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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Eles não passariam, mas continuam passando. E por quanto tempo ainda passarão?

“O fascismo avança no mundo, enquanto a velha esquerda bebe cerveja sem álcool”, escreve Moisés Mendes

Trump e Netanyahu se reúnem em Palm Beach em dezembro 29/12/2025 REUTERS/Jonathan Ernst (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Dois amigos bebem cerveja sem álcool no Chalé da Praça XV, no centro de Porto Alegre, onde tomaram porres inesquecíveis nos anos da ditadura. Um ainda repete que o fascismo não passará, e o outro tem certeza de que eles passaram e continuarão passando.

Passam no mundo todo, diz o amigo pessimista, que foi líder estudantil e comunista tardio e hoje não é mais nada. Esse, o pessimista, faz balanços terríveis da conjuntura toda vez que os dois se encontram.

A conversa é sobre cenários mundiais, porque, se for sobre o Brasil, qualquer debate vai parar em Michelle e Malafaia, e aí ninguém aguenta.

O amigo otimista, que foi da Libelu, do PT e do PSOL e hoje simpatiza com a UP por influência de um neto, diz que “eles” podem até matar todos os aiatolás, mas que em Cuba não passarão, porque tentaram várias vezes e falharam. Cuba vai resistir, diz ele.

O pessimista retruca: passaram no Iraque, passaram no Afeganistão, passaram na Síria, passam por onde querem. Passam por cima do Irã. Sempre disseram que eles não passariam em Gaza, porque o Hamas não iria deixar.

O Hamas não conseguiu conter a matança neonazista. Mas eles não teriam a petulância de atacar o Hezbollah. Porque entram em Gaza, mas no sul do Líbano eles não entrariam. Com o Hezbollah o furo seria mais embaixo.

Entraram e mataram quem queriam matar. Pararam de matar quando quiseram. Mataram sete líderes do Hezbollah dentro do Líbano. O amigo pessimista conta nos dedos: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. E pede mais uma cerveja sem álcool.

Mataram e ficou por isso mesmo. E agora se preparam para ocupar as terras do Líbano, aproveitando os pretextos da guerra contra o Irã. Vão acabar com o Hezbollah e se apossar do Líbano.

Mas com o Irã eles não iriam se meter, porque o Irã terá logo armas nucleares, talvez daqui a alguns meses. Mas eles mataram o general Soleimani, alto chefe da segurança do Irã, que foi cercado e morto por drones no Iraque.

Poderiam até matar um líder iraniano em Bagdá, mas de Teerã eles não chegariam perto. Eles chegaram e mataram dois chefes da Guarda Revolucionária dentro de Teerã. O pessimista vai falando e chega a se exaltar com o próprio relato de tanta desgraça.

Mataram um chefe do Hamas dentro do Irã. Invadiram o espaço iraniano com aviões e lançaram bombas em instalações nucleares. Lançaram mais de uma vez, no ano passado. Atacaram, foram embora e voltaram a atacar. Atacaram três usinas.

Mas o Irã iria reagir com força nunca vista. E então o Irã atacou bases americanas no Catar. E não atacou mais nada, diz o pessimista, com a arrogância de quem está vencendo o debate.

O amigo ainda otimista diz que vizinhos árabes não podem ser assim tão covardes diante dos ataques aos povos amigos ou, pelo menos, vizinhos.

"Por que nenhum poderoso do mundo árabe ou não árabe defendeu Gaza com determinação?", pergunta o pessimista. O outro finge que a pergunta não foi feita. Mas responde: "porque os árabes poderosos, quase todos, são amigos dos americanos".

E seguem os dois tomando cerveja sem álcool e comendo bolinho de bacalhau, até que o amigo pessimista diz que a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos foi para mostrar que eles fazem o que bem entendem.

O amigo otimista admite que o sequestro de Maduro havia sido, de fato, um duro golpe. Pegaram Maduro como se fosse um sabiá distraído. Mas o chavismo irá se reorganizar sem Maduro.

O amigo pessimista lembra, enquanto o outro escuta, quieto, que a Europa toda comemorou até a possibilidade de ascensão de Maria Corina ao poder.

O amigo otimista rebate, como se esse fosse seu único argumento disponível ali naquele momento, mas meio sem força na voz, que Maria Corina foi rejeitada pelo próprio Trump. E que já esqueceram Maria Corina.

E o pessimista contra-ataca: mas esse é o teu consolo? É o que te resta diante do próximo ataque, que pode ser a Cuba ou a Colômbia?

Eles acabaram com Ali Khamenei e meia dúzia de aiatolás no primeiro dia da guerra e vão acabar com o Irã e depois partirão para cima dos cubanos. Talvez só não se metam com Putin.

O amigo otimista ergue os ombros, no seu jeito de expressar desprezo pela ideia alheia desde o movimento estudantil, e pede outra cerveja, mas agora com álcool. O pessimista provoca, em voz baixa e olhando para o lado, com um ar meio blasé: e a China?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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