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Dafne Ashton

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Butantan, 125 anos a serviço da vida

Fundado em 23 de fevereiro de 1901, o instituto transformou ciência em política pública e consolidou o Brasil como referência em soros e vacinas

Vital Brazil na criação do Butantan (Foto: Autoria desconhecida/Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)

Neste 23 de fevereiro, o Brasil celebra a fundação de uma das mais importantes instituições científicas do país. Criado oficialmente em 1901, em São Paulo, o então Instituto Serumtherápico nasceu em meio a uma crise sanitária que ameaçava vidas e a própria economia nacional. Mais de um século depois, o Instituto Butantan tornou-se sinônimo de produção de soros e vacinas, de compromisso com a saúde pública e de inovação científica voltada ao interesse coletivo.

A origem do instituto está diretamente ligada à epidemia de peste bubônica que atingiu o porto de Santos no final do século XIX. A gravidade da situação mobilizou o serviço sanitário paulista, então liderado por Emílio Ribas. Coube a Adolfo Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico, investigar a doença. Foi nesse contexto que meu avô, Vital Brazil, enviado ao litoral, identificou a peste bubônica e esclareceu sua forma de transmissão. O diagnóstico foi posteriormente confirmado por Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, consolidando a necessidade de uma estrutura permanente para pesquisa e produção de imunobiológicos.

Antes mesmo da formalização do Instituto Butantan, já funcionava um laboratório vinculado ao Instituto Bacteriológico com a missão de estudar e produzir soros contra a peste. Vital Brazil assumiu a responsabilidade por essa iniciativa embrionária, que rapidamente se transformaria em uma instituição autônoma. Desde os primeiros anos, ficou evidente que ali nascia um projeto científico comprometido com as urgências concretas do país.

Uma das contribuições mais marcantes de Vital Brazil foi a demonstração de que os soros antiofídicos precisavam ser específicos para cada tipo de veneno. Até então, utilizavam-se formulações genéricas. A constatação de que cada serpente produzia toxinas distintas exigiu não apenas rigor científico, mas também a criação de uma estrutura organizada para coleta e identificação dos animais. Assim, o recebimento de serpentes vindas do interior passou a integrar a identidade do instituto.

Esse trabalho dialogava diretamente com o Brasil do início do século XX. A expansão da lavoura cafeeira e o intenso fluxo migratório ampliavam os casos de acidentes com animais peçonhentos. Vital Brazil compreendeu que a ciência não poderia permanecer distante da população. Ele reconheceu práticas tradicionais e buscou estabelecer uma relação de parceria com trabalhadores do campo, valorizando o diálogo como parte essencial do processo científico.

Havia também um claro compromisso pedagógico. Cartazes e folhetos orientavam a população sobre como agir em caso de picada e incentivavam o envio das serpentes ao instituto para identificação. A comunicação científica era entendida como ferramenta de proteção coletiva. Não bastava produzir o soro; era necessário garantir que ele chegasse a quem precisava e fosse corretamente utilizado.

A escolha do local para a instalação do instituto também foi estratégica. Situado em uma antiga fazenda, afastado do centro urbano, o espaço respondia aos receios da época sobre a produção de medicamentos em áreas densamente povoadas. O edifício principal, construído nos primeiros anos do século XX em estilo art nouveau, tornou-se um marco arquitetônico e um dos primeiros bens tombados em nível estadual, simbolizando a solidez da instituição nascente.

A partir das décadas de 1920 e 1930, o Butantan ampliou seu escopo. De centro voltado prioritariamente ao estudo de venenos e animais peçonhentos, passou a incorporar laboratórios dedicados à genética, fisiopatologia, endocrinologia e zoologia médica. Com a reorganização da saúde pública paulista, assumiu novas responsabilidades e consolidou-se como plataforma central para a produção de soros e vacinas.

Na primeira metade do século XX, destacou-se na fabricação de soros antiofídicos e antidiftéricos. Com o avanço tecnológico e a estruturação de políticas nacionais de imunização, tornou-se peça-chave na produção e distribuição de vacinas em larga escala. Influenza, difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e HPV estão entre os imunizantes que passaram a integrar seu portfólio, atendendo às demandas do sistema público de saúde.

A distinção entre vacinação e soroterapia evidencia a amplitude dessa atuação. A vacina promove imunização ativa, estimulando o organismo a produzir seus próprios anticorpos. O soro, por sua vez, oferece imunização passiva, fornecendo anticorpos já produzidos. Essa capacidade de responder tanto a emergências imediatas quanto a estratégias preventivas de longo prazo tornou o Butantan essencial para a saúde coletiva.

Ao longo do tempo, o instituto também abriu suas portas à sociedade. O serpentário, criado ainda nas primeiras décadas do século XX, tornou-se espaço de visitação pública. Museus, biblioteca e centro de memória consolidaram sua vocação para a difusão científica. O que nasceu como laboratório isolado transformou-se em território de convivência entre pesquisa e população.

Nas últimas décadas, processos de transferência de tecnologia fortaleceram sua capacidade produtiva e reafirmaram seu papel estratégico em momentos críticos da saúde pública. A instituição segue orientada pelo tripé que marcou sua trajetória: pesquisa, produção e divulgação.

Como neta de Vital Brazil, vejo nessa história não apenas a memória de um cientista, mas a construção de um projeto coletivo de país. O propósito de gerar condições mínimas para o maior número possível de pessoas permanece atual. O Instituto Butantan representa a convicção de que a ciência, quando guiada pelo interesse público, é instrumento de soberania, proteção social e compromisso com a vida.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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