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César Fonseca

Repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

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Controvérsia histórica entre varguismo e lulismo

Pochmann e Fernando Morais traçam paralelos entre Vargas e Lula, mas análise revela diferenças profundas entre os dois líderes na relação com o imperialismo

Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Muito instrutivas as entrevistas de Fernando Morais, jornalista e escritor, biógrafo de Lula, à Carta Capital e de Márcio Pochmann, economista, presidente do IBGE, no governo lulista, à TV 247, na apreciação do Varguismo e do Lulismo em seus respectivos desenvolvimentos históricos.

Elas se cruzam em apreciações interpretativas, especialmente, quando ambos comparam Getúlio e Lula, em seus papeis na construção do Estado nacional, do ponto de vista dos trabalhadores na sua relação com os capitalistas.

Pochmann, amante da história, diz que, depois da dominação colonial portuguesa, de 1500 a 1808, a base da dependência externa brasileira ao capital externo se divide em três períodos: de 1809 a 1919, dominação inglesa sob a libra esterlina; de 1920 a 2008, dominação americana sob comando do dólar, e de 2009 em diante, domínio chinês em ascensão.

Atualmente, 60% do comércio de bens primários, conforme Pochmann, são realizados com os chineses, o que mostra a supremacia da relação comercial Brasil-China, relativamente, à relação Brasil-EUA, durante o século 21, até agora.

DEPENDÊNCIA COLONIAL EXTERNA

Nessas três etapas, o poder externo – Inglaterra, Estados Unidos e China – sobre o Brasil se realiza, destacadamente, no plano das relações de trocas comerciais.

As relações de trocas se pautaram pelas exportações de bens primários e semielaborados, por parte do Brasil, que importa bens terciários, manufaturados, sofrendo, permanentemente, deterioração nos termos de intercâmbio, acumulando prejuízos cambiais continuados, que inviabilizaram a plena industrialização brasileira.

Pochmann destaca que o movimento tenentista de 1930, liderado por Getúlio, inaugura construção do Estado Nacional, de forma orgânica, promovendo, de um lado, autonomia dos trabalhadores, com políticas sociais, fixando garantias de direitos trabalhistas, e, de outro, paripassu, a maioridade industrial, com criação das empresas estatais getulistas.

As estatais, como dizia Getúlio, principalmente, em relação ao petróleo, siderurgia e eletricidade, exerceriam o papel de metralhadoras desenvolvimentistas, para reverter, historicamente, a dependência externa nas relações de troca.

É Getúlio que rompe os laços com o colonialismo inglês, para inaugurar nova etapa histórica brasileira.

GETÚLIO E A ASCENSÃO DE HITLER

Portanto, no primeiro período getulista (1930-1945), a luta se deu contra o imperialismo inglês.

No segundo período(1950-1954), a batalha seria travada contra o imperialismo americano, quando Getúlio se suicida para salvar a Petrobrás.

Vargas, no primeiro período, ataca, logo de saída, em 1933, a dependência financeira brasileira em relação aos bancos ingleses, realizando auditoria da dívida externa.

A auditoria cancela mais de 65% dos débitos, considerados pelo getulismo como puro assalto financeiro especulativo, patrocinado pela banca inglesa.

A espoliação financeira britânica sobre o Brasil se manteve ao longo do século 19(primeiro e segundo reinado), e, depois, na República Velha(1889-1930), até que, com a revolução de 1930, liderada por Getúlio/Tenentistas, o Brasil teve, pós auditoria da dívida, condições de crescer, sustentavelmente, quase 8% ao ano.

Foi o que permitiu a industrialização nacional e a profissionalização trabalhista, como fatores orgânicos entre si, no processo de construção do Estado Nacional.

Nesse período, Vargas lutou, não, apenas, contra o imperialismo inglês, mas, também, contra o nazifascismo.

Roosevelt, presidente americano, aliado de Getúlio, foi quem defendeu o Estado Novo nacionalista, com a Constituição de 1934, como arma para combater o nazismo hitlerista.

O jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, autor da trilogia, A Era Vargas, destaca que a esquerda brasileira, especialmente, o Partido Comunista, considerava Vargas ditador por ter suspendido eleições em 1934.

Na verdade, tal suspensão representou resistência e combate a Hitler, como Roosevelt tinha sugerido ao presidente brasileiro.

Durante a guerra, não apenas Getúlio, mas, também, Churchill e governantes democratas europeus fizeram a mesma coisa, para enfrentar, emergencialmente, a ascensão do nazifascismo.

Roosevelt sugeriu a Vargas que agisse do mesmo modo, naquele momento histórico extraordinário, para enfrentar Hitler.

VISÃO TROTSKISTA SOBRE GETÚLIO

Leon Trótski, líder revolucionário ao lado de Lenin, na revolução bolchevique de 1917, criador do Exército Vermelho, disse, quando exilado no México, fugindo da perseguição de Stalin, que, se fosse brasileiro, por ocasião da Intentona comunista de 1935, apoiaria o populista Getúlio e seu Estado Novo, demonizado pela esquerda.

Afinal, ressaltou Trótski, o inimigo maior era o império colonialista inglês, algoz dos latino-americanos.

Os comunistas tupiniquins, então, equivocadamente, objetivaram a Intentona, orientada por Stalin, para derrubar Vargas, que enfrentava o imperialismo inglês, quando deviam estar ao lado dele na luta anticolonialista.

