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Chico Vigilante

Deputado distrital e líder do PT na CLDF

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Delação premiada: o prêmio da impunidade aos predadores do BRB

Mecanismo virou o bilhete de loteria para o bandido de colarinho branco

Paulo Henrique Costa (Foto: Felipe Gonçalves / Lide)

A história se repete como farsa e tragédia no Distrito Federal. O que as recentes revelações sobre a gestão de Paulo Henrique Costa à frente do BRB demonstram não é apenas uma falha administrativa, mas um projeto deliberado de entrega do patrimônio público à sanha do capital privado mais obscuro. Vejo com profunda indignação os diálogos que expõem a submissão de um banco estatal aos interesses de figuras como o banqueiro Daniel Vorcaro. É a materialização do "Estado a serviço do privilégio", onde o público é fatiado para alimentar a ganância de poucos.

Os diálogos interceptados são estarrecedores e revelam uma intimidade criminosa. Ver um presidente de banco público trocar mensagens de "alinhamento pessoal" e "visão de mundo" com um ente privado, enquanto articulava cláusulas que entregariam o comando da instituição, é um tapa na cara do cidadão brasiliense. O BRB pertence ao povo; não é balcão de negócios para o Banco Master. O que chamam de "sinergia" e "holding financeira" nada mais é do que o tecnocrês utilizado para mascarar o assalto institucionalizado aos cofres públicos do Distrito Federal.

Minha posição sempre foi clara e não recuo um milímetro: sou radicalmente contra esse instituto da delação premiada da forma como é aplicado no Brasil. Esse mecanismo virou o bilhete de loteria para o bandido de colarinho branco. O sujeito rouba milhões, destrói o patrimônio coletivo e, quando é pego, entrega um ou dois comparsas para sair rico e livre. É um sistema que beneficia o criminoso em detrimento da justiça. O que estamos vendo agora é a tentativa de replicar esse modelo espúrio para salvar a pele de quem saqueou o nosso banco.

O que o senhor Vorcaro propõe agora — utilizar a delação premiada para pagar o que deve em dez anos enquanto mantém seu império — é uma afronta. Esse prazo é o tempo exato que esses criminosos precisam para corromper mais gente, derrubar ações nos tribunais e garantir que o dinheiro roubado nunca volte, de fato, para o povo. A justiça brasileira não pode aceitar esse tipo de barganha. O crime contra o sistema financeiro exige punição exemplar, confisco imediato de bens e cadeia, não um parcelamento suave para quem vive no luxo às custas do suor alheio.

Precisamos fortalecer as instituições de investigação técnica. A Polícia Federal e os órgãos de controle não podem depender da "bondade" de bandidos arrependidos para desvendar esquemas. É necessário investimento em tecnologia e inteligência para que a prova seja irrefutável. A polícia tem que ter altivez para investigar e colocar os crápulas na cadeia. Quando o Estado se ajoelha para negociar acordos de delação premiada com quem o saqueou, ele admite a própria incompetência e assina um atestado de impunidade que incentiva o próximo escândalo.

O envolvimento da cúpula do governo local na defesa desses atos também precisa ser passado a limpo. Quando o ex-presidente do banco afirma que o governador pediu material para "argumentação" ante as críticas, fica claro que havia consciência do erro ético cometido. Tentaram vender a entrega do BRB como modernização, mas o povo não é bobo. O que houve foi uma tentativa de privatização branca, feita na calada da noite, entre mensagens de empolgação financeira e projetos de poder que desprezam o interesse público.

Como deputado de esquerda e defensor do papel social do Estado, reitero: banco público é instrumento de desenvolvimento, não apêndice de bancos privados. A luta por transparência total nessas investigações será minha prioridade. Não basta descobrir o que foi feito; é preciso garantir que cada centavo desviado retorne ao Tesouro e que os responsáveis paguem com o rigor da lei, sem as benesses de acordos vergonhosos que só servem para oficializar o roubo.

O Brasil precisa recuperar sua dignidade ética e acabar com essa história de delação premiada para corruptores. Não avançaremos enquanto a corrupção for tratada como um erro passível de desconto. O caso do BRB é emblemático e exige uma resposta dura. O lugar de quem rouba o erário é na cadeia, com os bens confiscados e sem direito a sorrisos em colunas sociais. A vigilância continua, e eu não darei trégua a esses predadores que tentam comprar sua liberdade com o dinheiro que tiraram do povo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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