Inflação converge, economia desacelera: o Brasil caminha para um Soft Landing?
Inflação abaixo de 4%, PIB em ritmo moderado e Selic em queda desenham cenário de desaceleração gradual, sem recessão no horizonte
O principal destaque do relatório Focus de hoje é que a expectativa de inflação continua recuando. A projeção para o IPCA deste ano caiu para 3,95%, reforçando um processo de convergência gradual para a meta. Já as expectativas de crescimento permanecem estáveis: o mercado projeta expansão de 1,8% tanto para este ano quanto para o próximo.
Em relação à taxa Selic, as estimativas indicam encerramento do ano em 12,25% e queda para 10,5% no próximo ano. Ou seja, não houve mudanças relevantes no cenário-base do mercado. O ponto mais positivo, portanto, segue sendo a melhora nas expectativas inflacionárias.
Nos próximos dias teremos a divulgação do IBC-Br, que pode indicar uma possível retração do PIB em dezembro. Isso reforça a leitura de que a economia brasileira entrou em um processo de desaceleração no final do ano. Quando ampliamos a janela de análise, o quadro fica mais claro.
O comércio varejista restrito, por exemplo, cresceu apenas 1,6% no ano, contra 4,1% em 2024 — uma desaceleração bastante evidente. Vale lembrar que a diferença entre o varejo restrito e o ampliado é basicamente a inclusão de veículos e material de construção.
O setor de serviços também mostra perda de dinamismo. No último trimestre, o crescimento foi próximo de zero. No acumulado do ano, a expansão foi de 2,8%, abaixo dos 3,1% de 2024, dos 2,9% de 2023 e muito distante dos 8% observados em 2022. Há, portanto, uma desaceleração clara também nos serviços.
A indústria, por sua vez, apresenta crescimento próximo de zero. Embora ainda ajude a sustentar o nível de atividade, o setor industrial — especialmente a indústria de transformação — permanece muito distante do seu pico histórico. A produção industrial está cerca de 16% abaixo do pico da série.
Quando comparamos os níveis atuais com fevereiro de 2020 (pré-pandemia), a assimetria fica evidente: a indústria cresceu apenas 0,6% desde então, enquanto o comércio avançou cerca de 10% e os serviços aproximadamente 19%. Ou seja, a recuperação pós-pandemia foi bastante desigual, concentrada sobretudo em serviços e varejo.
A indústria extrativa teve desempenho melhor, puxada principalmente pelo petróleo — mais do que pelo minério de ferro — além do bom desempenho do agronegócio.
Por outro lado, há fundamentos importantes sustentando a economia: o rendimento médio real subiu de cerca de R$ 3.100 para R$ 3.500 nos últimos anos, o desemprego está em níveis historicamente baixos e a inflação vem convergindo para abaixo de 4%. Esses são elementos positivos e relevantes.
O ponto central é que a economia brasileira está desacelerando após um período de forte expansão, mas sem sinais claros de recessão. O cenário mais provável neste momento parece ser o de um “soft landing”: crescimento menor, inflação convergindo e ausência de crise aguda.
Teremos em breve os dados consolidados do PIB de 2025 e o resultado do quarto trimestre, que devem confirmar esse retrato: uma economia que perde fôlego, mas com inflação em trajetória benigna. A grande questão agora passa a ser a intensidade desse desaquecimento.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
