Desistência de publicações academistas
A rejeição de uma teoria fora do mainstream expõe o elitismo acadêmico e o complexo de vira-lata que ainda sufocam o pensamento econômico no Brasil
Desisti de publicações academistas quando um “parecerista cego” da Revista Brasileira de Economia (RBE) rejeitou a publicação de um artigo-resumo de minha tese de livre-docência, defendida perante uma banca julgadora composta por professores eméritos de universidades notáveis e aprovada com nota máxima. Sua alegação simplória foi: “não existe tal Teoria Alternativa da Moeda crítica à Teoria Quantitativa da Moeda”!
Muito antes da Teoria Moderna da Moeda, finalmente escrita em inglês, eu tinha organizado seus postulados a partir da leitura de todos os debates intelectuais a respeito desde o início do século XIX. Eu a elaborei em 1994, de maneira simples, e inclusive a publiquei em um manual denominado Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista, publicado em 1999 e finalista do Prêmio Jabuti.
A Teoria Monetária Moderna (TMM ou MMT, do inglês Modern Monetary Theory) é uma abordagem macroeconômica heterodoxa, divulgada na segunda década do século XXI. Argumenta que os governos soberanos, emissores de sua própria moeda, não enfrentam restrições orçamentárias tradicionais como famílias ou empresas. Eles podem emitir dinheiro para financiar gastos públicos, sendo a inflação de demanda — e não a falta de dinheiro — o limite real para os gastos.
Fui levado a desistir de publicar em revistas academistas do teor da RBE e optar por publicar em portais digitais, sites e blogs com muito maior audiência no debate público semanal. Na época, em 22/01/2010, eu tinha criado o meu blog e, na década passada, ele obtinha cerca de cinco mil visualizações diárias.
A situação descrita é menos rara do que parece à primeira vista — e revela uma tensão estrutural entre validação institucional e circulação pública do conhecimento. Há três planos distintos a analisar, nesse caso concreto: um artigo “heterodoxo”, submetido à RBE, ter sido rejeitado liminarmente sob a alegação de “não existir” a Teoria Alternativa da Moeda apresentada, embora tenha sido sistematizada a partir de uma tese aprovada com distinção por banca composta por professores seniores de universidades de alta reputação, inclusive ex-ministro.
Primeiro plano: a validação acadêmica não é homogênea. A aprovação de uma tese de livre-docência por banca qualificada é uma forma reconhecida de legitimação institucional. Mas ela ocorre em um espaço delimitado: o da universidade específica, no caso, a Unicamp, embora simbolicamente relevante.
Já o periódico científico opera em outro circuito de legitimação. Pertence a uma tradição metodológica específica, no caso, a EPGE-RJ de um dos membros da banca. Infelizmente, constatei que ela só dialoga com determinada comunidade epistêmica. Possui critérios implícitos de aceitabilidade teórica.
Se a revista tem tradição fortemente ancorada na corrente dominante, uma teoria capaz de desafiar o núcleo central da Teoria Quantitativa da Moeda pode ser percebida como conceitualmente inadequada ao seu escopo. Está metodologicamente desalinhada ou simplesmente “não é reconhecível” dentro daquele paradigma.
Não se trata necessariamente de censura deliberada, mas de incompatibilidade paradigmática. É uma forma velada de censura à ousadia de re-evolução científica diante de uma Teoria Quantitativa da Moeda dominante há séculos...
Quando um parecer argumenta “essa teoria não existe”, há duas possibilidades. A primeira é que a teoria não está reconhecida na literatura internacional dominante, ou seja, não foi escrita e publicada em inglês, como se os americanos detivessem o monopólio da inteligência humana. A segunda é que o parecerista não a reconhece como válida dentro do arcabouço conceitual adotado por ele próprio.
Em ambos os casos, o que está em jogo não é ontologia, mas reconhecimento institucional. Uma teoria passaria a “existir”, no campo científico, apenas quando circulasse em língua inglesa, fosse debatida por estrangeiros e sua audiência fosse medida por quantas vezes fosse citada por intelectuais não tupiniquins. A Teoria Alternativa da Moeda geraria controvérsia frutífera caso houvesse um debate plural no Brasil.
