Helvécio Ratton faz pré-estreia do seu filme com temática sobre o abuso sexual, no III Congresso de enfrentamento a esse crime
"O destacado cineasta de “Batismo de Sangue”, “O Menino Maluquinho” e outros tantos sucessos, trata do abuso sexual de uma menina, Tina, pelo padrasto"
Estamos no “Maio Laranja”. E o que isto significa? Uma chamada à mobilização social voltado à conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Não por acaso a campanha tem como símbolo uma flor, alusão à fragilidade e à necessidade de cuidado, proteção e desenvolvimento saudável, delas.
No âmbito desta agenda de tamanha importância, os ministérios da Cultura e dos Direitos Humanos promovem na próxima quarta-feira, dia 20, na sede do Ministério da Cultura, em Brasília, às 18h, a pré-estreia do filme: “Só não posso falar o nome”, de Helvécio Ratton. A exibição integra a programação do “III Congresso de Enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes.”
O destacado cineasta de “Batismo de Sangue”, “O Menino Maluquinho” e outros tantos sucessos, trata do abuso sexual de uma menina, Tina, pelo padrasto. Para fugir ao horror do assédio doméstico – que, em geral, é como costuma acontecer, dentro de casa -, ela cria a heroína “Super-Tina”, que nesses momentos vêm em seu socorro (na sua imaginação, é claro), e distribui os socos e os safanões que ela não consegue na vida real.
A história, apesar de tratar de um tema pesado, é conduzida com delicadeza, nos levando com emoção e perplexidade até o último minuto. Com uma excelente fotografia de Lauro Escorel e música de André Abujamra, Ratton consegue fazer um filme/denúncia, ao mesmo tempo que impactante e suave, tanto quanto necessário.
Para se ter uma ideia da importância de abordar o tema pela arte, que é como se consegue chegar ao grande público e tocar o maior número de pessoas, basta observar que de acordo com os dados mais recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025, com base em 2024), o Brasil registrou 87.545 casos de abuso e abuso de vulnerável no último ano — o maior número da série histórica. Isso representa, na prática, um caso a cada seis minutos, no país.
A violência atinge, de forma ainda mais grave, crianças e adolescentes. A maioria das vítimas segue sendo menor de idade, com destaque para crianças de até 13 anos, que concentram a maior parte dos registros. Meninas são as principais vítimas, representando cerca de 88% dos casos.
O cenário no Brasil é grave e exige ação contínua e articulada entre Estado, sociedade civil e escolas. A prevenção precisa começar cedo, com informação, acolhimento e políticas públicas eficazes. A orientação permite que as crianças e adolescentes identifiquem situações de perigo e percam o medo de denunciar.
Ainda de acordo com a pesquisa, o perfil das vítimas está em 77% de vulneráveis. Aproximadamente 88% são do sexo feminino e mais da metade são negras. Outro dado alarmante é a idade das vítimas. A maioria tem até 13 anos, evidenciando que a violência atinge principalmente crianças em fase inicial de desenvolvimento. E, para piorar, os casos permanecem encobertos pelo silêncio das vítimas, por medo, vergonha ou por envolver pessoas próximas, como o personagem do filme de Ratton, nesse caso, o padrasto.
Ratton foi buscar numa história real, inspiração para mostrar, tal como nos aponta a pesquisa, que 65% dos agressores convivem na família, com a vítima, enquanto aproximadamente um quarto são pessoas conhecidas.
Pais, mães e responsáveis pelos vulneráveis precisam ficar alertas aos sinais que devem ser levados a sério e considerados com cautela para garantir a segurança e o bem-estar de crianças e adolescentes, como: mudanças de comportamento são frequentemente os primeiros indícios de que algo está acontecendo. Uma criança muito falante pode ficar mais quieta, enquanto outra, antes mais retraída, pode se tornar excessivamente comunicativa. Outras mudanças podem ser a recusa em ir à escola, agressividade, tristeza, regressões comportamentais, como voltar a fazer xixi na cama, uso de expressões adultas ou quando a criança deixa de aceitar toques rotineiros, como abraços, antes comuns no relacionamento com elas.
O evento da quarta-feira, dia 20, é aberto ao público, que irá conferir a história de Tina, em SÓ NÃO POSSO DIZER O NOME. A garota foi abusada pelo padrasto quando era criança, mas ao completar 18 anos ela decide denunciá-lo à Justiça, contra a vontade da família, e contar tudo em uma história em quadrinhos.
Livremente inspirado na novela gráfica "Só Não Posso Dizer o Nome", de Nati Chuleta, que se baseou em sua própria experiência para transformar a dor em quadrinhos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




