Palácio envia emissários, enquanto Alcolumbre faz doce
"Alcolumbre quer ser o Executivo, sem ter tido votos para isso. Quer indicar ministros do Supremo"
Não por acaso, eu costumo chamá-lo de “plástico bolha”. Ele é aquele que é enviado apenas para acolchoar as relações, na hora que a corda se esgarça. Sim, estou falando do ministro José Múcio, titular da pasta da Defesa. Nada mais apropriado. Ele é aquele que vai, conversa, e traz o recado. Sempre do lado oposto. Nunca com uma novidade boa para o presidente. Aliás, Lula está cercado de ambiguidades, “amigos” vacilantes, aliados que nunca estão no lugar certo na hora certa.
Para começar, depois de tudo o que o país assistiu e leu (Davi Alcolumbre botou o pé na porta e parece dizer: daqui não passa), um encontro para tentar clarear a relação deveria ter acontecido em campo neutro. José Múcio aceitou ir à casa oficial de Alcolumbre. Isso é jogar em campo adversário. A conversa pedia campo neutro. Nem na casa dele, tampouco no ministério de Múcio. E olha que Brasília é grande. O que não faltam são acomodações e poltronas para um diálogo.
Alcolumbre quer ser o Executivo, sem ter tido votos para isso. Quer indicar ministros do Supremo. E, como não tem poder para tal, já disse que recusará as indicações enviadas pelo presidente. Na prática, o que faz é inviabilizar novas indicações vindas do Palácio, colocando no caminho os 196 087 votos que obteve para chegar ao Senado, tentando fazer barreira aos 59.563.912 obtidos pelo presidente Lula. Não faz sentido. E muito menos faz sentido enviar José Múcio, um “passapanista” diplomado, para essa tarefa. Mas, olhando no entorno, quem mais iria, no momento não se sabe bem de que lado estão os líderes?
Já desce atravessado, que em tão poucos dias após a refrega, seja Lula a tomar a iniciativa de buscar a reconstrução da relação. (Quem foi mesmo o pisoteado?). Não digo que não se busque recompor o diálogo, com o tanto de pautas de interesse do governo, no escaninho. Mas um pouco de calma ou, como dizíamos, de “gelo”, não faria mal a esse senhor que se mostrou tão prepotente quanto falso. Porém, custava esperar até o início da semana que vem? Até lá ainda não estarão na pauta temas candentes.
A notícia de “O Globo” sobre o encontro com Múcio é direta: “O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, se reuniu nesta terça-feira com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em uma primeira tentativa do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de reconstruir a relação com o comando da Casa após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), na última quarta-feira”. Vamos combinar, uma semana é pouco para o tamanho do estrago.
No retorno Múcio disse o texto de sempre. Vindo ele de um almoço com o Alto Comando, ou da casa de Alcolumbre, o tom é o mesmo: “Estive com Alcolumbre sim, ontem. Meu papel foi de averiguar a temperatura. O momento é de apaziguar. Não é hora de apresentar nova indicação, nada, é deixar decantar. Ele vai encontrar Lula, sim, mais para frente — afirmou o ministro”. Não parece aquelas respostas dadas depois do 8 de janeiro?
Outro que tentou – dentro de suas funções, é bem verdade -, foi o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães. Foi o primeiro encontro entre ambos desde a derrota de Jorge Messias, rejeitado para a vaga no Supremo. Também Guimarães foi até lá, à residência oficial de Davi Alcolumbre, no início da tarde, para mais uma tentativa de apaziguar os ânimos. Diga-se, exaltados pelas articulações do presidente do Senado, que saiu pedindo votos contrários a Messias. Já chega, não é mesmo? Que tal deixar o todo poderoso na pedrinha fria um pouco? Se é só para trazer recado – como fez José Múcio-, ou receber agrados e tapinhas nas costas, como no caso de Guimarães, melhor guardar um pouco de recato, pelo menos até a volta de Lula do exterior. Quem muito se abaixa...
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



