Ações do Tayayá foram vendidas em 2021
Toffoli não tinha motivo para blindar seus irmãos
O efeito manada faz parte da natureza do ser humano.
Quando uma pessoa começa a olhar um ponto qualquer no céu, em pouco tempo outra pessoa faz o mesmo, depois outra, mais outra, mesmo sem saber o que estão olhando.
Quando alguém começa a jogar pedra na Geni, por algum motivo ou sem motivo, ocorre o mesmo. Outras pessoas se juntam a ela e começam a jogar pedras, sem saber por que Geni está sendo apedrejada.
É o fenômeno que se dá em relação ao ministro Dias Toffoli. Todos estão jogando pedras nele, exigindo que se declare suspeito e abandone a relatoria do caso Master.
O motivo? Seus irmãos e seu primo venderam uma parte das ações do resort Tayayá ao fundo Arleen, controlado pelo cunhado de Daniel Vorcaro.
Vamos aos fatos.
O Resort Tayayá Aqua Resort, localizado em Ribeirão Claro (PR), às margens da represa de Chavantes, é um empreendimento de luxo com foco em lazer aquático e ecoturismo, considerado um dos melhores do país por sua infraestrutura.
Ele oferece acomodações tais como apartamentos luxo, privilege e chalés, além de piscinas, praias artificiais, aquaparque, academia, salas de jogos, canoagem, restaurantes com regime all-inclusive opcional, Wi-Fi gratuito e atividades para todas as idades.
A área total é de cerca de 58 mil metros quadrados, com vistas para mais de 400 km de águas transparentes, cachoeiras e ilhas. Não há um número exato de quartos divulgado publicamente, mas o resort acomoda centenas de hóspedes em categorias variadas, incluindo duplex e garden.
O resort foi inaugurado em 2008. Sabe-se que a família Toffoli teve participação acionária ao longo dos anos, com investimentos iniciais modestos — R$ 370 mil por 33,3% adquiridos, em 2021, pelos irmãos do ministro.
Os parentes de Toffoli — os irmãos José Eugênio Dias Toffoli e José Carlos Dias Toffoli, e o primo Mário Umberto Degani — não foram os donos originais exclusivos, mas adquiriram participações significativas ao longo do tempo, por meio da empresa Tayayá Administração e Participações Ltda. e da incorporadora DGEP Empreendimentos.
Eles venderam participações para o fundo Arleen (administrado pela Reag Investimentos, ligada ao Banco Master) em 2021, com aporte de R$ 20 milhões (incluindo R$ 6,6 milhões por 50% das ações). O fundo era controlado por Fabiano Zettel (cunhado de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master), que confirmou ser cotista único até 2022, com liquidação em 2025.
Os parentes
Os parentes de Toffoli são de classe média-alta, com histórico de investimentos no ramo imobiliário e de construção e condenações por superfaturamento em obras públicas em Marília (SP). Eles possuem outras propriedades, como uma fazenda desbloqueada após quitação de suas dívidas.
O foco da investigação da Polícia Federal são os fundos Arleen e a Reag (liquidados pelo BC), por suspeitas de sonegação bilionária e lavagem, não eles.
Não há evidências públicas de ligações pessoais ou comerciais diretas deles com Fabiano Zettel (dono dos fundos Leal e Arleen) antes da transação de 2021.
A conexão surgiu por intermédio de Silvano Gersztel, sócio-diretor da Reag Investimentos (gestora dos fundos), que representou o Arleen na compra e é investigado por suposta lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Não há registros de negócios anteriores nem posteriores entre as partes; tudo indica que o contato ocorreu especificamente para essa operação.
O hóspede ilustre
Dias Toffoli frequenta o Tayayá Aqua Resort desde pelo menos 2017. Ele continuou se hospedando lá durante o período em que os familiares detinham ações (2021–2025), incluindo fins de semana e eventos.
