Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (I)
Quando a política vira indústria do alcance. Como a IA e o mercado de percepção digital podem afetar dramaticamente as eleições de outubro
Lembra da bolinha de papel que atingiu José Serra? Lembra do “gabinete do ódio” tentando comprar software de monitoramento? Aquilo era pirulito no recreio: improviso, ruído, truque de esquina. A guerra de 2026 é outra. Ela não depende de um ato que vira manchete — depende de um encanamento que roda todo dia. Não precisa que você acredite; basta que você duvide. Não precisa vencer o argumento; basta saturar a atenção.
As eleições gerais de 2026 começam assim: não com uma mentira monumental, mas com uma avalanche de pequenas certezas prontas para consumo. Na primeira hora da manhã, antes do café terminar de coar, o país já está de pé — não pelas ruas, mas pela palma da mão.
O celular vibra com a urgência de quem bate na porta. Um vídeo chega no grupo da família. Em seguida, o mesmo vídeo aparece em outro, com uma legenda diferente. Depois, numa terceira versão, alguém “explica” a cena com uma voz segura, paternal, como se estivesse revelando um segredo que só ele teve coragem de dizer em voz alta.
Dez minutos depois, o assunto vira meme. Em meia hora, vira “tendência”. Em uma hora, você já encontra gente reagindo ao vídeo que você ainda nem viu — e gente reagindo à reação do vídeo que você nem teve tempo de checar.
É isso — em escala — que já está acontecendo. Não é que a desinformação tenha nascido agora. O que mudou foi o patamar. O que antes exigia equipe, tempo, orçamento e uma estrutura quase industrial, hoje pode ser feito como se fosse um aplicativo: liga, produz, adapta, dispara. A inteligência artificial entra como quem abaixa o preço do ingresso para um estádio lotado. Ela não inventa a torcida, mas faz a multidão chegar mais rápido — e gritar em coro.
A eleição geral de 2026 deixa de ser apenas a disputa clássica das ideias. Vira algo mais frio e mais difícil de explicar em frases bonitas: uma disputa de infraestrutura. Infraestrutura de atenção, distribuição e velocidade. Quem controla o encanamento por onde as emoções passam.
O método exposto
No começo do ano, uma história atravessou Brasília e as redes com um detalhe que importa mais do que o enredo: o método. Reportagens registraram relatos de influenciadores abordados no fim de 2025 com propostas para publicar conteúdos questionando decisões do Banco Central do Brasil no caso Banco Master.
A peça central, aqui, não é o valor exato nem o folclore da negociação — é a lógica: conteúdo sob encomenda, roteiro, timing, multiplicação. Quando o assunto ganhou corpo, a Polícia Federal abriu apuração para investigar uma possível campanha coordenada nas redes contra o Banco Central após a liquidação do banco, segundo noticiário.
Em paralelo, análises públicas de pesquisadores indicaram volume elevado de publicações e a tentativa de dar aparência de “onda espontânea” ao que poderia ser uma operação organizada — um traço típico do nosso tempo: não basta falar; é preciso parecer inevitável.
Esse episódio funciona como um ensaio geral por um motivo simples: ele mostra que redes capazes de operar hoje para um pagador podem operar amanhã para outro — e, num ano eleitoral, essa plasticidade deixa de ser detalhe de mercado e vira risco institucional.
A política sempre se alimentou de fatos — mas em 2026 os fatos não são mais o centro; são matéria-prima. Um recorte. Um pedaço de áudio. Uma frase fora de contexto. Um gráfico sem fonte. Um print sem link. Um “vazamento” sem origem. Um vídeo editado para caber em 30 segundos e sobrar indignação.
A IA não precisa fabricar tudo do zero. Ela pode fazer algo mais eficiente: torcer o real até que o real pareça outra coisa. O falso raramente chega com a placa “falso”. Ele chega com maquiagem, com luz boa e com uma legenda certeira. E quando o conteúdo parece testemunho, a checagem vira uma corrida injusta — porque a checagem exige o que o conteúdo não oferece: origem, contexto, cadeia. A checagem precisa de tempo; a emoção precisa de segundos.
