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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Cuba no escuro: o fim de um ciclo histórico?

Quando a crise deixa de ser conjuntural

Homem usa uma lanterna durante um apagão causado pelo colapso da rede elétrica nacional de Cuba, em Havana REUTERS/Norlys Perez (Foto: REUTERS/Norlys Perez)

Há momentos em que a história deixa de se mover lentamente e passa a se deslocar em blocos, como placas tectônicas em choque. Cuba vive um desses momentos.

A imagem é brutal em sua simplicidade: apagões prolongados, falta de água, alimentos escassos e uma população exausta. Não se trata apenas de dificuldades econômicas. Trata-se de algo mais profundo — quando um sistema começa a falhar naquilo que sustenta a vida cotidiana.

Quando falta luz, falta tudo. A energia elétrica não é apenas um insumo. É o eixo invisível que mantém a sociedade funcionando. Sem ela, a água não chega, os alimentos se perdem, os hospitais operam sob pressão extrema e o cotidiano se desorganiza. A crise energética, portanto, não é mais um problema entre outros. É o epicentro de uma crise sistêmica.

O esgotamento da narrativa

E, ao contrário do que ocorreu nos anos 1990, durante o chamado Período Especial, há hoje um elemento novo: a erosão da narrativa.

Naquele momento, sob a liderança de Fidel Castro, a escassez foi convertida em resistência política. O sacrifício tinha sentido histórico. Havia um horizonte — ainda que duro — de soberania e dignidade frente ao cerco externo.

Hoje, esse elemento simbólico não existe com a mesma força.

A geração atual vive a crise sem o mesmo referencial mobilizador. O Estado continua presente, mas já não consegue oferecer a mesma contrapartida material nem sustentar a mesma narrativa de coesão. E isso altera profundamente o equilíbrio interno.

O bloqueio como estrutura permanente

Mas há um elemento externo que precisa ser compreendido em toda a sua dimensão — e que frequentemente aparece de forma simplificada no debate público.

O embargo dos Estados Unidos não é apenas uma política de restrição comercial. Ele foi institucionalizado e rigidamente estruturado a partir da Lei Helms-Burton, aprovada em 1996, em um momento em que Cuba já se encontrava fragilizada após o colapso soviético.

Essa lei alterou qualitativamente o cenário. Ao transformar o embargo em legislação, retirou do Executivo americano a capacidade de flexibilizá-lo de forma ampla e transferiu ao Congresso o poder de sua revogação. Mais do que isso, introduziu um elemento particularmente controverso: seu caráter extraterritorial.

Empresas de outros países passaram a ser passíveis de sanções caso realizem investimentos em Cuba que envolvam propriedades nacionalizadas após a Revolução. Na prática, isso criou um efeito de dissuasão global. Não se trata apenas de impedir relações entre Estados Unidos e Cuba, mas de dificultar a inserção da ilha na economia internacional como um todo.

O impacto é profundo. O acesso a crédito se torna limitado, o investimento estrangeiro é desencorajado, e as transações financeiras se tornam mais custosas e incertas. Em um país que já enfrenta restrições estruturais internas, esse bloqueio ampliado contribui decisivamente para a recorrência de crises como a atual.

A política do endurecimento

Esse quadro não é apenas produto de inércia institucional. Ele é ativamente sustentado por forças políticas dentro dos Estados Unidos. Entre elas, destaca-se a atuação de Marco Rubio, figura central na defesa de uma linha dura em relação a Cuba.

Representando setores do exílio cubano na Flórida, Rubio tem sido um dos principais defensores da manutenção — e, em certos momentos, do endurecimento — das sanções. Sua influência foi particularmente visível durante o governo de Donald Trump, quando dispositivos mais severos da Helms-Burton foram efetivamente ativados, e a breve tentativa de reaproximação iniciada anos antes foi revertida.

A lógica subjacente a essa estratégia é clara: a intensificação da pressão econômica como instrumento para forçar mudanças políticas internas em Cuba.
Mas essa lógica carrega um paradoxo difícil de ignorar.

Se o objetivo declarado é pressionar o Estado, os efeitos concretos recaem, de forma imediata e cotidiana, sobre a população. São os cidadãos que enfrentam a escassez de energia, a falta de água, a deterioração dos serviços e o encarecimento dos bens básicos.

Entre limites internos e cerco externo

É nesse ponto que a análise precisa ir além das narrativas simplificadoras. A crise cubana contemporânea é, ao mesmo tempo, resultado de limitações internas e de um cerco externo que restringe drasticamente suas possibilidades de adaptação.

E, ainda assim, o mundo mudou — e Cuba mudou menos do que o mundo.

O modelo altamente centralizado, que em determinado momento garantiu coesão social e avanços notáveis em saúde e educação, hoje encontra limites claros diante de uma economia global complexa, financeirizada e tecnologicamente dinâmica. A ilha perdeu o suporte da União Soviética, viu reduzir-se o apoio da Venezuela e precisa agora se reposicionar em um ambiente internacional mais competitivo e menos tolerante a rigidezes estruturais.

A abertura pela sobrevivência

É nesse contexto que surge um movimento silencioso, mas profundamente revelador: a tentativa de atrair investimentos de cubanos no exterior.

Trata-se de uma inflexão histórica.

Ao abrir espaço — ainda que de forma controlada — para o capital da diáspora, o Estado cubano reconhece implicitamente que já não consegue sustentar sozinho a economia. Busca divisas, dinamismo e sobrevivência.

Mas esse caminho não é neutro.

Ele introduz, inevitavelmente, uma nova lógica social. A entrada de dólares, a formação de pequenos negócios privados e a conexão com redes externas tendem a gerar diferenciações internas. Surge, pouco a pouco, uma economia dual: de um lado, setores vinculados ao mercado e às remessas; de outro, um setor estatal cada vez mais pressionado.

A igualdade — um dos pilares simbólicos da Revolução — começa a se fragmentar.

Uma transição sob pressão

O que está em jogo, portanto, não é apenas uma crise econômica, mas uma transição histórica.

Cuba parece caminhar para um modelo híbrido, no qual o Estado buscará preservar o controle político enquanto amplia, de forma gradual e seletiva, os espaços de mercado e investimento. Algo que remete, com todas as diferenças, às experiências da China e do Vietnã.

Mas há um problema central: tempo.

Esses países realizaram suas transições em contextos de crescimento e relativa estabilidade. Cuba tenta fazê-lo sob pressão extrema — com escassez energética, crise fiscal e deterioração social.

O limite da vida cotidiana

A grande incógnita é até que ponto essa transição será conduzida — ou imposta pela própria realidade.

Porque há um limite que nenhum sistema consegue contornar indefinidamente: o da vida cotidiana.

Quando falta água, quando falta luz, quando falta comida, a política deixa de ser abstração e se torna experiência concreta. É nesse ponto que os regimes são testados de forma mais dura.

Sem o carisma de Fidel Castro, sem o amparo externo de outras épocas e diante de uma sociedade mais exposta ao mundo, Cuba enfrenta o desafio de construir uma nova forma de legitimidade — menos baseada na história e mais nos resultados.

Fim de ciclo, início incerto

Não é um desafio pequeno.

O que se desenha no horizonte não é necessariamente o colapso, mas algo talvez mais complexo: o fim de um ciclo.

E o início, ainda incerto, de outro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.