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Roberto Moraes

Engenheiro e professor titular "sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ)

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Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados!

País enfrenta desafio de transformar dados em ativo estratégico diante do avanço das Big Techs, alerta o colunista Roberto Moraes

Usuário de tecnologia (Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil)

A economia digital deve ser sempre analisada na extensão de toda a sua cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais estratégicos críticos (MEC), a questão energética (incluindo a transição com os renováveis) ao e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo até os aplicativos de música, streaming para artes, cultura, etc.

A dataficação é o fenômeno que se situa num degrau acima da digitalização ou da chamada transformação digital que exige e deve nos despertar para uma política pública especial para os dados que vai muito para além da necessária privacidade. 

Ao contrário do que muitas vezes se diz os dados não existem puros na natureza ou nos sistemas. Os dados precisam ser correlacionados, organizados e estruturados para terem valor e, assim, se transformarem em mercadoria e em commodities para serem negociados, inclusive em bolsas de valores específicas de dados, como a criada em 2016 em Pequim e que começou a fazer negócios em 2021.

Dataficação como etapa contemporânea da reestruturação produtiva se desenvolve de maneira distinta nos EUA e na China

É preciso reconhecer que estamos lidando com um fenômeno que é parte de uma nova etapa da reestruturação produtiva (dataficação e plataformismo) que possui várias dimensões de análise (multidimensional) e com características transescalares e transnacionais e, portanto, que merece abordagens da geoeconomia e da geopolítica.

Observando nessa dimensão da geoeconomia e da geopolítica ficam claros dois movimentos bem distintos em termos de direção e planejamento. No Ocidente os grandes investimentos no desenvolvimento da tecnologia digital e dos dados têm como motor a direção e o controle do mercado de capitais (venture capital). Grosso modo, pode-se dizer que o Big Money dirige e controla as Big Techs. As gestoras dos grandes fundos financeiros americanos (BlackRock, Vanguard, Fidelity, JP Morgan etc.) têm entre 25% e 30% das ações das maiores Big Techs americanas, o que confirma o enorme imbricamento, desde o DNA, entre o Big Money e as Big Techs.

Já no Leste, no Oriente, na Ásia, em especial na China, o grande motor é o Estado, seu plano de longo prazo (2050) que se desdobra nos planos quinquenais que vão definindo as principais direções e as metas em prazos mais curtos. O Estado (nacional e provinciais) define as metas, financia boa parte dos projetos e ações, mas dá espaço e incentiva que os empreendimentos privados assumam setores e os negócios em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital, mas garantindo o norte dos grandes objetivos e metas da nação.

O gigantismo do monopólio das Big Techs

No Ocidente, as gigantes corporações de tecnologia, chamadas desde lá atrás de Big Techs, avançam em oligopólios cada vez maiores estruturados por setor e funções dentro da economia digital como um todo, mas têm como direção e objetivo maior, a rentabilidade das Big Techs e dos fundos, praticamente todas as líderes com sedes nos EUA, de onde controlam a extração de dados e a remessa de lucros de todo o mundo, repudiando e lutando com sua força e seu poder contra toda e qualquer regulação dos estados nacionais.

Essa aliança entre o Big Money e as Big Techs gerou um gigantismo que expressa e redunda no atual e maior monopólio de toda a história da humanidade, muito superior ao que foram as Big Oil (Petroleiras), Big Stell (siderúrgicas), Big Car (montadoras de automóveis) e Big Pharms (farmacêuticas).

O fato de ser um fenômeno (digitalização/dataficação) transversal (pervasivo, ou que se espalha) e que atua de forma contínua e cumulativa, contribui para que dataficação atue sobre todos os demais setores da economia (assim como as finanças e o crédito), com o qual nasceu e cresce de forma imbricada e direta, explicando esse monopólio gigante que hoje está - mais que nunca - abraçado e enlaçado com o Estado dos EUA, incluindo nos setores de defesa e da guerra.

Para se ter uma ideia do tamanho desse gigantismo é oportuno investigar os dados atuais das corporações de maior valor de mercado do mundo. Oito das dez maiores corporações do mundo que possuem capital aberto em bolsa são da área de tecnologia. Hoje, dia 13 abril de 2026, mesmo com a retração econômica mundial derivada das guerras (OTAN-EUA-Ucrânia x Rússia e EUA-Israel x Irã), as 10+ Big Techs somam US$ 25 trilhões (para ser exato US$ 24.982 bilhões), liderada pela NVidia que sozinha vale US$ 4,5 trilhões.

Enquanto isso, as 10+ petroleiras do mundo (com capital em bolsa) somam US$ 4,2 trilhões (para ser exato US$ 4.176 bilhões), liderada pela saudita Saudi Aramco que hoje está valendo US$ 1,7 trilhão. Ou seja, só a NVidia vale mais que a soma das dez maiores petroleiras somadas. As 10+ Big Techs valem 6 vezes mais que as 10+ Big Oil. Observem ainda que isso se dá no auge da valorização dessas companhias, considerando o atual aumento do valor do barril de petróleo acima de US$ 100.

As Big Techs pagam muito mais impostos nos EUA do que no resto do mundo, incluindo o Brasil. Ou seja, as Big Techs aceitam pagar maiores impostos nos EUA e negam qualquer coisa próxima a equivalência, em qualquer outra parte do mundo.  Hoje, as Big Techs têm no governo estadunidense uma espécie de barreira de proteção que pressiona com tarifaços e outros mecanismos, para que os países não façam regulações (alegam liberdade) e também atuam para limitar as cobranças de impostos nesses outros países onde prestam serviços e extraem “zilhões” (mais que trilhões) de dados de forma completamente gratuita e quase sem nenhum controle.

As receitas e a remessa de lucros que as Big Techs realizam no Brasil 

No Brasil as Big Techs tiveram R$ 144 bilhões em receitas no ano de 2024 e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros para as suas sedes nos EUA. Ou seja, um volume de remessa de lucros equivalentes a 55% do seu faturamento no país. Em 2014, o volume de remessa de lucros das Big Techs desde o Brasil tinha sido de apenas R$ 2,8 bilhões. Ou seja, estamos falando de aumento de 28 vezes no volume de remessas de lucros realizadas pelas Big Techs em apenas uma década no Brasil.

Tudo isso é espantoso e, mesmo que sabido, aparece para a maioria dos brasileiros de forma extremamente fragmentada e assim vai passando despercebida. Há muitas ações a serem implementadas no país. Sabe-se que a correlação de forças na geopolítica é desfavorável diante de todo tipo de ameaças e das ofertas entreguistas. Porém, é preciso ter clareza desse quadro, para se ter noção da direção por onde é possível avançar e aquilo que não cabe ser negociado, em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital do país. O Brasil é disparado a maior economia digital da AL e a quinta maior do mundo.

A soberania digital vai muito para além da implantação da infraestrutura digital com datacenters e conectividade no Brasil. É urgente também uma política clara dos negócios de dados, entendendo seu papel estratégico nessa fase revolucionária da reestruturação produtiva e da digitalização na vida em sociedade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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