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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Entre commodities e juros altos: O crescimento de 2,3% e a queda do investimento

O ciclo de aperto monetário já cobra seu preço na atividade e intensifica a discussão sobre o momento adequado para iniciar um processo de redução de juros

Homem caminha em frente à sede do Ministério da Fazenda, em Brasília 14/02/2023 REUTERS/Adriano Machado (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

O PIB brasileiro divulgado agora mostra crescimento de 2,3% no ano passado, atingindo R$ 12,7 trilhões, o maior nível da série histórica. Em termos absolutos, trata-se de um novo recorde. No entanto, ao fazermos um “raio-x” mais detalhado — abrindo os componentes como em um exame de sangue — a leitura se torna mais complexa.

Na margem, isto é, na comparação entre o quarto e o terceiro trimestre, o crescimento foi de apenas 0,1%, caracterizando praticamente uma estagnação. Fica evidente a desaceleração da atividade no segundo semestre, refletindo a sensibilidade dos setores mais dependentes de crédito ao atual nível de juros. A construção civil recuou 2,3% no trimestre, transporte e logística caíram 1,4%, e a indústria de transformação — setor central para geração de valor — encolheu 0,6%. O comércio também apresentou queda de 0,3%. Ou seja, os segmentos mais afetados pelo encarecimento do crédito e pela Selic elevada mostram perda de dinamismo clara nas contas nacionais.

Por outro lado, alguns setores tiveram desempenho robusto. As atividades extrativas seguem muito fortes, impulsionadas por petróleo e mineração. O Brasil já produz cerca de 3,7 milhões de barris por dia, consolidando-se como o maior produtor da América Latina. A agropecuária avançou 0,5% no trimestre. O setor de informação e comunicação cresceu 1,5%, e as atividades financeiras tiveram expansão expressiva de 3,3%, demonstrando a resiliência dos serviços modernos e do sistema financeiro.

O dado mais preocupante do trimestre foi a formação bruta de capital fixo, que despencou 3,5% na comparação com o trimestre anterior. Trata-se do pior sinal do relatório, pois investimento é o componente que sustenta crescimento futuro. Importações caíram 0,8%, refletindo desaceleração interna e possivelmente efeitos de tarifas, enquanto as exportações cresceram 3,7%, contribuindo positivamente para o resultado. O consumo das famílias ficou praticamente estável (0%), após leve queda no trimestre anterior, e o gasto do governo cresceu 1%.

Na comparação interanual, o PIB do quarto trimestre cresceu apenas 1,8% frente ao mesmo período do ano anterior, mantendo o mesmo perfil: queda na construção civil (-2,9%) e na indústria de transformação, enquanto agropecuária e extrativas puxaram o resultado. A economia brasileira continua com a “cara” de commodities — soja, petróleo e produtos primários sustentando a expansão — ao lado de serviços financeiros e de tecnologia da informação.

Quando se observa o investimento na comparação entre o quarto trimestre de 2025 e o de 2024, a queda foi de 3,1%. Esse é o ponto estrutural mais sensível. Enquanto países como Vietnã, Índia e China investem mais de 30% do PIB — e a China supera 40% — o Brasil investe cerca de 18%, e ainda em trajetória de queda na margem. Esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles do modelo brasileiro. Com baixo investimento, o crescimento encontra limites estruturais: surgem pressões inflacionárias e restrições externas, exigindo resposta do Banco Central via juros elevados, o que retroalimenta o ciclo de desaceleração.

No acumulado do ano, porém, os números ainda são positivos: investimento cresceu 2,9% na comparação com os quatro trimestres anteriores (embora abaixo dos 6,9% observados no período anterior), exportações avançaram 6,2%, importações 4,5%, consumo das famílias 1,3% e gasto do governo 2,1%. O retrato anual ainda é razoável. Contudo, ao decompor os trimestres, fica claro que houve dois momentos distintos: um primeiro semestre muito forte e um segundo semestre marcado por estagnação.

Em síntese, temos dois PIBs no ano passado: um PIB vigoroso no primeiro semestre e outro praticamente parado no segundo. A desaceleração na margem, especialmente do investimento, reforça o argumento de que o ciclo de aperto monetário já cobra seu preço na atividade e intensifica a discussão sobre o momento adequado para iniciar um processo de redução de juros.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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