A fábrica do espontâneo
A grande operação do nosso tempo não é convencer — é parecer natural.
Parece um depoimento, mas é um roteiro. Parece indignação, mas é um pacote. Parece “voz do povo”, mas tem cronograma. Parece “achei isso por acaso”, mas há uma máquina inteira empurrando o acaso para a sua tela.
A estética é a do cotidiano. O cenário é a sala simples, o carro parado, a rua. O vocabulário imita o de quem não tem tempo para discurso: “vou falar rápido”, “não dá pra ficar calado”, “ninguém quer te contar isso”. A frase final pede um gesto que parece inofensivo — “manda pra mais alguém” — mas é o empurrão que transforma um conteúdo em corrente.
E aí entra o traço novo: em 2026, a máquina que produz essas peças não precisa mais de tanto esforço humano para variar. A IA escreve uma versão “irônica” e outra “grave”. Uma mais regional, outra mais “neutra”. Uma com cara de “análise”, outra com cara de “desabafo”. Ela faz o que o marqueteiro de ontem chamaria de segmentação — só que com uma rapidez que deixaria qualquer agência antiga com inveja.
O milagre é simples: a mesma mensagem, com roupas diferentes, entra em casas diferentes sem parecer propaganda. Ela entra como conversa.
Aqui está o coração do problema: a IA dá ao mercado da atenção duas vantagens que, juntas, viram um motor de guerra política. A primeira é velocidade. Um acontecimento do dia vira, em poucas horas, dezenas de versões. A segunda é variedade. A mesma ideia ganha cara de piada, de denúncia, de “análise”, de “confissão”, de “desabafo”.
Esse par — velocidade e variedade — cria um fenômeno clássico do nosso tempo: a sensação de que “está em todo lugar”. E quando algo está em todo lugar, o cérebro interpreta como verdade social, mesmo quando não é verdade factual. A etiqueta cola antes da prova.
A parte desconfortável começa aqui: se existe um mercado que vende atenção, e se esse mercado se organiza pela lógica de “entrega” (alcance, engajamento, viralidade), o Estado corre o risco de ser capturado pela arena que deveria administrar. Não se trata de demonizar criadores de conteúdo. Trata-se de reconhecer uma assimetria: sem padrões claros, contratar alcance é contratar poder de agenda. E poder de agenda, em ano eleitoral, não pode operar como caixa-preta.
A captura não precisa ser ideológica. Pode ser apenas mercantil. Hoje a rede serve a um pagador; amanhã serve a outro. O que está em disputa não é fidelidade; é fluxo.
Três linhas vermelhas
Não adianta pedir calma à multidão quando o encanamento foi desenhado para acelerar pânico. O que ajuda é estabelecer três linhas vermelhas — simples, públicas, cobradas.
Primeira: rotulagem real. Conteúdo político com uso de IA precisa ser identificado de forma padronizada.
Segunda: trilha e rastreabilidade. Quem pagou, quem executou, quem distribuiu — sem isso, a democracia vira território de “acredita quem quer”.
Terceira: resposta rápida com devido processo. Regras claras, justificativa e possibilidade de contestação.
A eleição de 2026 talvez não seja a primeira em que a inteligência artificial aparece. Mas pode ser a primeira em que ela se torna infraestrutura de guerra de percepção: uma máquina que não precisa convencer, só precisa empurrar; uma máquina que não precisa provar, só precisa saturar.
E infraestrutura não se enfrenta com gritaria. Infraestrutura se enfrenta com transparência, auditoria e norma — e com uma sociedade que reaprende a fazer a pergunta mais simples do jornalismo: de onde vem isso?
Links e referências
• Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-01/caso-master-pf-vai-apurar-suposta-campanha-contra-o-bc-nas-redes
• NetLab/UFRJ: https://netlab.eco.ufrj.br/post/caso-master-pf-investiga-quem-pagou-por-ataque-de-influenciadores-ao-banco-central
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
