Governança global em crise
Sem reformas estruturais que ampliem a representatividade, a ordem internacional corre o risco de perder legitimidade e eficácia no mundo multipolar
Vivemos uma era paradoxal. Nunca estivemos tão interligados — economicamente, tecnologicamente, ambientalmente — e, ao mesmo tempo, tão expostos à fragmentação política. As crises contemporâneas não respeitam fronteiras: o clima se altera sem pedir visto, algoritmos atravessam oceanos em milissegundos, cadeias produtivas conectam continentes e conflitos regionais irradiam instabilidade global. No entanto, os mecanismos encarregados de administrar essa interdependência continuam ancorados em uma arquitetura concebida há oito décadas.
A chamada governança global — estruturada em instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) — nasceu no pós-Segunda Guerra Mundial, em um contexto geopolítico radicalmente distinto do atual. A ordem que emergiu de 1945 foi pensada para evitar novos conflitos globais e estabilizar economias devastadas. Funcionou, em grande medida. Mas o mundo mudou.
Hoje, o centro dinâmico da economia global deslocou-se. Países do Sul Global concentram população, recursos estratégicos e crescente protagonismo econômico. Ainda assim, permanecem sub-representados nas instâncias decisórias centrais. O Conselho de Segurança da ONU, símbolo máximo da governança multilateral, conserva a lógica de poder de um mundo bipolar que já não existe.
É nesse ponto que se inserem as preocupações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao defender a reforma das instituições multilaterais, Lula não apenas vocaliza uma aspiração brasileira histórica; ele aponta para um problema estrutural de legitimidade. Instituições que não refletem a realidade geopolítica contemporânea tendem a perder autoridade moral e eficácia prática. E, sem legitimidade, o cumprimento das decisões internacionais torna-se precário.
A pertinência dessa preocupação é evidente. A governança global não se sustenta apenas em tratados ou formalidades jurídicas; ela depende de reconhecimento coletivo. Se os atores relevantes não se veem representados, a cooperação se enfraquece e o sistema se fragmenta.
Mas o Brasil não está sozinho nesse debate. A União Europeia defende reformas, embora sob uma perspectiva mais incremental. Seu compromisso é com a preservação do multilateralismo baseado em regras — o chamado rules-based order. A Europa busca atualizar o sistema sem desestabilizar sua espinha dorsal normativa, apostando em ajustes graduais que preservem os valores liberais que moldaram a ordem do pós-guerra.
Já os BRICS — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, hoje ampliado — adotam uma postura mais estrutural. Defendem a revisão das cotas de poder no FMI e no Banco Mundial, questionam a centralidade do dólar e criam instituições paralelas, como o Novo Banco de Desenvolvimento. Trata-se de um movimento que combina reforma interna com construção de alternativas.
A China, por sua vez, articula discurso e estratégia. Sustenta a necessidade de maior representatividade do Sul Global, mas, simultaneamente, consolida redes próprias de influência econômica e infraestrutura global. Sua proposta de multipolaridade envolve redistribuição de poder, mas também expansão estratégica.
Há convergências claras entre essas posições: todos reconhecem que o modelo atual carece de atualização. Divergem, contudo, quanto à profundidade e à direção dessa reforma. Preservar com ajustes? Reequilibrar estruturalmente? Construir alternativas paralelas? A disputa não é meramente institucional; é política, econômica e civilizatória.
O ponto central é que a governança global não é um conceito abstrato. Ela define quem decide sobre guerras e sanções, quem financia a transição energética, quem regula a inteligência artificial, quem estabelece padrões comerciais e ambientais. Em outras palavras, ela molda o futuro.
Ignorar a crise de representatividade significa correr o risco da irrelevância institucional. Reformar não é demolir; é reconhecer que estabilidade duradoura exige adaptação histórica. Instituições internacionais só permanecem vivas quando conseguem absorver transformações profundas sem perder sua função coordenadora.
O desafio contemporâneo não é escolher entre multilateralismo e soberania, mas encontrar um equilíbrio que torne o multilateralismo mais inclusivo, mais legítimo e mais eficaz. O mundo multipolar não precisa ser sinônimo de mundo fragmentado. Pode ser, ao contrário, uma oportunidade para uma governança mais plural.
Se o século XX foi marcado pela construção da ordem internacional, o século XXI será definido por sua capacidade de reforma. A alternativa à atualização não é a estabilidade; é a erosão lenta, seguida de ruptura.
A governança global está diante de uma encruzilhada histórica: reformar para fortalecer ou resistir até fraturar. A escolha não será teórica — será política. E o tempo, como sabemos, raramente é neutro.
Estas são as reflexões deste início de semana.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