Viajou para lá em uma aeronave da FAB em 2018 e no jatinho de uma empresa investigada pela PF em setembro de 2024.
Até aí, são lambanças semelhantes à da viagem num jatinho ao lado de um advogado de um diretor do Master para assistir a um jogo do Palmeiras, em 2025. Registros indicam que ele passou o réveillon de 2025/2026 no local. Não há crime nisso.
Além dos irmãos de Toffoli, os sócios do Tayayá variaram ao longo do tempo. Inicialmente (até 2020), incluíam Mário Umberto Degani (primo, controlador) e o advogado Euclides Gava Junior. Em 2021, entraram os fundos Arleen e Leal (via Reag Investimentos, com Fabiano Zettel como cotista único).
Os irmãos de Dias Toffoli e o primo Mário Umberto Degani venderam participações parciais no Tayayá Resort para o fundo Arleen em 2021, mas mantiveram quotas significativas no empreendimento durante os anos seguintes (dividindo o controle com o fundo até 2025).
Em fevereiro de 2025, o advogado Paulo Humberto Barbosa comprou a participação remanescente dos irmãos Toffoli na Maridt Participações S.A. (empresa que detinha cotas no resort), em uma transação estimada em R$ 3,5 milhões.
Depois, em setembro de 2025, Barbosa adquiriu também a parte de Degani e as quotas do fundo Arleen, consolidando-se como o único proprietário do resort por meio de suas holdings (como PHB Holding e Participações Ltda. e Angra Doce Investimentos Ltda.). E, é óbvio, também não está sendo investigado por ter comprado ações de um fundo-bandido.
O aporte total de R$ 20 milhões pelo fundo Arleen em 2021 foi direcionado a duas empresas ligadas ao resort: a Tayayá Administração e Participações Ltda. (controlada inicialmente pelo primo Degani desde 2011) e a DGEP Empreendimentos Imobiliários Ltda. (também vinculada aos familiares).
Desse montante, R$ 6,6 milhões foram especificamente para a aquisição de 50% das ações na estrutura societária principal do resort, compradas da Maridt Participações (dos irmãos Toffoli), o que sugere que o fundo adquiriu participações diretamente dos parentes de Toffoli, sem indícios claros de compra de ações de outros sócios externos na época (embora houvesse sócios menores como Euclides Gava Junior no início).
O restante do aporte (cerca de R$ 13,4 milhões) parece ter sido usado para investimentos operacionais ou em outras estruturas, incluindo R$ 3,2 milhões na DGEP, também pagos aos irmãos.
Cine Reag Belas Artes
Até há pouco tempo, o tradicional Cine Belas Artes, em São Paulo, se chamava Reag Belas Artes. O fundo Reag foi liquidado e seu dono, João Carlos Mansur, está sob investigação. Mas o dono do Cine Belas Artes, não. Ele vendeu o naming rights e estava recebendo os valores negociados, sem saber que era dinheiro roubado dos clientes do Master. Com a liquidação do Reag, ele perdeu o patrocínio. The end.
O Atlético Mineiro recebeu um aporte de R$ 300 milhões do fundo Astralo 95, cujos beneficiários são parentes de João Carlos Mansur, ex-dono do Reag. Nem por isso o clube mineiro está sendo investigado.
Da mesma forma, os parentes do ministro também não estão sendo investigados por terem vendido ações do resort para um fundo-bandido em 2021. Eles receberam o dinheiro — sem saber que era dinheiro roubado dos clientes do Banco Master — e nunca mais fizeram negócio com ele.
Se seus parentes não são alvo de investigação, e a transação completou-se há quatro anos, sem desdobramentos, não havia motivo para Dias Toffoli blindá-los nem, portanto, se declarar suspeito, muito menos jornalistas, colunistas, editoriais e toda sorte de palpiteiros da internet exigirem que ele se afastasse da relatoria por suspeição.
O efeito manada quase fez mais uma vítima.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



