Planalto. E então eu enunciei uma frase: “O povo tem o direito de acampar enquanto sentir fome e miséria na frente de qualquer palácio”. A “Folha de S.Paulo” publicou e está lá na “frase do dia”, no arquivo da “Folha de S.Paulo”. Dois dias depois, um deputado conhecido meu telefonou para mim e disse, “você não acha que está na hora de calar a boca?” Eu disse, “eu acho que está na hora; acontece que meu relógio não tem ponteiro”.
EU: Jacob, você concorda com a seguinte frase? Os ditadores não têm medo de armas, têm medo de livros.
JACOB: É perfeita. É perfeita. Perfeita, perfeita. O Goebbels dizia, “quando eu ouço a palavra cultura, eu ponho a mão na pistola”. Essa é uma característica do opressor. Eu agora vou fugir um pouquinho, um pouquinho do assunto, e agora vou dar um depoimento como psicanalista. Uma moça foi sequestrada com o namorado aqui em São Paulo, num dos crimes mais terríveis dos últimos anos. Eu prefiro também não declinar o nome. Eu fui chamado a acompanhar e participei de um programa na TV Bandeirantes a respeito da análise do comportamento dos criminosos, sendo que um deles era menor de idade. Eu acompanhei de perto, ouvi tudo, conversei com todo mundo e fiquei sabendo de um fato. Essa moça ficou oito dias sendo estuprada e violentada pela quadrilha que a havia sequestrado. Você sabe qual era a ordem que deram para ela? Que ela podia fazer qualquer coisa, menos abrir a boca e falar. Ela não podia falar. O livro é a fala escrita. O livro é a palavra enunciada. O livro é a expressão do sentimento, da emoção e do saber. O livro tipifica, dignifica a condição humana. Ele transforma cada um de nós num monstro que a gente pode ser no anjo sublime que a gente deveria ser. Essa moça era obrigada a fazer sexo oral com cinco, seis homens todos os dias e não podia falar. Você percebe o detalhe interessante? Eram jovens, não eram ditadores, não eram, aparentemente, mas eles tinham poder, o poder canalha. Eu dei um depoimento na CPI da Violência Urbana no Senado. Eu era presidente da Comissão Nacional dos Direitos do Menor. E eu disse, “a violência começa na microviolência, dentro de casa, na escola, no bullying, no sacana”. Quando eu era criança, em Juiz de Fora, na rua em que eu morava, na rua Santos Dumont, 22, outro menino virou para mim e disse, “ô judeu, por que você não vai para a Judeia?”. Depois eu encontrei com ele e disse, “eu fui, viu?” Ele disse, “me desculpe”. Eu falei, “não, não desculpo, não esqueço, eu só registro, porque hoje você não teria coragem de dizer isso para mim”.
EU: Você me disse outro dia que você, na verdade, é negro. A gente está vendo você branco, mas você, na verdade, é negro. Como é que é isso?
JACOB: Eu disse isso no programa da TV Cultura, na presença do Pitanga, o marido, o vereador do Rio de Janeiro, marido daquela senadora do PT, Benedita da Silva. A queridíssima Benedita da Silva. Eu comentei com ele que quando eu estive no Senegal, eu declamei em francês um poema do Léopold Sédar Senghor, o grande poeta negro, presidente do Senegal. A minha identificação com os negros é de alma, porque, quando criança, eu fui criado e educado pela dona Fanny, poeta, dona Fanny Goldberg, grande poeta que foi a minha mãe, e para quem o Franco Montoro deu o nome de uma escola: Escola Estadual Fanny Goldberg na cidade de Francisco Morato. Quando minha mãe morreu, eu estava trabalhando com o Franco Montoro, ele pretendia ser presidente da República, e eu fiquei muito deprimido. Ele disse, o que é que eu posso fazer para te ajudar? Eu falei, “minha mãe gostava muito de literatura, admirava Jorge Amado”. Ele disse, “então eu vou dar o nome da sua mãe para a escola em Francisco Morato”. “Por sinal”, ele disse, “você sabe que nós somos primos?”. Eu falei, “como assim, governador”? Ele falou, “seu nome não é Goldberg? Eu falei, “é.” “Gold, ouro; berg, montanha. Meu nome é Montoro. Eu sou descendente de judeus da Alsácia”. Tem história, Alex. Mas voltando à questão de ser negro. Eu fui criado pela minha mãe... e pela Maria Eutéria. Até hoje não sei porque ela tinha um nome tão estranho. E à noite, quando eu chorava, porque meus pais saíam para passear e eu tinha medo que eles não voltassem para casa, medo infantil comum da criança que tem receio que os pais morram, ela me embalava no colo. Então, minha identificação com o negro é uma identificação de pele. Um dia desse, o dermatologista comentou comigo, “essa sua ferida na perna está demorando para cicatrizar. Por que?” Eu falei, “porque pele de negro é assim. Ela é sempre sensível e machucada”. Ele falou, “mas como assim? A sua pele não é de branco?” Eu falei, “isso é um problema seu de ótica. Você tem que procurar o oftalmologista. Eu sou cada centímetro negro”. Da mesma forma que eu me sinto um nacionalista cosmopolita. O meu nacionalismo não é chauvinista, não é contra a Argentina, não é contra o Paraguai. Como muitas vezes os militares enlouquecidos pensavam, e criavam cenários de guerra na América do Sul. Tanto é que eu escrevi “O feitiço da América”, e ontem mesmo, no meu Facebook, está lá a fotografia, uma mulher colocou que estava no Museu Antropológico, o maior museu antropológico do mundo, no México, e o poema que eu escrevi sobre o México estava lá. Durante um ano, eu me escondi porque eu não tinha dinheiro para ir embora do Brasil, na época da ditadura. Então fiquei num apartamento da Rua da Consolação, no apartamento da minha então esposa. Não saía nunca. Para não enlouquecer ali dentro eu resolvi estudar todo o folclore da América Latina e escrevi um poema para cada país. Posteriormente, o cônsul da Bolívia chegou para mim e disse, “quantos anos o senhor morou na Bolívia?” Eu disse, “eu nunca estive na Bolívia”. Ele falou, “não?, mas como não? Como é que o senhor escreveu esse poema? Esse poema só poderia ser escrito por alguém que conhecesse muito bem a Bolívia”. E eu disse, “eu nunca estive na Lua, mas sou apaixonado pela Lua”. Eu sou, simplesmente, um caipira negro judeu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
