Com escândalos repetidos na produção de alimentos, a Nestlé está de volta aos holofotes
A Nestlé está novamente no centro de um escândalo pela venda de leite infantil contaminado, com sérias repercussões em mais de sessenta países
Por Sergio Ferrari - O caso da contaminação pela toxina cereulide gerou uma cascata de denúncias em nível internacional após a organização de proteção ao consumidor Foodwatch revelar, em meados de janeiro, que cerca de dez fábricas da multinacional Nestlé na Holanda, na França, na Espanha, na Suíça e na Alemanha haviam usado óleo de amendoim contaminado com a bactéria Bacillus cereus na fabricação de fórmulas lácteas para bebês. Esse bacilo, que causa diarreia, vômito e outros problemas graves em bebês, contaminou um óleo rico em ácido araquidônico (fonte de ômega-6) processado na China pela Cabio Biotech. Além dos produtos comercializados pela Nestlé (Guigoz, Nidal), também foram afetados os da Danone (Blédilait, Gallia), da Lactalis (Picot), da Vitagermine (Babybio) e da Popote, entre outros. No total, cerca de oitocentos produtos em mais de sessenta países, em sua maioria europeus, embora também estejam na lista sete países da América Latina (Argentina, Chile, Brasil, México, Peru, Paraguai e Uruguai).O impacto midiático dessa revelação foi sentido imediatamente. Na França, a própria Foodwatch está promovendo uma campanha para denunciar e exigir o rápido esclarecimento dos fatos. Mas, isso é só um lado da moeda. O outro, e certamente o que teve as maiores consequências, tem a ver com a lentidão com que a Nestlé, sediada em Vevey, Suíça, decidiu retirar sua fórmula do mercado. Segundo Foodwatch, "a Nestlé sabia da contaminação pelo menos desde o início de dezembro, inclusive, tendo informado as autoridades holandesas no dia 9 daquele mês". E na Áustria, por volta do Natal, produtos já haviam sido retirados “discretamente” das prateleiras, sem que os consumidores fosse informados. A retirada massiva da fórmula só começou em janeiro deste ano (https://www.nestle.com/ask-nestle/products-brands/answers/infant-formula-product-advisory)."Não repassar imediatamente para os consumidores informações sobre produtos sensíveis para bebês é inaceitável", argumentou criticamente Foodwatch. E explicou que esses são fatos "particularmente graves" porque essas fórmulas contaminadas por cereulide destinam-se, principalmente, a crianças com menos de seis meses de idade — em alguns casos, prematuras — e, portanto, particularmente vulneráveis. Foodwatch critica a Nestlé e outros fabricantes do setor por demorarem demais entre os primeiros alertas emitidos e a decisão de retirar seus produtos das prateleiras. (https://www.foodwatch.org/fr/accueil).
Processo em andamento
De acordo com um artigo recente no diário suíço Le Temps, Foodwatch acompanhou de perto a situação de nove bebês doentes em oito famílias em diferentes partes da França. Essas crianças apresentaram sintomas "alarmantes" que não desapareceram com um tratamento "simples" contra gastroenterite, como vômitos, diarreia persistente, febre e dor abdominal. No final de 2025, muito antes da retirada massiva da fórmula ainda à venda, algumas dessas crianças precisaram ser hospitalizadas. Casos semelhantes também ocorreram em vários países europeus, como Reino Unido, Espanha, Bélgica e Suíça.Também segundo o Le Temps, a denúncia de Foodwatch alega várias infrações, como colocar em risco e afetar a integridade de bebês, cometer fraude agravada, comercializar produtos perigosos, não cumprir requisitos de segurança, não notificar e exportar alimentos em condição de risco. E faz referência às declarações iniciais de François Laforgue, o advogado que representa a Foodwatch e as oito famílias envolvidas: "A responsabilidade das empresas indicadas na denúncia [dos meus clientes] parece-nos estar estabelecida, mas a investigação vai confirmá-la. Esses fabricantes não podiam ignorar suas obrigações de segurança sanitária. Exigimos a maior firmeza nessa questão que afeta a saúde dos bebês".Em um caso separado, a Promotoria da cidade de Bordeaux abriu uma investigação criminal sobre a fórmula da Nestlé no caso fatal de um bebê no início de janeiro. Segundo o jornal suíço AGEFI, "uma morte após o consumo de leite [da marca] Guigoz, retirada do mercado devido a possível contaminação com Bacillus cereus, embora, até o momento, nenhuma ligação tenha sido estabelecida". Ao mesmo tempo, a morte de um bebê em circunstâncias semelhantes está sendo investigada em Angers.
Para a Foodwatch, o escândalo da fórmula infantil levanta sérias questões sobre o quão cuidadosamente os fabricantes garantem a segurança sanitária das crianças, controlam seus fornecedores, inspecionam os ingredientes e, fundamentalmente, como respondem quando se torna imperativo recolher produtos contaminados do mercado. A rastreabilidade dos produtos contaminados deve ser instantânea, insiste Foodwatch. Em outras palavras, tolerância zero, já que é inadmissível deixar que os meses passem sem que as providências sejam tomadas, ou que somente sejam tomadas quando o dano já é irreparável.
Semanas perdidas
Uma linha do tempo detalhada dessa crise reforça a alegação de que os fabricantes da fórmula agiram de forma irresponsável em vários aspectos.
No final de novembro de 2025, segundo o jornal Le Monde, a Nestlé detectou a presença de cereulide em seus produtos. No entanto, esperou por uma análise de risco à saúde antes de notificar as autoridades semanas depois.
