EUA perderam a guerra – para as corajosas iranianas nas ruas
A força das iranianas nas ruas revela como os EUA perderam a guerra diante de um ato coletivo de coragem e resistência civil
Há várias dimensões neste texto[1]. E como uma cebola que agrega sabor ao prato – nem sempre aprazível a todos os paladares, contudo, inegavelmente impactante – precisamos descascar para, neste caso, compreender o quanto possível o sentido de cada camada. Senão, vejamos.
Reflexões inquietantes
1. O Irã é uma civilização de aproximadamente 7 mil anos de história; história esta sempre pronta a resistir aos tantos impérios que já lhe tentaram sucumbir incontáveis vezes;
2. O presidente dos EUA, Donald Trump, para além da demonstração de demência, ou da fria crueldade, ou dos muitos crimes que comete cada vez que abre a boca (mesmo que as verbalize apenas em suas redes digitais), subestimou a resistência iraniana mais ainda ao lhes ameaçar [dia 7 de abril] afirmando que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ressuscitar”; disse isto e apontou os principais alvos a serem primeiramente destruídos: pontes e usinas hidrelétricas; e o risco de este desvairado apertar o botão vermelho e lançar sobre a atinga Pérsia dezenas de ogivas nucleares fez o mundo inteiro ficar em alerta extremo;
3. As ruas sempre foram os espaços das lutas coletivas por direitos, por dignidade, por liberdade, por vida – em qualquer lugar do mundo;
4. Após esta fala do déspota dos EUA, a falta de medo fez surgir a cena[2] mais formidável desta quadra histórica [e da guerra no Oriente Médio]: correu o mundo a imagem mostrando milhares de pessoas, em especial, mulheres e boa parte delas, ao lado de suas filhas e filhos, e carregadas de bandeiras do Irã, fazendo a corrente humana sobre as pontes e ao redor destes lugares, exatamente aqueles que seriam fortemente bombardeados pelo império ainda vigente nos dias atuais;
5. Ou seja: estas mulheres e suas crianças (os homens também), certas de que suas vidas seriam martirizadas, com uma coragem que não se viu com tal dimensão em nenhum lugar do mundo, desafiaram a soberba e a covardia de Donald Trump;
6. Para se compreender o modal de força da civilização iraniana – que não apenas não foi destruída naquela noite prometida, todavia, ascendeu ainda mais potente – é fundamental que troquemos nossas lentes mediocremente unifocais e nos abramos às perguntas: i) Que cultura é essa?; ii) O que significa martírio para esta gente?; iii) Qual é o limite da resiliência, da paciência e da resistência do Irã; e iv) Onde esteve esse tempo todo este povo?
7. Finalmente: todo império na história ruiu no tempo de seu esgotamento; e a estagnação acontece porque todo império é uma farsa sustentada na força que se engasga sufocada pela mesma energia da opressão que imprime na manutenção de seu movediço terreno enganoso; isto é, ao impor toda pressão para dominar, é consumido por sua força centrípeta; em palavras mais simples: se engasga no próprio vômito.
Trazidas ao menos estas sete camadas como premissas ao debate, reflitamos se o mundo será o mesmo depois deste primeiro semestre do ano de 2026.
Ao que tudo indica, estamos diante de uma daquelas drásticas mudanças por que passa a humanidade de tempos em tempos.
O Direito Achado no Martírio Coletivo
Certa feita, numa aula do professor José Geraldo de Sousa Junior, este veio nos ensinar sobre o Direito Achado na Rua, que tem no seu mote epistemológico a liberdade como princípio maior das relações e da infraestrutura para a vida, sendo, por conseguinte, o axioma mais potente da conceituação, da importância e da funcionalidade do direito. O professor fundamentava a tese com o saber do filósofo Roberto Lyra Filho, que afirmava ser o direito (e suponho outras ciências também) “a legítima organização social da liberdade”.
Dito isto, em que se coadunam tais vocábulos e os sentidos que se fazem mosaico na sentença acima, frente à questão iraniana, no particular, das mulheres de ascendência persa presentes neste texto?
Na primeira dimensão, a vida, ela o é para a liberdade, e todas as funcionalidades do existir somente fazem sentido se o são para a liberdade. E o povo do Irã demonstra que não faz sentido viver se não for para a liberdade. Não faz sentido haver uma estrutura organizacional (e economia) das civilizações se não se guardar a liberdade de suas sociedades, a autodeterminação dos povos e o respeito às suas culturas.