Se não entra no circuito editorial dominante, sua existência fica confinada a nichos. Portanto, a negativa funciona como barreira de entrada ao campo reconhecido.
Daí a dúvida existencial do intelectual brasileiro: publicar em periódicos estrangeiros ou migrar para o debate público na rede digital de portais com grande audiência em nichos ideológicos?
A decisão estratégica depende da função-objetivo do autor. Se o objetivo é progressão institucional, reconhecimento formal e inserção em redes internacionais, então o circuito de periódicos academistas continua relevante.
Além disso, é claro, facilita muito tecer uma rede de relacionamentos com doutoramento no exterior, simplesmente porque aqui não haveria “a inteligência dominante mundialmente”. Ser inteligente e pensar por conta própria seria só reconhecido se atendesse ao complexo de vira-lata, típico de brasileiro, como dizia Nelson Rodrigues.
Mas se o objetivo é intervir no debate público, disputar narrativa, influenciar a formação de opinião pública (e não a de “anônimos especialistas”) e dialogar com um público mais amplo, portais digitais e plataformas com maior audiência são muito mais eficazes. Hoje, artigos em veículos digitais alcançam milhares de leitores em poucos dias — algo raro para periódicos especializados, sem medição digital da parca audiência.
Essa medição digital de audiência é o processo de coletar, analisar e interpretar dados sobre como o público interage com conteúdos em plataformas online, como sites, portais e redes sociais. Rastreia comportamentos reais dos usuários, por meio do levantamento do número de leituras ou visualizações, para medir o engajamento e a audiência em dispositivos conectados.
O dilema estrutural é estarmos diante de uma bifurcação entre: 1) o sistema acadêmico tradicional, com baixa audiência, alto capital simbólico institucional e forte controle paradigmático; e 2) a esfera pública digital, com alta audiência, menor capital simbólico formal e maior liberdade discursiva.
Optar por um não significa necessariamente abandonar o outro. Muitos autores utilizam uma estratégia dual: uma versão técnica para periódico — eu junto meus artigos como tópicos de capítulos de livros digitais e os coloco à disposição de quem quiser lê-los em meu blog pessoal — e uma versão ensaística para o público amplo.
Mas a questão mais profunda é: quem define o que é teoria? Na história do pensamento econômico, várias teorias inicialmente marginalizadas tornaram-se centrais apenas após circularem fora do mainstream.
O reconhecimento não precede a disputa. Ele é produto dela. Se a Teoria Alternativa da Moeda foi sistematizada, possui postulados claros, coerência interna e capacidade explicativa, ela “existe” como construção teórica — embora não tenha sido reconhecida por determinado periódico de outra corrente.
A pergunta estratégica para mim, na ocasião, foi: desejo convencer o establishment ou desejo deslocar o debate público para fora dele? Optei pela marginalização.
A recusa produziria três respostas possíveis. A primeira seria ajustar o artigo para dialogar mais explicitamente com a literatura dominante, baseada na Teoria Quantitativa da Moeda. A segunda seria buscar periódicos com escopo mais plural. A terceira seria migrar para plataformas públicas e construir reconhecimento por circulação entre um público mais amplo e aberto às novidades.
Não há resposta única. Há estratégia individual de acordo com o andamento da carreira acadêmica. No meu caso, eu estava na véspera de uma possível aposentadoria. Mas havia um ponto decisivo: o espaço digital permitiria formar audiência própria, sem depender da validação inicial do gatekeeper, isto é, o “guarda de portão” do conservadorismo teórico.
Se a exposição de teoria pura, teoria aplicada e debate de decisões práticas mobiliza leitores, provoca debate público plural e gera interlocução crítica, ela adquire existência social. Eu poderia, como fiz posteriormente, reentrar no circuito acadêmico sob outras condições, ou seja, como Professor Titular, autor de diversos livros. Fiz isso, mas essa triste experiência narrada aqui não foi esquecida...
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
