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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Do jaleco ao algoritmo: a nova face da eugenia

Mais de 80% das pessoas mortas por intervenções policiais são negras

Manifestação contra o racismo (Foto: Tomaz Silva/Ag.Brasil)

A eugenia não morreu em 1945. Apenas ajustou o vocabulário para os tempos atuais. Hoje ela fala em mérito, produtividade e custo social para justificar quem pode viver e quem pode ser descartado. O Brasil, com toda a sua dor e mistura, é a prova viva de que a cultura não nasce do gene, mas da história. A promessa de melhoramento humano continua ativa, agora vestida de inovação tecnológica e racionalidade de mercado. 

A historiadora inglesa, Nancy Leys Stepan, especializada em história da ciência na América Latina e no Brasil, já havia demonstrado em sua obra que a eugenia sempre foi mais que um erro científico no século XX. Tratou-se de um projeto social ancorado em interesses políticos, econômicos e morais. A ciência construiu para si uma imagem de neutralidade e, protegida por esse disfarce, legitimou controles sobre as classes subalternas, as famílias e as sexualidades, conforme bem descrito na obra de Michel Foucault. O que parecia técnica era escolha de poder. O que se apresentava como higiene era o modelo de gestão das desigualdades sociais. 

O pós-Segunda Guerra impôs uma catarse intelectual. Diante de tanto horror, a comunidade científica precisou encarar o monstro que ajudara a criar. A eugenia, tratada como saber respeitável, revelou-se projeto de morte. A UNESCO reuniu antropólogos e biólogos para desmontar a ideia de hierarquia natural entre povos. Em 1952, Claude Lévi-Strauss afirmou que nada autoriza explicar diferenças culturais por diferenças biológicas e que a diversidade nasce da história e das escolhas coletivas. Ali ruiu o sonho dos higienistas que pregavam a seleção da nação. O que se dizia ciência era racismo de jaleco.

Nancy Stepan lembra que mesmo as versões consideradas brandas da eugenia latino-americana estavam comprometidas com a normalização social. Políticas de proteção materno-infantil, exames pré-nupciais e campanhas sanitárias carregavam um ideal de família correta e de corpo produtivo. A fronteira entre cuidado e controle sempre foi móvel. A lição vale para o presente. O discurso contemporâneo sobre aprimoramento genético e gestão eficiente da vida repete a antiga ambição de governar a sociedade por meio da biologia.

Fantasmas mudam de roupa. A eugenia formal foi derrotada, mas seu espírito reapareceu em linguagem econômica e moral. Já não se fala em sangue impuro, e sim em desempenho, investimento e custo. A pobreza vira falha individual. A violência é descrita como traço quase natural de certos territórios. O envelhecimento e a deficiência transformam-se em problemas a administrar. A neoeugenia atua por políticas seletivas, algoritmos e discursos de ódio que distribuem oportunidades de viver e de morrer.

No Brasil, isso tem números, idade e cor. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80% das pessoas mortas por intervenções policiais são negras. O recorte etário é brutal. Os jovens, sobretudo negros de 15 a 29 anos, constituem o alvo preferencial das forças de segurança. A série histórica de 2015 a 2023 confirma a regularidade desse padrão, com letalidade em níveis extremos que colocam o país entre os mais mortíferos do mundo fora de cenários de guerra. Não são desvios ocasionais. É uma engrenagem que hierarquiza vidas e converte desigualdade social em sentença de morte. Trata-se da face contemporânea da lógica eugenista.

Florestan Fernandes desvendou esse mecanismo ao analisar a integração do negro na sociedade de classes. A abolição não produziu cidadania. Lançou a população negra à própria sorte dentro de uma ordem competitiva que a incorporou de forma residual e subalterna, convertendo-a em excedente humano permanente. A juventude negra que hoje tomba nas periferias é herdeira direta dessa fratura histórica. O gatilho que mata no presente é filho de uma estrutura social descrita há mais de meio século. 

Stepan ajuda a compreender como tais estruturas se naturalizam. A ciência moderna aprendeu a apresentar decisões políticas como verdades biológicas. No passado, a miscigenação foi tratada ora como degeneração, ora como embranquecimento redentor, mas sempre a partir de hierarquias raciais. No presente, a seleção de embriões, a edição gênica e os testes de risco prometem liberdade individual enquanto reproduzem preferências de classe e de cor. O mercado reprodutivo transforma desigualdade em destino molecular.

Samba, capoeira, bossa nova e religiosidades populares não vieram dos genes. Vieram de encontros marcados por violência e reinvenção. Darcy inverteu a equação. O que a eugenia chamava de problema tornou-se potência. A desigualdade brasileira não tem causa biológica, mas política. Concentração de terra, racismo estrutural e Estado capturado explicam o abismo social.

Toda promessa de regeneração baseada em purificações culturais ou econômicas é a velha eugenia maquiada. O caminho oposto está na radicalização democrática e na justiça social. Quando se culpa o pobre por ser pobre, quando se criminaliza as culturas periféricas, quando a chacina é tratada como política de segurança, o espectro higienista reaparece com novas palavras.

Stepan advertiu que a ciência é contingente e culturalmente específica. Se ontem o jaleco produziu teorias de eliminação, hoje o algoritmo organiza exclusões silenciosas. A técnica continua escolhendo vencedores e descartáveis. Reconhecer esse elo histórico é condição para romper o ciclo.

O Brasil tem um argumento irrefutável: existe, apesar de séculos de escravidão, do racismo científico e das profecias eugenistas que decretaram nossa inviabilidade. Mas essa existência não é um cartão-postal de “democracia racial”. É um país atravessado por desigualdades brutais, onde a cor ainda define salário, território, expectativa de vida e quem será alvo preferencial da violência do Estado. Nosso futuro não está em celebrar uma mestiçagem abstrata, e sim em enfrentar o racismo estrutural e reorganizar a economia para que a riqueza tenha função social. A lição de Lévi-Strauss, Florestan, Darcy e Stepan aponta outro caminho: direitos concretos, reparação histórica, políticas públicas robustas e poder popular. O Brasil que precisamos construir não é o da conciliação com o privilégio, mas o da igualdade racial como base da igualdade econômica. Democracia de verdade não combina com eugenia disfarçada, combina com justiça, distribuição e vida digna para o povo negro e trabalhador.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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