Acerca do “Manifesto Psicanalistas contra o Feminicídio”
Por que não reconhecê-la como uma prática potencialmente subversiva e aliada da luta feminista, tanto no plano teórico quanto no político?
É motivo de celebração, por parte de toda a comunidade psicanalítica politicamente engajada e atenta às agudas questões da contemporaneidade — particularmente à violência contra mulheres, negros, pobres e corpos sexualmente dissidentes —, que um manifesto como este seja elaborado, redigido, publicizado e amplamente divulgado. Portanto, celebremos a iniciativa dos coletivos e colegas psicanalistas que convocaram o “Manifesto Psicanalistas contra o Feminicídio”.
O texto fala por si e aponta o que é preciso apontar no que diz respeito à violência contra a mulher, ao feminicídio e à violência estendida a outros corpos, que se declarem mulheres ou não. Não há mais espaço para a tolerância e o silenciamento desses atos criminosos contra mulheres e contra todos aqueles que não se submetem a um padrão conveniente aos interesses do capital e do controle sobre corpos, modos de viver, trabalhar e gozar.
Em uma comunidade verdadeiramente marcada pela politização — como vem se tornando a comunidade psicanalítica nos últimos tempos, ao se despojar de sua aura de falso apoliticismo, supostamente justificado pela “neutralidade” do psicanalista —, um texto como este deve também constituir-se como ocasião para o debate crítico. O apoliticismo é uma falácia: se o psicanalista não faz militância no interior de sua prática clínica, isso decorre de uma política interna ao seu campo — a política da falta de ser —, e não da ausência de política. Cabe lembrar a observação de Lacan de que a psicanálise é, inevitavelmente, uma intervenção no conflito, elemento necessário à própria sobrevivência do campo inaugurado por Freud.
Passemos, então, ao debate político. Causa espanto que este ato crítico e combativo, tão necessário e oportuno, seja acompanhado de um claro propósito de associar a psicanálise, desde seus primórdios freudianos, àquilo que justamente se busca combater. Tal associação inclui interpretações marcadas por equívocos e distorções dos próprios conceitos freudianos.
O salto discursivo de Freud, ao passar da teoria do trauma como evento factual — por ele denominado “neurótica” — para a teoria da fantasia, constitui um dos mais decisivos avanços conceituais, clínicos, epistêmicos e políticos de sua obra. Ao se afastar de uma concepção meramente positivista, Freud introduz a dimensão dialética na compreensão da formação do sintoma histérico. Surge, assim, o princípio da negatividade dialética, que confere estatuto simbólico ao trauma de sedução, articulando-o à linguagem e à posição do sujeito frente ao Outro e aos outros.
A histérica — independentemente de seu sexo biológico ou escolha de objeto — ganha, então, um novo estatuto: o de sujeito do inconsciente, sujeito de uma Outra Cena, a cena da fantasia. A fantasia, aliás, é um dos conceitos centrais da psicanálise, pois assegura a ela o estatuto de um saber discursivo, em oposição à mera observação e correlação de fatos, como propõe a psicologia comportamental contemporânea. Como afirma Lacan, não há fato senão de discurso.
Acusar a teoria da fantasia de encobrir o abuso sexual é comparável a exigir que Hegel reduzisse a sua Dialética do senhor e do escravo a um duelo em praça pública. A fantasia é também o campo da sexualidade subversiva da psicanálise, rebelde ao determinismo biológico. Ao evidenciar as chamadas “aberrações sexuais”, Freud desmonta a ideia de uma norma sexual e expõe a ilusão da heteronormatividade como padrão natural.
A transferência, por sua vez, é um dos achados fundamentais de Freud. Ela não se estabelece como exercício de poder, mas justamente com a queda da sugestão. Ainda assim, chega-se ao absurdo de afirmar que “a transferência pode favorecer, no seio do método psicanalítico, a violência contra as mulheres”. Trata-se de um equívoco grave. A transferência só se desenvolve mediante a abstinência do analista quanto ao uso de poder; é um movimento do sujeito em direção ao analista e não o contrário; e não visa realizar a demanda de amor, mas trabalhar o desejo inconsciente.
Freud, em “Observações sobre o amor de transferência”, alerta que a maior dificuldade da prática psicanalítica é justamente o manejo da transferência. Ele rejeita tanto a reciprocidade quanto a rejeição do amor transferencial, considerando ambas inadequadas. E formula uma de suas advertências éticas mais contundentes: “Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo sem lhe haver feito uma única pergunta.”
Evitar os “perigos da transferência” equivale a evitar a própria psicanálise. O inconsciente comporta algo de demoníaco, e cabe ao psicanalista sustentar uma prática ainda mais subversiva, capaz de interrogar o desejo em vez de sucumbir a ele.
Historicamente, as histéricas foram perseguidas — da Inquisição, que as via como possuídas, até a medicina moderna, que as desqualificava como fingidoras. Freud rompe com esse paradigma ao reconhecê-las como sujeitos do inconsciente, conferindo dignidade à sua fala e ao seu sintoma.
Assim se estabelecem as bases de um saber leigo, o inconsciente, e de uma clínica acessível a todos. Se, ao longo do tempo, parte dos psicanalistas se afastou desse compromisso ético, aderindo a práticas de poder e sedução, isso não pode ser atribuído à psicanálise em si, mas às contradições do próprio campo social em que ela se insere.
Diante disso, cabe questionar: por que os autores de um manifesto tão importante contra o feminicídio — cuja relevância é inegável e digna de celebração — insistem em associar a violência contra a mulher à psicanálise desde seus primórdios? Por que não reconhecê-la como uma prática potencialmente subversiva e aliada da luta feminista, tanto no plano teórico quanto no político?
Rio de Janeiro, 25 de março de 2026
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
