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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Eleições em São Paulo: centro-esquerda pode vencer

São Paulo não é território intransponível

São Paulo (SP) 29.06.2024 - Lula, Alckmin e Haddad (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

É evidente que a decisão de disputar ou não uma eleição passa, antes de tudo, pela vontade pessoal de quem pode concorrer. Há leituras políticas, projeções de cenário e, muitas vezes com peso maior do que se imagina, fatores familiares e íntimos que influenciam essa escolha. Nada disso pode ser ignorado. Ainda assim, é possível - e necessário - observar o tabuleiro com alguma frieza analítica para compreender o que está em jogo no maior estado da Federação.

O primeiro elemento que costuma ser invocado é a avaliação positiva do governo de Tarcísio de Freitas, apontada por diferentes institutos de pesquisa. Se olharmos esses números com antolhos - aquelas viseiras colocadas nos cavalos para restringir o campo de visão periférica e traseira, forçando-os a enxergar apenas o que está à frente - poderíamos concluir que o atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes é imbatível.

Mas política raramente é tão linear. Uma leitura mais cuidadosa dos mesmos dados, ainda que limitados às perguntas formuladas pelos institutos e não a outras que poderiam revelar nuances adicionais, sugere cenário menos sólido do que aparenta. Arrisco dizer que essa avaliação positiva se apoia em três pilares: um núcleo de cerca de 20% de bolsonaristas convictos; uma fatia um pouco menor de eleitores que, mesmo não sendo bolsonaristas, mantêm rejeição ao PT e a Lula; e um contingente mais amplo movido pela inércia do “se não está me atrapalhando - ou se eu não percebo que está - então está tudo bem”. Esse comportamento não é exclusivo de São Paulo; replica-se em vários estados. O governo estadual, enquanto instituição, possui uma espécie de invisibilidade estrutural: seus erros nem sempre são percebidos de imediato, e seus acertos são frequentemente naturalizados.

É justamente nessa zona cinzenta que se abre a possibilidade de disputa real. Governos que parecem sólidos podem revelar fragilidades quando confrontados com narrativa contrária convincente e mobilização emocional consistente. João Doria também parecia inquestionável em determinado momento e tentou transformar o governo estadual em trampolim presidencial; encontrou, no entanto, limites políticos e alianças que não se sustentaram. A história ensina que popularidade administrativa não é sinônimo de hegemonia eleitoral.

Daí decorre o ponto central: a vitória do campo de centro-esquerda em São Paulo depende menos da fotografia atual das pesquisas e mais da história que será contada. É preciso emocionar os paulistas e as paulistas, fazê-los prestar atenção na eleição estadual e perceber, na candidatura apresentada, uma mão estendida na direção do futuro que desejam. Sem narrativa, não há virada. Sem credibilidade, não há adesão.

E é aqui que a discussão sobre as chapas ganha peso estratégico. A definição dos nomes para governo e Senado pelo campo lulista não é mero exercício aritmético; é decisão que pode reconfigurar o jogo. A escolha dos porta-vozes será determinante para conferir densidade política, amplitude ideológica e confiança institucional à proposta apresentada.

Arrisco, portanto, “pular o corguinho”. Uma composição com maior potencial competitivo poderia reunir Geraldo Alckmin ao governo, Luiz Marinho como vice, Fernando Haddad ao Senado e, na segunda vaga, Marcio França ou Marina Silva. Trata-se de uma engenharia que combina experiência administrativa, diálogo com o centro, identificação com o eleitorado progressista e capilaridade nacional. Uma chapa assim sinalizaria estabilidade, moderação e projeto de futuro - valores que dialogam com o eleitorado paulista.

Alguns perguntarão: e Simone Tebet? Sua presença, embora relevante, talvez cumpra papel estratégico distinto, igualmente importante para a consolidação de uma frente ampla nacional. Mas essa é conversa para outro artigo.

O fato é que São Paulo não é território intransponível. Se o campo lulista souber ajustar suas velas - escolhendo bem seus nomes, afinando discurso e ampliando alianças - poderá transformar um cenário aparentemente confortável para o adversário em disputa real. E, em política, quando há disputa real, há possibilidade concreta de vitória.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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