Agências norte-americanas e ascensão do neoliberalismo – parte 9
"Ideias de invasões, do uso da força, muitas delas vieram desses think tanks"
(Publicado no site A Terra é Redonda)
Ideias de invasões, do uso da força, muitas delas vieram desses think tanks. O Project for a New American Century trabalhava na criação de condições de os EUA travarem guerras simultâneas e evidenciar uma absoluta superioridade militar do país.
1.
O Estado norte-americano é profundamente imbricado com o financiamento dos think tanks, com as agências de pensamento e ação espalhadas pelo mundo para assegurar a hegemonia e o domínio do neoliberalismo. Há uma característica do poder político norte-americano: não esconde a ligação com a iniciativa privada, com as gigantescas corporações industriais, com o complexo industrial-militar, com a burguesia, para usar termo antigo e pouco utilizado nos dias atuais, com o capital financeiro, este o principal ator do modo de existir capitalista dos dias atuais, o neoliberalismo.
Quanto mais numa conjuntura onde o presidente é um grande capitalista, e nessa condição, presidente e dono de fortuna, é difícil separar as coisas, e nem há esforço para fazê-lo. Por tudo isso, discuto muito o delírio de alguns liberais, a pretender situar os EUA como modelo de Estado democrático – estão longe disso, sempre estiveram, e mais ainda nos dias atuais, com um presidente como Donald Trump, a levar ao paroxismo a tradição dominadora, imperialista do país e a escancarar a relação do Estado com o mundo privado.
Curioso, e nós não vamos discutir isso aqui, é a mania do império de pretender eleições “limpas” ao redor do mundo, sem a interferência de empresas. Como se lá não houvesse isso, e de modo quase obsceno. Quando intervêm, de modo pretensamente moralizador, o fazem no sentido de promover golpes e também destruir empresas eventualmente capazes de competir com corporações norte-americanas, e para não ir muito longe basta recorrermos ao significado da criminosa operação chamada Lava Jato, de triste lembrança.
Voltemos às agências norte-americanas, à atuação delas, especialmente quanto ao financiamento. Conversávamos sobre isso no oitavo capítulo dessa série. Bob Fernandes entrevistava Nick Cleveland-Stout, pesquisador associado do Programa Democratizando a Política Externa do Instituto Quincy para a Governança Responsável, em Washington, e bolsista da Fundação Fulbright na Universidade Federal de Santa Catarina, onde realizou pesquisas sobre as relações Brasil-EUA, com foco particular na influência de think tanks americanos no Brasil.
Na sequência, Bob Fernandes quer saber do financiamento aos think tanks, oriundo do governo norte-americano. O pesquisador responde: a maioria da grana do governo vai para a Rand Corporation, think tank criado em 1948 pela Douglas Aircraft Company para oferecer pesquisa e análise às Forças Armadas dos EUA.
2.
Na apresentação da agência, na Wikipédia, se diz, sem rodeios, ser financiada pelo governo dos EUA e por fundos privados, corporações, universidades e particulares. Informa ainda ter a agência crescido ajudando também outros governos – e aí é possível conjeturar sobre a natureza de tais ajudas, normalmente voltadas ao fortalecimento do poderio econômico e político do império, golpes, e mais recentemente, certamente, contribuindo para a afirmação do neoliberalismo. Ajudando, se afirma, “em uma série de questões de defesa e não defesa”.
Em matéria assinada por Ana Thees, “Rand Corporation e sua influência na política externa estadunidense”, publicada pelo Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), amplia-se a visão do financiamento: a autora afirma ser a instituição financiada pelo governo norte-americano, pela Força Aérea e pelo Exército dos EUA, além de, também, por agências governamentais e locais, universidades, empresas, setores privados do país. Tem sede em Santa Mônica, cidade da Califórnia.
Ana Thees informa: a Rand Corporation foi essencial na elaboração do plano estratégico dos EUA durante a Guerra Fria. E mantém-se ativa, ajudando na definição de rumos da guerra da Ucrânia. No plano econômico, ainda é a visão da autora, a Rand Corporation defende, bem na linha do atual presidente dos EUA, a utilização de sanções comerciais e financeiras contra países inimigos, e eu diria, pontuais ou estratégicos.
No campo da política e da informação, e aí compensa investigar, a Rand Corporation, “visa a depreciar, a todo custo, a imagem da Rússia, de modo a descredibilizar fontes e informações procedentes do país”. Sem tirar nem pôr, este um dos objetivos. Com isso, “pretende-se incutir, principalmente na opinião pública, a ideia de que a Rússia é uma verdadeira ameaça para o Ocidente e, por isso, esforços não devem ser poupados para combatê-la”.
