Dezembrada
Na última instância, no Supremo, evidenciou-se a parcialidade do juiz
A Polícia Federal bate às portas da antiga Vara de Moro. Toc, toc, toc. Busca e apreensão de uma caixa amarela. Conforme Tony Garcia, nessa caixa há inclusive a gravação da chamada “festa da cueca”, ocorrida em um hotel famoso de Curitiba.
Moro teria mandado buscar desembargadores do TRF-4 em jatinhos para assistirem ao jogo da seleção brasileira contra a do Uruguai. A festa, com oito ou nove desembargadores, teria sido regada a prostitutas, sustenta o delator.
Sem que os convidados soubessem, um advogado presente teria feito gravações com uma microcâmera escondida no prendedor de sua gravata. Ainda segundo o colaborador, o material teria sido usado como instrumento de chantagem. Os membros do tribunal concordariam com as sentenças proferidas pela Vara de Moro.
Lula foi condenado por Moro e pelo TRF-4 de Curitiba. Na última instância, no Supremo Tribunal Federal, evidenciou-se a parcialidade do juiz.
Moro deixou Lula no cárcere por um ano e sete meses, sem frigobar e sem ar-condicionado. Lula não se vitimiza, nem alega doenças ou soluços, mas lê muito nesse período. Sua alimentação é preparada e levada por uma admiradora chamada Janja.
Nesse intervalo, não lhe foi permitido velar o irmão Vavá. Apenas foi autorizado a comparecer ao velório do neto Arthur, onde pôde chorar diante do pequeno caixão.
Foi montada uma operação com 275 homens para escolta armada, para vigiar alguém que se entregara pacificamente. Talvez temessem o povo. Lula estava proibido de conceder entrevistas, e até o simples ato de acenar para pessoas no velório foi interpretado de forma negativa.
Indignado e vendo seus netos sofrerem bullying na escola, Lula não recuou. “Não sou pombo-correio”, reagiu quando lhe propuseram o uso de tornozeleira eletrônica. “Sou inocente!”
Curitiba é um reduto forte da ultradireita, mas havia também um expressivo número de apoiadores da esquerda. Cerca de duas mil pessoas mantinham vigília permanente em frente à Superintendência da Polícia Federal, no bairro Santa Cândida — a chamada Vigília Lula Livre.
Durante o cárcere, Lula recebeu visitas de lideranças da política internacional e de entidades de direitos humanos. O assessor do Papa Francisco, Juan Grabois, foi impedido de levar um terço abençoado ao ex-presidente.
De juiz de primeira instância, Moro, apelidado na Vara de “Russo”, chegou ao cargo de ministro da Justiça de um governo fraco, mas chegou. Na Vara de Curitiba, conforme relato da ex-juíza Bauer, ele pressionava até fisicamente.
A magistrada conta que, sozinha com Moro no elevador da Vara, ele a segurou com força pela jugular para que se calasse.
Em Brasília, “Russo” não conseguiu se eleger presidente, cargo do qual retirara, em 2018, o principal adversário e maior ícone da esquerda. Lula chegou a lhe dizer: “Esses mesmos que me atacam hoje, se tiverem sinais de que serei absolvido, prepare-se, porque os ataques ao senhor serão maiores”. Lula enfatizou a palavra “sinais” e fez uma pausa significativa.
Moro liberava escutas telefônicas de processos em andamento para a imprensa, amplamente repercutidas em jornais e bares. No entanto, hackers passaram a divulgar conversas e articulações entre membros da Lava Jato, revelando um projeto político contra a esquerda — o chamado lawfare.
Em 2024, o ministro Dias Toffoli acolheu pedido da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal para a abertura de um inquérito contra Moro no âmbito da Lava Jato. O procedimento, porém, tramita sob sigilo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