Ou seja, foi golpe equivocado dos comunistas stalinistas contra Getúlio que acelerou o fechamento do regime varguista, aliado a Roosevelt no combate a Hitler.

Grande desastre político da esquerda stalinista tupiniquim, segundo o historiador José Augusto Ribeiro!

A verdade, que o velho Partidão – do qual o biógrafo de Lula, Fernando Morais, era adepto – não pode contestar, é que, nesse período conturbado da história, com a ascensão de Hitler, Getúlio estava, depois da revolução de 1930, combatendo, preferencialmente, não os comunistas, mas o imperialismo inglês, como o grande inimigo do capitalismo periférico na América Latina.

Por essa razão, Trótski apoiou Getúlio contra os comunistas stalinistas tupiniquins, engajados numa luta política equivocada.

CONTROVÉRSIA SEM FIM: TRABALHISMO X PETISMO

Fernando Morais, em comparação ligeira entre Getúlio e Lula, destaca que, embora se considere getulista, as futuras gerações, em sua opinião, irão colocar Lula como superior a Getúlio.

Para fazer comparação entre os dois líderes, Morais, em sua entrevista à Carta Capital, não avança em considerações históricas substantivas, quanto aos eventos econômicos comandados Getúlio e Lula.

Ressalta que ambos são essencialmente conciliadores, mas que Lula, sempre que sob pressões históricas, escapa pela esquerda, enquanto Getúlio vai para a direita.

Será?

Comparação realmente confusa, porque Getúlio, diante do seu maior inimigo, o imperialismo inglês, foi radical: promoveu a auditoria da dívida pública para ajustar as contas governamentais.

Foi o que permitiu ao Brasil dar salto qualitativo quanto às conquistas trabalhistas como complemento da industrialização, para possibilitar formação de mercado interno consumidor.

Essa ação getulista, de viés progressistas, esquerdista, desmente Morais.

Já Lula sempre foi avesso à defesa da auditoria da dívida, bandeira de esquerda, socialista, prevista na Constituição de 1988.

Washington sempre se opôs à auditoria.

Lula, relativamente, ao imperialismo americano, objetivou o oposto: procurou adequar-se ao sindicalismo estadunidense, de viés capitalista, conforme visão do partido democrata burguês.

ANTIDIALÉTICA CONTRADITÓRIA DE MORAIS

Por isso, soa contraditória a acusação histórica, à qual Morais parece filiar-se, de que o sindicalismo, no tempo de Getúlio, destacou-se pela sua característica peleguista, aderente ao Estado, enquanto o sindicalismo petista, comandado por Lula, confrontava a ordem estatal burguesa, sob ditadura militar.

O diferencial quantitativo e qualitativo, dialético, aí, entre Getúlio e Lula, é que as conquistas trabalhistas – CLT, férias de 30 dias, aviso prévio, previdência social etc – já estavam dadas, quando o PT nasceu, em 1980.

Portanto, é de se questionar por que líderes sindicais getulistas, como o famoso Joaquinzão, da CGT, resistiam ao apelo petista às greves, se as conquistas essenciais dos trabalhadores já haviam sido alcançadas, depois da Revolução de 1930?

Nesse sentido, são mais razoáveis as ponderações de Marcio Pochmann de que a liderança sindical de Lula, no tempo da Constituinte, que levou à Constituição cidadã de 1988, é diversa da liderança trabalhista getulista.

Com a Constituição de 1988, na qual Lula, segundo Fernando Morais, teve papel destacado, o que ocorreu não foram conquistas trabalhistas, que já estavam em prática, vindas da Era Vargas, mas a consolidação de direitos de cidadania.

Conquistas trabalhistas, do ponto de vista do trabalhador, foram superiores aos direitos de cidadania, que perante aquelas são complementos abstratos.

DIFERENÇA QUALITATIVA

Por isso, Lula, em seu período de atuação política, indo da sua fase sindicalista à presidencialista, não produziu nenhum direito trabalhista efetivo, embora o PT, historicamente, condene a CLT como fruto do que considera peleguismo getulista.

Trata-se, na prática, de claro equívoco histórico dos petistas, que impede, até hoje, unidade de pontos de vista do lulismo com o getulismo.

Quem, nesse contexto histórico, escapa para a esquerda: Getúlio, que lutou contra o imperialismo inglês, ou Lula, que tem conciliado com o imperialismo americano, ao negar romper com o americanismo adotado desde a Era FHC, adepta do Consenso de Washington, em vigor até o momento, sob domínio do neoliberalismo washingtoniano?

Sabendo que a prioridade confessada de FHC (1994-2002) foi a de exterminar a Era Vargas(1930-1945/1950-1954), ao partir para a abertura econômica e privatizações, algo que continuou nos governos Temer e Bolsonaro, a partir do golpe neoliberal de 2016, a conclusão é de que Lula, em seu terceiro mandato, não escapou para a esquerda.

Não fez isso para remover as reformas neoliberais que prometeu em campanha eleitoral de 2022.

Morais, em sua premonição apressada, ao comparar os dois líderes históricos, joga com o provável vir a ser ainda não confirmado, qual seja o quarto mandato de Lula, se vencer a eleição neste ano.

Deixará, se chegar ao tetra, sua marca histórica, escapando à esquerda, algo ainda a se materializar?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.