No domínio estritamente militar, o think tank dá sustentação à ideia de não economizar esforços no sentido conceder a mais ampla assistência bélica à Ucrânia, “além de pressionar a OTAN para que amplos investimentos sejam concedidos ao país”. Não fala, porque seria imprudente, da terceirização daquela guerra, a Europa como laranja.
Oferece análises contendo considerações cruciais para o Departamento de Defesa dos EUA, de modo a poder decidir “qual melhor movimento estratégico tomar diante da escalada do confronto”, de modo, sempre, a possibilitar “a maximização da garantia dos interesses estadunidenses”.
Por fim, caminhando de acordo com uma visão estratégica do império, nem sempre revelada dessa maneira, assim tão obscena, a Rand Corporation, conforme a autora, defende uma posição clara e incisiva quanto à resolução da guerra: “a possibilidade de uma paz negociada não é uma opção viável”.
Acredita-se, diz Ana Thees, que “ambos os lados beligerantes não pisam em terra firme ao se tratar de confiança mútua”. Sempre, na visão da instituição, há o temor “de que o outro não se comprometa a cumprir qualquer tipo de acordo firmado ou se aproveite de uma pausa para descansar e se recuperar para o próximo combate”.
3.
Texto escrito em maio de 2024, parece falar dos dias atuais, do vai e vem do presidente Donald Trump ou de Benjamin Netanyahu, dos sucessivos descumprimentos de acordo do Estado sionista ou do governo norte-americano, acentuando não ser esse um procedimento exclusivo de Donald Trump ou de Benjamin Netanyahu, mas próprio de Israel desde o surgimento, no final dos anos 1940, e dos EUA, desde que chegado à condição de país imperialista.
Voltando à entrevista propriamente, o professor Nick Cleveland-Stout afirma ser a Rand Corporation o primeiro modelo dos thinks tanks governamentais. Explica: não é nominalmente um think tank governamental, e só nominalmente não o é. Tomam esse cuidado. É uma forma de o Departamento de Defesa se cuidar, ter credibilidade. Se citar um estudo do governo, chancela do governo, não terá o mesmo valor que uma avaliação, um estudo da Rand Corporation, cujo peso será maior, aparecerá como algo, se a palavra couber, mais isento, algo capaz de se sustentar com mais firmeza. Ilude-se quem acreditar.
Bob Fernandes indaga dele se esses think tanks são obrigados a citar as fontes de financiamento, dizer de onde vem o dinheiro. Não – a resposta de Cleveland-Stout. Esses think tanks não são submetidos a um requisito legal de transparência. No trabalho de pesquisa dele, localizou vários think tanks sem qualquer demonstração de onde provém o financiamento deles. Aqui, e volto a isso, à natureza do Estado norte-americano, avesso à democracia, não se sabe de onde vem o dinheiro “que está financiando os especialistas que decidem ou ajudam a decidir o que fazer na política externa dos EUA”.
Um problema enorme, tal desconhecimento, na opinião de Cleveland-Stout. A sociedade tem o direito de saber de onde vem esse dinheiro. “Pode ser da indústria bélica, pode ser de alguns bilionários, pode ser de qualquer pessoa”. E por que não se pode tomar conhecimento disso?
Bob Fernandes intervém: pode ser dinheiro sujo, do narcotráfico, qualquer coisa.
“Exato” – responde o pesquisador. Essa a primeira questão. A segunda, quanto aos think tanks, é que eles ocupam papel essencial na política externa norte-americana. Se a gente for olhar na história dos EUA, no desenvolvimento da política externa, várias decisões nasceram desses think tanks, ideias voltadas à militarização da política externa.
4.
Ideias de invasões, do uso da força, muitas delas vieram desses think tanks. Cleveland-Stout cita o Project for a New American Century (PNAC), nascido de um grupo neoconservador, tendo à frente William Kristol e Robert Kagan, defensor do domínio global americano, gastos militares robustos e uma política externa agressiva militarmente, intervencionista.
O grupo era constituído, ainda, por figuras que mais tarde desempenharam papéis relevantes no governo de George W. Bush, incluindo Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz. Ao defender o aumento maciço dos gastos com Defesa, pensava na criação de condições de os EUA travarem guerras simultâneas e evidenciar uma absoluta superioridade militar do país.
O grupo do PNAC defendeu a intervenção militar no Iraque para depor Saddam Hussein. Nascido em 1997, esse think tank se dissolveu em 2006, mas as ideias desenvolvidas por ele influenciaram fortemente a política externa norte-americana. E continuam predominantes até os dias atuais.
Na entrevista, na conversa entre Bob Fernandes e Cleveland-Stout, quando o Iraque veio à tona, surge o nome de Bustani – José Maurício Bustani, diplomata brasileiro, vítima de ataque sistemático por parte dos EUA. O nome vem muito a propósito. Em 1997, José Maurício Bustani é eleito primeiro diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), organização independente afiliada à ONU.