No segundo aspecto, o direito, em sua dimensão internacional fracassou. Foi positivado (especialmente debatido a partir do pós-Segunda Guerra Mundial) para ser hoje apenas uma estrutura pró-forme, mera moldura elegante tal qual o painel “Guerra e Paz”, pintura icônica entregue para enfeitar o rol principal da sede da Organização das Nações Unidas (que, aliás, hoje serve apenas como uma galeria a exibir artes como essa mencionada, feita pelo talento de um brasileiro, o grande Cândido Portinari; a ONU, infelizmente, não serve para mais que isto; talvez – se arte – um teatro servirá).
A começar por Israel, forjado como Estado pelos pactos multilaterais e pelo mesmo Direito Internacional que hoje despreza com tanto despudor e violência, as nações – em sua maioria – já não suportam mais o diálogo e as convenções (ou não há mais acreditação) de boa civilidade. E a barbárie geopolítica venceu (fazendo toda a humanidade perder).
Seu contrário, fazendo a paráfrase que aprendi nas aulas do José Geraldo: o Direito Achado no Martírio Coletivo talvez nos sirva como um canal reflexivo para uma atitude de otimismo – ainda que a empatia nos exija respeito à dor alheia, portanto, um minuto de silêncio e uma resignação em riste.
Crianças do Martírio
A maior prova de que a ONU e o Direito Internacional estão em colapso é perceber, de um lado, a banalidade do mal (agora parafraseando Hannah Arendt) que brota dos aviões de Israel e dos EUA quando no primeiro dia desta nova guerra (a saber, 28 de fevereiro de 2026), aproximadamente 180 criancinhas iranianas, todas mulheres, foram assassinadas propositalmente por estes dois países no bombardeio à Escola Primária Feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, e do outro a inércia dos freios e contrapesos dos organismos internacionais que serviram neste caso apenas para emitir notas de repúdio ao crime de guerra debochadamente impetrado pelos Estados genocidas em questão.
Se um dia o povo judeu (e devemos nos comover sempre e trazer à memoria todos os dias) foi brutalmente massacrado pelos nazistas alemães, o fato é que este mesmo povo judeu assiste em silêncio o mesmo tipo de crueldade praticada por Israel na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã, tendo como símbolo maior este assassinato das crianças na escola, aliás, meninas, que a hipocrisia ocidental teima em declarar ser um dos motivos para intentar contra o Irã: a libertação das mulheres iranianas, oprimidas pelo julgo de seu regime teocrático dos aitolás.
O fato é que o conflito ainda não se resolveu pela paz. Embora neste instante enquanto escrevo o texto, EUA (seu “proxy” no Oriente Médio, Israel) e Irã não chegaram a um acordo definitivo. No entanto, uma certeza já ensaiamos: as meninas martirizadas, embora não possam elas trabalhar na continuação do projeto da civilização persa-árabe, representam o esperançar intergeracional de um novo tempo; um tempo em que o império dos EUA afundarão. Não como quase afundou o Abraham Lincoln nas proximidades do Estreito de Ormuz (no dia 1º de março). Mas à insignificância do dominador.
Aos moldes de todo mecanismo opressor e igual a todo império que mesmos os persas viram em seus 7 mil anos de civilização: EUA sucumbirá. E estas Crianças do Martírio, as da escola no Irã e todas aquelas por décadas na África, na América Latina, na Ásia e nos rincões do mundo, serão a ponte para uma nova era, de paz e de brincadeiras [de outras crianças]; de direitos e de justiça [a todos e todas]; de vida e de liberdade [para os humanos, filhas/os de uma só mãe: a Terra; para uma só Humanidade]...
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[1] Este texto somente faz completar o sentido se a sua leitura for possível observar concomitantemente a imagem dos iranianos – e suas crianças a brincar – na ponte que receberia uma chuva de mísseis dos EUA (ali pelas 21 horas de 7 de abril) enquanto estas vidas faziam virgília/manifestação nas ruas para proteger com seus corpos a civilização de seu pertencimento.
[2] A imagem que aqui colocamos é de domínio público. Correu o mundo por meio das redes sociais. Dessa forma, fizemos um recorte da tela do vídeo que também foi divulgado pela TVT no Youtube, enquadrando o evento principal: as crianças que compunham os milhares de iranianos que encararam de frente os mísseis e bombas dos EUA e Israel.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



