Esfera dos derrotados
"O problema não é que sejam ricos. O problema é que acreditam que a riqueza lhes confere uma leitura privilegiada da realidade"
Há um tipo peculiar de derrota que não se anuncia com silêncio ou humildade. Ela chega de terno sem gravata, de sapatênis italiano, com um copo de vinho na mão e um discurso sobre "o Brasil que pode ser". É a derrota dos que nunca precisaram perder de verdade - e por isso não sabem o que significa ganhar algo para o país.
O encontro de fim de semana que reuniu empresários, economistas de bancada e a fauna adjacente do mundo corporativo-midiático revelou, com involuntária generosidade, o que há muito se suspeita: estamos diante de um clube. Não de pensamento, não de proposta - de pertencimento. Um clube de homens brancos bem-nascidos que confundem a própria trajetória com mérito, o próprio horizonte com o horizonte nacional, e a própria prosperidade com evidência de que o sistema funcionaria para todos.
O problema não é que sejam ricos. O problema é que acreditam que a riqueza lhes confere uma leitura privilegiada da realidade. E aí está a derrota: quando você passa a vida num ambiente que confirma tudo que você pensa, você para de pensar. Você começa a repetir. E o que aquele fim de semana produziu foi, fundamentalmente, repetição - o mesmo diagnóstico de sempre, a mesma receita de sempre, o mesmo alvo de sempre.
A empatia não é uma virtude decorativa. É uma ferramenta cognitiva. Quem não consegue habitar, mesmo que por um instante, a perspectiva de quem vive com salário mínimo, de quem mora a horas de distância do trabalho, de quem escolhe entre remédio e comida - esse alguém não tem condições de propor política pública. Tem condições, no máximo, de propor política para si mesmo. E é exatamente isso que o encontro fez: embalou interesse de classe em linguagem técnica e chamou de visão de país.
Um país não é o PIB. Não é o índice de confiança do empresariado. Não é a taxa de juros que protege o capital financeiro. Um país é a soma de como seus habitantes dormem à noite. E se os anfitriões daquele fim de semana dormem bem - e claramente dormem -, isso não é sinal de que o país que eles querem seja bom para a maioria. É sinal de que eles construíram, com competência, um isolamento perfeito da realidade que produzem.
Daí o cinismo estrutural do discurso. Não é mal-intencionado no sentido vulgar. É algo mais grave: é honesto dentro de seus próprios limites. Eles realmente acreditam no que dizem. E é precisamente essa crença - intacta, impermeável, autorreferente - que os torna derrotados. Derrotados pela incapacidade de enxergar o país real. Derrotados pela recusa em atualizar o mapa quando o território muda. Derrotados, sobretudo, pela confusão entre uma fatia do Brasil e o Brasil inteiro.
A esfera dos derrotados não é um espaço de fracasso econômico. É um espaço de fracasso moral e intelectual. É aonde se vai quando se desiste, confortavelmente, de compreender.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




