Governadora do Distrito Federal se afasta de Ibaneis, mas esbarra nas próprias contradições
Celina elogia secretário que criticou ex-governador e diz que BRB foi vítima, mas mantém estrutura inchada da vice-governadoria
A entrevista desta quarta-feira (15/04) da governadora do Distrito Federal, Celina Leão, evidencia mais do que uma mudança de gestão: escancara o distanciamento político em relação ao seu antecessor e padrinho, Ibaneis Rocha. Ao anunciar uma reformulação administrativa baseada em critérios técnicos, austeridade e combate a desvios, Celina sinaliza uma tentativa clara de reposicionamento, ainda que cercada por contradições.
Na fala, a governadora enfatiza a substituição de quadros políticos por “pessoas técnicas” e a necessidade de “cortar a torneira” de possíveis irregularidades. Nesse contexto, elogia seu novo secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, destacando sua experiência em recuperar orçamentos “estressados”. A escolha, no entanto, traz um elemento de tensão: o próprio secretário afirmou ter herdado uma “máquina desgovernada”, em crítica direta à gestão anterior de Ibaneis Rocha.
O diagnóstico se agrava com os números das contas públicas. O Distrito Federal enfrenta um déficit de R$ 2,7 bilhões, cenário que reforça o discurso de ajuste fiscal adotado pela atual governadora. Porém, esse apelo à austeridade entra em choque com dados da própria estrutura administrativa herdada — e mantida — por Celina.
Durante seu período como vice-governadora, ela ampliou significativamente o tamanho do gabinete. Em fevereiro de 2026, a estrutura da vice-governadoria contava com 393 servidores ativos, mais que o dobro dos 182 registrados no último ano da gestão de seu antecessor no cargo. A folha mensal dessa estrutura chega a aproximadamente R$ 2,2 milhões, composta majoritariamente por cargos comissionados. Mesmo com a extinção prática da função de vice-governador, a estrutura permanece ativa, pressionando os cofres públicos em um momento de ajuste.
Essa discrepância fragiliza o discurso de contenção de gastos e levanta questionamentos sobre a coerência entre a narrativa atual e decisões administrativas recentes da própria governadora.
Outro ponto sensível da entrevista envolve o Banco de Brasília (BRB). Ao comentar a crise relacionada ao banco e suas conexões com o caso envolvendo o banco Master, Celina afirmou que o BRB é “vítima de uma situação”. A declaração, no entanto, abre espaço para uma pergunta inevitável: vítima de quem? Ainda que não haja menção direta, o contexto político sugere que a responsabilidade recairia sobre a gestão anterior,, sob comando de Ibaneis Rocha.
Ao mesmo tempo em que busca preservar a imagem da instituição, destacando sua solidez e importância regional, a governadora evita detalhar informações, justificando o silêncio pela necessidade de proteger o mercado financeiro e negociações em curso. A estratégia de comunicação, porém, também reforça a tentativa de dissociar sua gestão de eventuais desgastes herdados.
O conjunto de declarações e movimentos políticos aponta para um distanciamento calculado. A ruptura com Ibaneis Rocha, antes aliado central de sua trajetória, parece atender a um objetivo maior: viabilizar seu projeto de reeleição em um cenário onde o ex-governador enfrenta queda de popularidade, especialmente após os desdobramentos envolvendo o BRB e o banco Master.
Ainda assim, a estratégia não é isenta de riscos. Como o próprio Ibaneis costuma lembrar, Celina Leão foi “uma vice-governadora com total poder”. Essa associação direta com decisões e estruturas do governo anterior dificulta uma ruptura completa perante a opinião pública.
Entre o discurso de renovação e o peso do passado recente, a governadora tenta equilibrar narrativa e realidade. O sucesso dessa equação dependerá não apenas de novos anúncios e ajustes técnicos, mas da capacidade de convencer que a mudança vai além das palavras, e não esbarra nas próprias contradições.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



