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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

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Flávio Bolsonaro avança, mas expõe riscos e resistências

Avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas ocorre em meio a riscos políticos, incertezas econômicas e resistência no mercado e no centro político

Flávio Bolsonaro (Foto: Edilson Rodrigues/Ag. Senado)

Levantamentos eleitorais desta semana — como Nexus/BTG Pactual, Paraná Pesquisas e, provavelmente, Genial/Quaest — não trazem novidades ao front político: repetem cenários de empate técnico causados pela polarização, com vantagem conjuntural, dentro da margem de erro, já esperada para o senador Flávio Bolsonaro em alguns resultados.

Como dissemos, o contexto de pressão sobre a avaliação do governo e as intenções de voto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decorre de fatores considerados sazonais dos primeiros trimestres, como reajustes em serviços de educação, moradia e transporte, além do vasto noticiário sobre corrupção e combustíveis que, em um primeiro momento, tende a atingir com maior intensidade o incumbente. Esses fatores impactam sutilmente o ambiente de divisão do país que permitiu o crescimento acelerado do senador Bolsonaro.

No entanto, recentemente, Flávio recolocou na pauta três riscos políticos associados à gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Riscos de Flávio

Primeiro, o “banana republic”, isto é, o efeito desestabilizador do questionamento do resultado das urnas eletrônicas em caso de derrota. Em evento da direita internacional, o senador Bolsonaro voltou a levantar suspeitas contra o sistema eleitoral brasileiro ao pedir interferência externa para evitar restrições ao conteúdo de sua campanha nas redes digitais.

Antes, em declaração no Congresso Nacional, ele deu um exemplo do que considera esse tipo de restrição, ao chamar o projeto que equipara ódio e aversão a mulheres ao racismo — em meio à explosão de casos de feminicídio — de “armadilha do PT”, afirmando que não apoiará medidas contra a “liberdade de expressão”. A fala foi interpretada como um sinal do que pode gerar embates diplomáticos e até comerciais entre Brasil e Estados Unidos, no meio do ciclo eleitoral, tendo como base a confusão entre o que é violação das leis e o que são discursos políticos, especialmente os de viés supremacista e as notícias falsas.

Por último, afirmou que a gestão Bolsonaro foi vítima da “tirania da Covid-19”, sugerindo que as consequências de crises mal administradas, por razões extremistas, podem se repetir caso vença o incumbente.

Mercado recalibra riscos

Em paralelo, o megainvestidor Luis Stuhlberger, conhecido como Rei da Faria Lima, disse ao InfoMoney que, seja Lula ou Flávio o vencedor, o novo presidente fará pouco para cortar o déficit fiscal, indicando que o mercado financeiro reduziu sua percepção de risco associada à reeleição do petista e recalibrou o que vê no bolsonarista.

“Caso o Flávio ganhe, o mercado vai ter uma euforia e depois vai ver que as coisas são mais difíceis de arrumar do que a gente pensa. Outra visão corrente no mercado, principalmente dos estrangeiros, é que um Lula 4 não vai ser pior que o Lula 3. Pode ser isso ou até ligeiramente melhor”, ponderou.

Já Mansueto de Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro no governo Bolsonaro, rejeitou a possibilidade de ser o “Posto Ipiranga” do senador. O gesto ocorreu no momento em que criadores do Plano Real, como Armínio Fraga e Pérsio Arida, declararam apoio ao nome do governador gaúcho Eduardo Leite, representando o centro. A escolha do governador goiano Ronaldo Caiado, da direita tradicional, pelo PSD pode levar esses setores do mercado a repetir um engajamento antibolsonarista observado em 2022. Na prática, é improvável que Caiado consiga tirar Flávio do segundo turno.

Campanha etarista

No radar da campanha da oposição está ainda uma agenda etarista do PL, apelidada na imprensa de “protocolo [Joe] Biden”. A intenção é mostrar que, por conta de sua idade avançada, Lula não teria condições de concorrer à reeleição. Na Faria Lima, pesquisas internas indicam que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad poderia se desgastar menos que o presidente no tema corrupção, enquanto um ministro supostamente próximo de Lula defende, nos bastidores, que ele desista de concorrer, conforme colunistas.

Analistas, contudo, não descartam que a empreitada ageísta tenha como desfecho o despertar de um “orgulho idoso” favorável ao petista e a piora do clima para uma eventual reforma previdenciária, sobretudo se o governo encontrar uma solução para destravar a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Assim, esse período não aconselha comportamentos de salto alto ou favoritismo, mas tampouco ansiedade e desespero. Afinal, “o tempo só passa para que tudo não aconteça ao mesmo tempo”, como diz um ditado popular.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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