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Conexão China, com Miguel do Rosário

Jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje

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Dragão fulmina o tarifaço de Donald Trump

Uma vitória de todo o Sul Global

Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping - 30/10/2025 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)
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Enquanto os Estados Unidos passaram as últimas décadas torrando trilhões de dólares do contribuinte americano em guerras eternas, mudanças de regime e golpes de Estado, a China investiu em trens de alta velocidade, infraestrutura urbana, centros de pesquisa e universidades.

O resultado dessa diferença de foco é visível hoje: a China possui as maiores reservas internacionais do mundo, com mais de US$ 3,3 trilhões, equivalentes a 18% do seu PIB. Para comparação, as reservas americanas representam apenas 1,5% do PIB dos EUA – doze vezes menos que a China.

A solidez financeira chinesa fica ainda mais evidente na capacidade de cobrir sua dívida externa com reservas internacionais: 65,5% na China, contra míseros 1,6% nos Estados Unidos.

Diante da prepotência imperial dos Estados Unidos, a China interpôs sua vontade de viver e fazer comércio. Como escreveu o poeta Li Bai (701-762): “Não pretendo honras nem riquezas / só que não me abandone a primavera”.

Outros números impressionantes são os de comércio exterior, pois são transparentes e certificáveis – os números de exportação de um país precisam bater com os de importação do outro.

E aqui o contraste é gritante: a China atingiu um superávit comercial recorde de US$ 1,17 trilhão no acumulado de 12 meses até outubro de 2025.

Enquanto isso, os Estados Unidos amargam um déficit que já somava US$ 713,6 bilhões apenas nos primeiros oito meses do ano.

A ironia é que, enquanto a China divulga seus dados de outubro, os EUA ainda estão em agosto, um reflexo do atraso e da perda de transparência de um país que já foi padrão mundial em transparência estatística.

Os ataques infames de Donald Trump ao comércio internacional, que começaram com o chamado “Dia da Liberação” em 2 de abril de 2025, quando anunciou um tarifaço para o mundo inteiro, colocaram o comércio de bens em evidência.

A reação desastrosa dos mercados financeiros dos próprios Estados Unidos o forçou a recuar e tentar direcionar a medida como uma jogada geopolítica focada apenas na China, o que também não deu certo.

A China foi muito atacada, mas o que aconteceu foi o oposto do esperado: o país aumentou sua corrente de comércio mesmo reduzindo o intercâmbio com os Estados Unidos.

É uma vitória de todo o Sul Global, que esmaga o tarifaço e representa uma grande derrota geopolítica dos EUA e da extrema-direita internacional que se pendurou na reputação de Trump, em particular a da América Latina, como a de Milei e Bolsonaro.

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A perda de relevância dos Estados Unidos para a balança comercial chinesa é notável. Em 2022, o comércio com os EUA representava quase metade do superávit total da China; hoje, essa participação despencou para apenas 26%.

Em termos de volume, a corrente de comércio entre China e EUA despencou 24,5% em apenas um ano: de US$ 59,7 bilhões em outubro de 2024 para US$ 45,1 bilhões em outubro de 2025.

O paradoxo é evidente: as tarifas de Trump conseguiram reduzir o comércio bilateral, mas fracassaram em afetar o saldo total chinês, que simplesmente encontrou novos e mais importantes parceiros comerciais. 

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O principal deles foi o BRICS. Em uma inversão histórica, o comércio da China com os membros plenos do bloco (Brasil, Rússia, Índia, África do Sul, Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Indonésia) ultrapassou o comércio com os EUA em meados de 2022.

A média móvel mensal da corrente de comércio entre a China e os membros plenos do BRICS saltou de US$ 60 bilhões em dezembro de 2021 para US$ 76,4 bilhões em outubro de 2025, um crescimento de 27%.

O fortalecimento das relações Sul-Sul se mostrou uma estratégia de diversificação geográfica bem-sucedida. 

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Outro parceiro estratégico foi a ASEAN, que se aproxima dos níveis de comércio com os EUA. A média móvel mensal com o bloco do Sudeste Asiático atingiu US$ 86,5 bilhões em outubro de 2025, contra US$ 79,7 bilhões no mesmo mês do ano anterior, um crescimento de 8,5%.

A integração regional asiática se aprofundou, consolidando a liderança chinesa no comércio do continente.

Dois modelos de desenvolvimento estão em confronto. De um lado, a China avança sem alarde, com um grande esforço nacional para produzir, melhorar a qualidade de vida de seu povo e oferecer produtos de qualidade ao mundo. Essa filosofia se estende para além de suas fronteiras, financiando infraestrutura em outros países através da Iniciativa Cinturão e Rota, conectando continentes e promovendo desenvolvimento mútuo.

Do outro lado, o modelo americano prioriza sanções, guerras e agressões diplomáticas, com um histórico de financiar golpes de Estado e gerar instabilidade no mundo inteiro.

É a construção contra a destruição. A China investe em construir, enquanto o império e seus vassalos permanecem focados em estratégias de destruição.

A China está vencendo a guerra comercial sem precisar de uma única batalha militar, usando apenas a diplomacia e o comércio.

Como ensina Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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