Habitar a história
Habitar a história não é apenas lembrá-la. É criar instituições capazes de reconhecer quem a pensa criticamente
Conheci a Maria Paula Meneses muitas vezes. Conheci-a nas salas de aula de Coimbra, onde me convidou para discutir com os seus estudantes. Conheci-a em Maputo, onde ensinamos juntos em workshops e onde, entre uma conversa e outra, partilhávamos os biscoitos deliciosos da sua prima Célia Meneses, feitos com aquele carinho que é também uma forma de política. Conheci-a em conferências africanas, onde ríamos das nossas próprias certezas e nos divertíamos a desmontar as certezas alheias. Conheci-a como colega, como amiga, como cúmplice intelectual. E, em todas essas formas, reconheci sempre a mesma coisa, isto é, uma mulher que nunca vacilou. Ela perdeu a vida neste último fim de semana, na tenra idade de 62 anos.
A sua vida parecia um atlas. Raízes goesas, infância e juventude moçambicanas, formação na União Soviética, passagem pelos Estados Unidos, consolidação intelectual em Maputo e Coimbra. Um percurso improvável que, no entanto, fazia inteiro sentido nela. Era, por assim dizer, um mapa vivo do mundo pós-colonial, mas um mapa com eixo moral firme. O movimento nunca lhe retirou chão. Pelo contrário, esse movimento deu-lhe profundidade.
Os pais e avós identificaram-se profundamente com a causa nacionalista moçambicana, e esse compromisso inoculou-a politicamente desde cedo. Cresceu a saber que a história não era uma abstração, mas um destino concreto. Quando partiu para estudar, levou consigo essa consciência. Na União Soviética, onde, por coincidência feliz, estudou com a minha irmã, aprendeu a olhar o mundo com categorias amplas. Nos Estados Unidos, aprendeu a desconfiar das categorias amplas. Em Coimbra, ao lado de Boaventura de Sousa Santos e tantos outros colegas, encontrou o lugar onde pôde transformar tudo isso em pensamento próprio.
Há uma ironia histórica delicada na sua trajetória. Portugal tentou imaginar-se como centro excepcional do mundo colonial. A realidade desfez essa fantasia. E foi precisamente a partir desse país tornado periférico na Europa que Maria Paula Meneses ajudou a construir um dos espaços mais fecundos do pensamento do Sul Global. O Lusotropicalismo falhou como ideologia imperial, mas ganhou, pelas suas mãos, um sentido inesperado como projeto crítico pós-imperial. Ela mostrou que a periferia pode ser centro quando decide pensar sem pedir licença.
Tive o privilégio de trabalhar com ela em múltiplos contextos. Fiz parte de júris de doutoramento que orientou, integrei o conselho científico de programas que criou e tive-a como parceira num projeto de investigação que me é particularmente caro, "Reversing the Gaze", a tentativa de aplicar conceitos desenvolvidos no Sul Global para fazer pesquisa sobre e na Europa. Essa ideia de inverter o olhar era profundamente sua. Recusava que África fosse apenas objeto de estudo e insistia em que fosse sujeito de produção teórica. Para a Paula, pensar criticamente era sempre um ato de justiça.
Nos últimos meses, a vida pediu-me uma tarefa que aceitei com emoção. Por causa do seu estado de saúde, assumi a mentoria de projetos financiados pelo CODESRIA sobre temas que lhe eram queridos, a saber, a relação entre instituições financeiras internacionais e países africanos e a persistência do feminicídio. Ainda nesta última semana, avaliei os artigos resultantes desses projetos. Em cada texto reconheci a sua marca. O cuidado metodológico, a atenção às vozes silenciadas e a recusa obstinada de transformar pessoas em objetos de conhecimento.
A Paula ensinou-nos que o poder começa quando definimos o outro sem o escutar, e que a resistência começa quando devolvemos ao outro a complexidade que lhe pertence. Ela tinha uma forma rara de ser firme sem ser dura. Nunca confundiu militância com propaganda, nem rigor com frieza. Sabia rir de si própria e das modas académicas, mas não cedia ao cinismo. Em tempos de convicções baratas, manteve uma coerência cara. Nunca vacilou, e não por teimosia, mas por fidelidade a um princípio segundo o qual o conhecimento só faz sentido quando amplia a dignidade humana.
Resta-me, porém, uma inquietação que a sua morte torna inevitável. Até que ponto a sociedade portuguesa esteve consciente desta presença intelectual tão forte no seu meio? Que tipo de país é preciso ser para acolher verdadeiramente a força de alguém como Maria Paula Meneses? Portugal ganhou com ela uma pensadora que o ajudou a olhar para si mesmo a partir de fora, a reconhecer as suas próprias periferias e a entender que o pós-colonial não é um capítulo encerrado, mas uma condição viva. Mas terá sabido acolhê-la à altura da sua generosidade?
Vejo nisto uma lição. Habitar a história não é apenas lembrá-la. É criar instituições capazes de reconhecer quem a pensa criticamente. A Paula mostrou que era possível fazer ciência social de ponta sem abandonar o compromisso político. Mostrou que a periferia pode ser um lugar de invenção intelectual. Mostrou que a história, por mais dura que seja, pode ser transformada em futuro. Falta saber se o espaço onde trabalhou tantas décadas esteve à altura desse exemplo.
"Habitar a história" era, para ela, uma prática quotidiana. Significava aceitar o peso do passado sem se deixar aprisionar por ele. Significava recusar a facilidade das categorias prontas e a tentação de falar pelos outros. Significava entender que o pensamento crítico é, antes de tudo, um gesto de carinho. Aprendi muito disso com ela. Aprendi que a alegria também é método, e que a partilha, até de simples biscoitos numa cozinha de Maputo, pode ser uma forma silenciosa de emancipação.
Ao despedir-me dela, volto a essa imagem que me fica, a de uma mulher que atravessou mundos sem se perder, que pensou a partir de muitos lugares sem abandonar nenhum e que fez da própria vida uma demonstração de que a história não é destino, mas matéria a trabalhar. A melhor homenagem que lhe posso prestar é continuar esse trabalho — resistindo às categorias que desumanizam, escutando antes de explicar, pensando sem arrogância e agindo sem desistir. Ela ensinou-nos a habitar a história sem nos tornarmos reféns dela.
A recente eleição presidencial mostrou que a sociedade portuguesa sabe unir-se quando a democracia está em risco. Que essa mesma energia coletiva se mobilize agora para o desafio de habitar a própria história com a ousadia crítica que a Paula nos legou, defendendo a democracia também como defesa lúcida da consciência histórica.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



