Contas externas em janeiro: melhora conjuntural, fragilidade estrutural
Janeiro trouxe uma melhora conjuntural nas contas externas, com redução do déficit em conta corrente e forte ingresso de capitais
A conta de renda primária também permanece pesada. O pagamento de juros somou cerca de US$ 3,7 bilhões no mês, enquanto remessas de lucros e dividendos alcançaram aproximadamente US$ 4,7 bilhões. Isso significa que parte relevante do superávit comercial é neutralizada por despesas com serviços e rendas enviadas ao exterior.
Vale lembrar a identidade básica: transações correntes = balança comercial de bens + balança de serviços + renda primária + renda secundária. Mesmo com superávits robustos em bens, o Brasil frequentemente converte esse resultado positivo em déficit em conta corrente devido ao peso estrutural de serviços e rendas.
A boa notícia veio pelo lado do financiamento. O Investimento Direto no País (IDP) registrou ingresso de US$ 8,2 bilhões em janeiro, acima dos US$ 6,7 bilhões observados no mesmo mês de 2025. Aproximadamente metade corresponde a novos aportes de capital e metade à reinversão de lucros. Em 12 meses, o IDP soma cerca de US$ 79 bilhões (aproximadamente 3,4% do PIB), valor suficiente para financiar com folga o déficit em conta corrente.
No entanto, é importante distinguir natureza e prazo desses fluxos. O investimento direto é considerado “dívida” de longo prazo — capital produtivo, menos volátil. Já o investimento em carteira, que também apresentou forte ingresso líquido em janeiro (cerca de US$ 8,9 bilhões, o maior desde 2018), é capital de curto prazo, mais sensível a mudanças de percepção de risco e condições financeiras globais.
O forte fluxo de capitais ajuda a explicar a apreciação cambial recente, com o dólar recuando para a faixa de R$ 5,15. Em 12 meses, o ingresso acumulado de investimentos em carteira supera US$ 24 bilhões, contribuindo para o alívio no mercado de câmbio.
As reservas internacionais encerraram o período em aproximadamente US$ 364 bilhões, nível confortável e importante amortecedor contra choques externos. Ainda assim, o sinal de alerta permanece: déficits em conta corrente acima de 4%–4,5% do PIB historicamente estiveram associados a crises cambiais no Brasil. O patamar atual, próximo de 3%, é administrável, mas exige monitoramento.
O ponto estrutural é claro: o Brasil depende de poupança externa para fechar suas contas. Não se trata de rejeitar capital estrangeiro — ele é essencial —, mas de reconhecer que o equilíbrio sustentável exige fortalecimento da base produtiva doméstica, geração de tecnologia própria e maior densidade de conteúdo nacional nas cadeias produtivas.
Economias como Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e vários países do Leste Asiático combinam abertura externa com forte capacidade interna de inovação e geração de propriedade intelectual. Isso reduz a necessidade de pagamentos sistemáticos ao exterior por tecnologia e conhecimento.
O ideal, do ponto de vista estratégico, seria caminhar para um superávit estrutural em transações correntes — como ocorre em diversas economias asiáticas — o que significa geração genuína de poupança externa. Enquanto isso não ocorre, a qualidade do financiamento importa: melhor dívida longa (IDP) do que dívida curta (portfólio).
Em síntese, janeiro trouxe uma melhora conjuntural nas contas externas, com redução do déficit em conta corrente e forte ingresso de capitais. Contudo, a vulnerabilidade estrutural permanece: dependência tecnológica, déficits elevados em serviços e renda, e necessidade contínua de financiamento externo. A questão central segue sendo produtiva e tecnológica — não apenas financeira.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