Na Itália, em 1º de janeiro de 2026, as autoridades sanitárias já tinham resultados laboratoriais confirmando a presença dessa bactéria em fórmulas infantis, e somente doze dias depois compartilharam essa informação com o restante da União Europeia.
Em 9 de dezembro, a Nestlé informou as autoridades holandesas sobre a contaminação após controles internos em sua fábrica de Nunspeet. No entanto, nem as autoridades nem a Nestlé decidiram por uma retirada pública dos produtos, nem alertaram os outros países da UE por meio da rede europeia de alerta. As razões permanecem totalmente desconhecidas.
Em 11 de dezembro, na França, apenas um lote de leite da marca Guigoz, à venda desde maio, foi retirado. No mesmo dia, Foodwatch alertou as autoridades europeias e iniciou uma investigação. Um novo escândalo já era evidente, e com sérias repercussões internacionais.
Na Bélgica, em 12 de janeiro, o jornal De Standaard informou que, segundo a Nestlé, foi em 23 de dezembro que essa corporação recebeu informações mais completas sobre a contaminação. "Foi a inspeção de alimentos austríaca", apontou o jornal belga, "que detectou a presença de cereulide no leite de outras fábricas".Em 24 de dezembro, as autoridades francesas responderam às perguntas de Foodwatch e confirmaram a presença de cereulide, especificando que a Nestlé "havia sido alertada por seu fornecedor e iniciado operações de retirada do produto do mercado e recuperação".
Finalmente, na primeira semana de janeiro, houve a descontinuação das fórmulas infantis da Nestlé, com repercussões em mais de sessenta países. Foi nesses mesmos dias que Foodwatch revelou a magnitude do problema: o ingrediente "culpado" — ácido araquidônico — estava sendo usado em cerca de dez fábricas da multinacional e os produtos contaminados estavam sendo distribuídos pelo mundo.
Problemas recorrentes
Em novembro de 2025, uma investigação da ONG suíça Public Eye (Olhar Cidadão) sobre a adição de açúcar aos alimentos infantis da Nestlé na África revelou um novo escândalo, praticamente simultâneo ao da fórmula infantil. Em uma carta aberta datada de 17 desse mês, cerca de vinte organizações da sociedade civil de treze países africanos pediram à Nestlé que pusesse fim ao duplo padrão denunciado pela ONG suíça. "Na África, os cereais para bebês vendidos pela Nestlé contêm altos níveis de açúcar adicionado, enquanto esses produtos não contêm açúcar na Suíça e no restante da Europa. Todos os bebês têm direito a alimentos saudáveis, independentemente de sua nacionalidade ou cor de pele. Todos os bebês são iguais. Façam a coisa certa. Não amanhã; não no ano que vem. Hoje. O mundo está observando" (https://www.publiceye.ch/fr/thematiques/consommation-critique/les-mensonges-pur-sucre-de-nestle).
Outro escândalo não menos importante havia sido denunciado um ano antes sobre o tratamento ilegal da água "natural" que a Nestlé vende na França, mas a multinacional argumentou que os tratamentos utilizados são necessários para garantir a segurança do produto. No entanto, segundo especialistas e a mídia independente, alguns desses tratamentos, alguns dos quais datam de 1993, "não atendem de forma alguma às 'necessidades' de segurança sanitária".
Também em 2024, várias organizações, incluindo a Public Eye, denunciaram a política abusiva da Nestlé em relação à aquisição de café produzido por produtores mexicanos. Segundo a Public Eye, embora a Nestlé tenha prometido que, a partir de 2025, também seria "uma líder ética no setor [já que] 100% de sua produção seria 'responsável'", ainda assim continuou aplicando um regime de compras implacável, especialmente de seu café solúvel, o famoso Nescafé. Mas, nada mudou para os agricultores locais, que precisam aceitar preços baixíssimos, disse o Public Eye após investigar o problema na região produtora de café de Soconusco, no sul do México, onde ocorreram protestos revoltosos contra a multinacional suíça. A ONG intitulou sua pesquisa "Esperança Pulverizada. Como a Nestlé está arruinando os produtores de café" (https://stories.publiceye.ch/nescafe-mexiko/).
Pouco antes, em 2021, a Nestlé foi denunciada pela contaminação de parte de suas Pizzas Buitoni, que causaram doenças graves.
E nos anos 1970, em um dos precedentes históricos do mau comportamento dessa mesma multinacional, não se pode esquecer sua campanha publicitária na África desencorajando a amamentação para impulsionar a venda de sua fórmula infantil. Na época, foi fortemente denunciada pela organização suíça Declaração de Berna, hoje denominada Public Eye.
Ao longo dessa extensa série de escândalos que marcam momentos críticos para uma das maiores empresas de alimentos do mundo, a Nestlé quase sempre tentou dar explicações. Às vezes, mostrando-se cooperativa e transparente; às vezes, até pedindo desculpas por "erros". Em alguns casos de acusações graves ou de processos judiciais, conseguiu que fossem arquivadas total ou parcialmente. No entanto, nenhum de seus reflexos históricos e argumentos de autojustificação conseguiu dissipar as enormes dúvidas que grandes setores da sociedade civil internacional ainda têm em relação à sua tão elogiada integridade e transparência. Como a grande maioria das multinacionais do setor, a fome ilimitada de lucros da Nestlé continua prevalecendo sobre sua "ética" de produção e comercialização.
Tradução: Rose Lima
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