Reeleito em 2000, é destituído em 2002 por pressão do império norte-americano, precisamente na conjuntura onde era discutida suposta existência de armas químicas no Iraque. Logo depois, o país seria invadido, sob o argumento da existência de tais armas, uma mentira.
José Maurício Bustani, no segundo mandato, não obstante as pressões e ameaças dos EUA, defende a adesão do Iraque e da Líbia à OPAQ a fim de desvendar a existência das armas químicas, tão alardeada pelo império norte-americano. Negociava com aqueles países. Com a adesão, inspetores independentes da OPAQ poderiam comprovar a inexistência de tais armas e, com isso, quem sabe, constatada a realidade, impedir qualquer guerra de agressão. Isso não interessava aos EUA, como vimos ao discutir as diretrizes emanadas da Rand Corporation.
Quando as negociações com o Iraque estavam avançando, o governo Bush propôs a renúncia de José Maurício Bustani. Como ele recusou-se, o império desenvolveu uma intensa campanha para derrubá-lo, ameaçando não só retirar o financiamento da OPAQ, mas, também, ameaçar a segurança pessoal dele e da família.
5.
No final de abril de 2002, depois de uma ofensiva arrasadora dos EUA, José Maurício Bustani é destituído. Um ano depois, o Iraque é invadido a pretexto, como já dito, de destruir armas de destruição em massa, jamais encontradas. Na guerra, entre 2003 e 2011, morrem cerca de cinco mil soldados norte-americanos e entre 200 e 600 mil cidadãos iraquianos, conforme matéria da revista Trip.
Nick Cleveland-Stout, na entrevista, evidencia a existência de absoluta intimidade, de variadas maneiras, entre o Estado norte-americano e as grandes empresas, particularmente com as vinculadas à indústria bélica, como a Lockheed Martin Corporation, maior empresa de defesa e aeroespacial do planeta. A gigantesca corporação, a contar com mais de 100 mil funcionários, com as guerras de Donald Trump, vive uma espécie de idade de ouro.
Segundo o pesquisador, a Lockeed participa do Council Foreign Relations, um prestigiado think tank norte-americano, voltado à política externa do país, sediado em Nova Iorque, a contar com a presença de políticos de alto escalão, secretários de Estado, diretores da CIA, banqueiros, diretores corporativos e figuras carimbadas da mídia, exercendo óbvia influência na política externa. Ninguém vê isso, a participação da Lockeed, como conflito de interesses, ele constata. Ao mesmo tempo considera ser impossível separar, divorciar os interesses de vendedora de armas e a elaboração da política externa do país.
Cleveland-Stout, pesquisador associado do Programa Democratizando a Política Externa do Instituto Quincy para a Governança Responsável, ao responder pergunta de Bob Fernandes, revela a existência no programa de um banco de dados capaz de fornecer aos pesquisadores a informação de quem financia os think tanks.
Ao desenvolver tal banco de dados, tiveram que contornar muitos obstáculos, os muitos modos das agências norte-americanas de tentar esconder as fontes de financiamento. Conseguiram, nem que parcialmente. Com isso, pretendia-se chamar a atenção da sociedade e de modo especial dos jornalistas, mostrar o conflito de interesses existente, evidenciar a falsidade de chamar de especialistas os integrantes desses think tanks, como o faz a mídia. Nada demais se revelassem a origem desses especialistas, que organizações integram, que interesses defendem. Nesse momento, Bob Fernandes intervém:
É como no Brasil. Especialistas de economia são quase todos da mesma posição, chamados todos os dias para opinar. Há uma entidade chamada mercado, espécie de fantasma a querer cotidianamente lhe dizer alguma coisa. Pessoas de institutos neoliberais são comentaristas em emissoras de rádio, jornais, revistas no Brasil. Não seria um problema se fosse revelada a origem delas, mas isso nunca é dito.
Cleveland-Stout considera direito do público conhecer, saber dos conflitos de interesse. Até para a cidadania ter condições de julgar de modo apropriado, com conhecimento de causa. O banco de dados quer preencher essa lacuna, evidente no caso norte-americano. É um passo, pequeno que seja, um passo importante.
Tudo isso, penso, está vinculado à natureza da chamada democracia nos EUA. Há uma teia enorme a tentar camuflar a verdade. Eu dizia, no início desse texto, que a relação entre o Estado e a iniciativa privada é aberta, revelada. Ao fim dele, repenso. Muito da verdade da íntima relação entre os interesses das empresas e os do Estado não está inteiramente à vista. E é camuflada, entre tantos mecanismos, pelos think tanks, autênticas agências ideológicas voltadas à sustentação do domínio de um império em óbvia decadência e, por isso, mesmo devotado a levar à frente uma guerra atrás da outra. Até quando?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



