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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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As Veias Abertas da América Latina — mito digital ou revisão honesta de um autor que mudou de linguagem, mas não de convicção?

Correspondências, afinidades e convergências revelam um pensador que evoluiu na linguagem sem abdicar da denúncia contra a colonização cultural e a desigualdade

Eduardo Galeano (Foto: Aquiles Lins)

Volta e meia, as redes sociais ressuscitam um boato com aparência de revelação histórica: Eduardo Galeano teria renegado sua obra mais famosa, publicada em 1971, tornando-se uma espécie de crítico tardio de si mesmo. A frase circula em posts apressados, em vídeos de poucos segundos, em comentários que dispensam contexto. Mas a realidade — quando confrontada com documentos, entrevistas e testemunhos pessoais — é menos espetacular e muito mais interessante.

Publicado em 1971, As Veias Abertas da América Latina projetou o nome de Eduardo Galeano para além das fronteiras do Uruguai. O livro tornou-se referência obrigatória nos debates sobre dependência econômica, colonialismo e subdesenvolvimento estrutural no continente. Escrito com fôlego narrativo e indignação histórica, defendia a tese de que o colonialismo não havia terminado: apenas se metamorfoseara. A América Latina continuava a transferir suas riquezas — minerais, agrícolas, energéticas — para os centros de poder global e para elites internas associadas.

Não era um tratado acadêmico convencional. Era literatura de denúncia, ensaio histórico com nervo poético. E talvez tenha sido exatamente essa mistura que o transformou em obra de culto para gerações de leitores, sobretudo durante as décadas de 1970 e 1980, quando ditaduras militares e dependência externa compunham o pano de fundo político do continente.
Décadas depois, no entanto, surgiu a controvérsia.

Em 2006, Galeano concedeu entrevista ao jornalista Fernando Arellano, publicada sob o título “O mundo está de cabeça para baixo”. Questionado sobre o que mudaria caso reeditasse As Veias Abertas da América Latina, respondeu com a serenidade de quem compreende a própria trajetória:

“Os livros nascem em um momento e em um lugar, e de certa forma pertencem a esse momento e a esse lugar; às vezes eles têm a sorte de se projetar mais além, como aconteceu com as ‘Veias…’, que continuam funcionando muito bem, porque continuam se encontrando com leitores em línguas diferentes, em diferentes lugares do mundo.

É um livro do qual não me arrependo de nenhuma vírgula; ao contrário, guardo por ele um orgulho sereno.

Mas daí repetir-me como se fosse uma prisão perpétua, não.

Publiquei há mais de dois anos outro livro que se parece com ‘Veias…’ de certa forma, e que se chama De Perto: A Escola do Mundo ao Contrário, mas a linguagem é totalmente diferente, porque, 30 anos depois, eu sou outro.
Mas sim, eu continuo leal às ideias que crio e às pessoas que amo.”

As palavras são inequívocas. Não há arrependimento. Não há repúdio. Não há desautorização do conteúdo. O que há é uma afirmação madura: um autor não é prisioneiro de sua obra inaugural.

E aqui permito-me acrescentar algo que transcende a citação documental e entra no território da experiência vivida. Em 1996, logo após concluir o livro Cuba Cantando em Lágrimas Viva, publicado pela Thesaurus Editora, iniciei correspondência com Galeano. Ele em Montevidéu, eu em Brasília. Trocamos cartas, reflexões, ideias que atravessavam fronteiras geográficas e aproximavam inquietações intelectuais.

Descobri — e afirmo isso com convicção — uma convergência profunda. Visão de mundo. Visão de América Latina. Visão sobre economia e sobre povos espoliados. A mesma indignação diante da colonização cultural que insiste em vestir-se de modernidade. O mesmo repúdio ao pensamento egocêntrico travestido de racionalidade neutra.

Já havia publicado, em 1992, Estão Desaparecendo da Terra, sobre os povos indígenas, obra que lhe foi indicada por Dom Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia. Galeano a leu, comentou e dialogou. Ali floresceu uma amizade marcada por afinidades éticas e políticas, especialmente na defesa intransigente dos povos originários da América. Não se tratava de coincidências retóricas, mas de um chão comum: a convicção de que a história do continente só pode ser narrada a partir daqueles que pagaram — e ainda pagam — o preço da pilhagem.

Trago esse testemunho não como argumento de autoridade, mas como elemento factual. Galeano não era um homem que renegava convicções ao sabor dos ventos. Era alguém que refinava a linguagem, ampliava o repertório e aprofundava complexidades, sem abdicar do eixo moral que o orientava.

A confusão ganhou novo fôlego quando, anos mais tarde, Galeano comentou que o livro fora escrito sem formação acadêmica formal em economia política e que hoje não o escreveria da mesma maneira. Parte da imprensa internacional destacou essa fala como se fosse uma autocrítica devastadora. Mas a distinção é essencial: reconhecer limitações formais não equivale a negar convicções substantivas.

Um escritor pode revisar seu método sem abandonar sua visão de mundo. Pode amadurecer o estilo sem revogar a ética que o orientou.

Ao longo das décadas, Galeano publicou obras que confirmam essa continuidade de pensamento, ainda que com outra tessitura literária, como Memória do Fogo e De Perto: A Escola do Mundo ao Contrário. O fio condutor permaneceu: crítica às estruturas globais de poder, defesa da dignidade latino-americana, denúncia das assimetrias históricas.

A narrativa de que teria “renegado” o livro funciona, nas redes, como atalho retórico. Serve tanto para desqualificar a obra quanto para tentar deslegitimar tradições críticas latino-americanas. É mais fácil dizer que o autor abandonou suas ideias do que enfrentá-las no debate.

Mas os fatos resistem.

Galeano afirmou não se arrepender de nenhuma vírgula e manter intacto o orgulho pela obra. Disse manter-se leal às ideias que criou. Recusou apenas a fossilização — a obrigação de repetir eternamente a mesma linguagem. É uma diferença decisiva. Autores que sobrevivem ao próprio tempo sabem que a linguagem precisa evoluir. Permanecer imóvel é que seria traição.

Há, nesse episódio, uma lição que vai além da figura do escritor uruguaio. Em tempos de circulação acelerada de informações fragmentadas, uma frase retirada de contexto pode transformar nuance em escândalo. A complexidade é substituída por slogans. O debate intelectual vira torcida.

Eduardo Galeano morreu em 2015 — não em 2017, como por vezes se lê apressadamente —, deixando uma obra que atravessa fronteiras ideológicas e gerações. Seu legado não é o de um dogmático, mas o de um narrador da história latino-americana que compreendia que o tempo modifica as formas, mas não necessariamente os compromissos.

Renegar seria declarar erro essencial, pedir desculpas públicas, desautorizar o próprio livro. Nada disso ocorreu.

O que houve foi algo mais raro e mais honesto: um autor reconhecendo que envelheceu, que mudou a voz, que ampliou ferramentas — mas que continua fiel às ideias que o moveram.

E afirmo, à luz do que vivi e troquei com ele: a coerência intelectual de Galeano não era pose literária. Era prática cotidiana.

Em uma época em que a memória coletiva é constantemente reescrita por algoritmos e simplificações convenientes, talvez valha repetir, com rigor documental e testemunhal: Eduardo Galeano não renegou As Veias Abertas da América Latina. O que fez foi libertar-se da obrigação de ser apenas o autor daquele livro.

E essa diferença — fundamental — muda tudo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.