Oliveiros Marques avatar

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

298 artigos

HOME > blog

Feitiço contra o feiticeiro: Bananinha na cadeia

Eduardo Bolsonaro poderia se tornar o primeiro troféu de uma cruzada repressiva criada pela própria extrema-direita

Eduardo Bolsonaro - 14/08/2025 (Foto: REUTERS/Jessica Koscielniak)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

A ironia da história é cruel. Depois de anos gritando contra o Brasil, atacando as instituições nacionais, conspirando contra a soberania econômica do próprio país e pedindo punições estrangeiras contra o povo brasileiro, pode ser justamente o governo de Donald Trump quem acabará criando as condições para colocar Eduardo Bolsonaro - o "Bananinha" - diante do maior pesadelo da extrema-direita tropical: a cadeia.


Tudo ainda está no terreno das hipóteses políticas e jurídicas, mas as peças começam a formar um desenho explosivo.


As investigações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master apontam suspeitas gravíssimas de relações com esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e organizações criminosas. Ao mesmo tempo, há denúncias, reportagens e indícios de que recursos oriundos desse universo nebuloso teriam financiado a vida nababesca de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos - incluindo sua permanência confortável no Texas e sua atuação política contra o Brasil em território norte-americano.


A pergunta inevitável surge: se dinheiro potencialmente ligado ao crime organizado brasileiro financiou atividades políticas em solo americano, como isso será interpretado por um governo Trump que decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas?


Aí mora a armadilha construída pelo próprio bolsonarismo.

Uma vez enquadradas como organizações terroristas, qualquer conexão financeira, operacional ou indireta com recursos oriundos dessas estruturas ganha outra dimensão perante as autoridades norte-americanas. O discurso histérico do "combate ao terror" deixa de ser slogan eleitoral e passa a produzir consequências jurídicas concretas. E isso sem nem mencionar as relações próximas dos Bolsonaro com o ex-deputado conhecido como "TH Joias", comprovadamente vinculado ao Comando Vermelho e preso no Rio de Janeiro.


Seria uma humilhação histórica: Eduardo Bolsonaro, que passou anos implorando por sanções internacionais contra o Brasil, poderia se tornar o primeiro troféu de uma cruzada repressiva criada pela própria extrema-direita que ele ajudou a alimentar.


O mais impressionante é que esse grupo nunca age pensando no país. Age pensando em salvar a própria pele, proteger patrimônio e garantir sobrevivência política.


Foi assim no tarifaço patrocinado pela família Bolsonaro junto a setores trumpistas. Naquele episódio, o Brasil sofreu perdas econômicas gigantescas: empresas exportadoras foram afetadas, empregos ficaram ameaçados e setores inteiros da indústria nacional pagaram a conta da sabotagem promovida por brasileiros contra o próprio mercado brasileiro - tudo em nome de guerras ideológicas delirantes.


Agora, novamente, o país pode sofrer consequências econômicas devastadoras em razão dessa obsessão irresponsável de transformar o Brasil em quintal de disputas extremistas globais. A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pode afetar fluxos financeiros, gerar desconfiança internacional, aumentar controles sobre operações bancárias brasileiras e criar enormes constrangimentos diplomáticos e comerciais.


Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro posa de perseguido político em mansões texanas, vivendo uma rotina incompatível com qualquer imagem de "exilado". Não parece alguém sofrendo dificuldades. Parece alguém sustentado por uma rede de interesses muito poderosa.


E é justamente aí que o feitiço pode virar contra o feiticeiro.


Trump pode até simpatizar politicamente com os Bolsonaro, mas os Estados Unidos não brincam quando o assunto envolve financiamento suspeito, terrorismo e circulação global de dinheiro potencialmente vinculado ao crime organizado.


A extrema-direita brasileira passou anos acreditando que brincar com fogo era demonstração de força. Talvez descubra tarde demais que o fogo também queima quem acha que está controlando as chamas.


No fim, a cena mais simbólica dessa tragicomédia talvez seja esta: Bananinha descobrindo que o império que ajudou a convocar pode acabar batendo à sua própria porta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados