Desigualdade: a bomba-relógio brasileira
O Brasil não está diante de um simples “desafio”. Está sentado sobre uma bomba-relógio social
O Brasil não está diante de um simples “desafio”. Está sentado sobre uma bomba-relógio social. E o nome dela é desigualdade. Não é um problema lateral. Não é um tema acadêmico. Não é um dado estatístico para relatórios internacionais. É a engrenagem que move - no mais das vezes trava - tudo o que somos, ou poderíamos ser.
A violência que explode nas periferias não nasce do nada. Nem os feminicídios, o sadismo praticado contra animais indefesos, a corrupção institucional. A polarização política que nos corrói não surge do acaso. A desinformação que se espalha como praga digital no bojo das fake-news não floresce em terreno fértil por coincidência. Tudo isso é sintoma de um país construído sobre um abismo social.
O Brasil é uma das sociedades mais desiguais do planeta. E essa desigualdade não é só renda: é acesso. É oportunidade. É dignidade. É tempo de vida. É futuro.
Há dois países convivendo no mesmo território. De um lado, o Brasil dos condomínios fechados, dos carros blindados, da escola bilíngue, do plano de saúde premium. Do outro, o Brasil da fila do SUS, da escola precária, do transporte humilhante, do salário que evapora bem antes do fim do mês.
Não se trata de inveja social. Trata-se de pacto civilizatório. Quando metade da população vive à margem da prosperidade, não há estabilidade duradoura. O país vira terreno fértil para aventuras autoritárias, messianismos políticos e discursos de ódio. A desigualdade corrói a democracia por dentro.
Foi assim na crise que levou à queda de Dilma Rousseff.Foi assim na ascensão de Jair Bolsonaro.E continua sendo o pano de fundo das tensões no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Não são fenômenos isolados. São ondas geradas por um mar revolto de frustração social.
O país até ensaiou reduzir desigualdades nos anos 2000. Milhões saíram da pobreza. O consumo se expandiu. A universidade se abriu para novos rostos. Mas faltou consolidar a transformação estrutural: reforma tributária progressiva, revolução educacional profunda, reindustrialização sustentável.
Depois vieram as crises, o austericídio - neologismo político que combina austeridade + homicídio, a corrosão institucional. E a desigualdade voltou a crescer com voracidade.
Hoje, o Brasil se encontra em pleno ponto de mutação e enfrenta uma escolha histórica: Ou enfrenta sua herança colonial, escravocrata e concentradora - ou continuará administrando explosões periódicas.
Não existe democracia sólida com miséria estrutural.Não existe paz social com humilhação permanente.Não existe desenvolvimento real com concentração obscena de renda.
A pergunta central não é econômica. É moral. Queremos ser um país moderno apenas nas vitrines? Ou civilizado nas bases?
Enquanto a desigualdade for tratada como paisagem inevitável - e não como escândalo nacional - o Brasil continuará patinando entre surtos de esperança e recaídas brutais.
Não é exagero dizer: a desigualdade é a questão mais urgente do Brasil. Sem enfrentá-la, todo o resto será paliativo. Com enfrentamento sério, quase tudo o mais se torna possível.
O tempo da neutralidade acabou.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
