A pesquisadora "doida" meio mágica e meio bruxa
“As reações aos experimentos da professora da UFRJ expressam também o desconforto dos que temem ter esperança”, escreve Moisés Mendes
Os brasileiros confiam mais no trabalho da pesquisadora Tatiana Sampaio, para ajudar na recuperação de pessoas com lesões na medula, do que na possibilidade de Neymar vir a ajudar o Brasil na Copa do Mundo. Como diria dona Eureka, a ciência e o futebol lidam com emoções e sentimentos.
Mas está difícil a vida de Tatiana, pelas reações que provocou no mundo das viralatices, ciumeiras e desconfianças. Porque uma outra porção de brasileiros vê irracionalidade na divulgação de experimentos iniciais ainda dependentes de provas inquestionáveis.
Orgulho e felicidade também incomodam uma parte do Brasil. É desconfortável para muita gente pensar que a polilaminina será o gol que irá nos consagrar no mundo. Assim como muitos ficaram desconfortáveis com o ouro de Lucas Braathen nos Jogos de inverno.
Lucas é loiro, filho de brasileira, mas nascido na Dinamarca, tem sotaque de gringo e compete com esquis na neve. Também é um herói improvável.
Ama o Brasil e competiu de verde e amarelo porque assim se sente mais liberto e inventivo. Perguntam se Lucas é mesmo um herói brasileiro genuíno. Porque Neymar deveria ser esse cara. Mas Neymar cai mais em campo do que Lucas descendo picos nevados a 80 quilômetros por hora.
Tatiana traz o desconforto dessas coisas imponderáveis para outra área, a da descrença de colegas da ciência. Porque, dizem eles, o cientista lida com coisas provadas, e Tatiana é apenas uma professora da UFRJ e não oferece essas provas.
O povo aplaudiu Tatiana até em shows e desfiles do Carnaval, mas a racionalidade científica não quer saber dessas demonstrações de subjetividade, emoção, afeto e admiração.
A racionalidade científica, que não soube enfrentar com voz alta e impositiva a irracionalidade de Bolsonaro na pandemia, não quer saber de abstrações emotivas e cobra contenção e bom senso dos brasileiros.
Pedem para que não incentivem Tatiana a se comportar como celebridade. Muitos dos que falaram em voz baixa, quando o país teve de enfrentar o fascismo negacionista, exigem sensatez de pessoas sensibilizadas pela empatia da pesquisadora.
Ciência não combina com brasilidade emotiva, esse é o recado. E assim o Brasil vai lidando com suas muitas faces e fraquezas, desde que a extrema direita ascendeu ao poder, no governo e no Congresso, e a ciência passou a conviver com terraplanistas e sabotadores de vacinas.
Calculam que a falta de vacina matou pelo menos 300 mil pessoas. Mães não vacinam os filhos. A ciência é atacada cotidianamente e espancada como eles espancam gays, trans, negros e mulheres.
E o povo não pode acenar para Tatiana, porque esses gestos podem criar falsas expectativas. E as expectativas, como disse a pesquisadora no Roda Viva, são agora incontroláveis.
Dizem que o excesso de emoção com a polilaminina pode se transformar em frustração mais adiante. Pode. Uma boa parte do Brasil, talvez quase toda a metade bolsonarista, acreditou nos milagres da cloroquina.
Os homens da ciência foram incapazes de conter a disseminação de cloroquina, mesmo que tenham alertado para seus efeitos adversos. Porque as criaturas da ciência, dirão, não têm poder político.
Milhares morreram tomando os remédios do kit de Bolsonaro, mas grupos com a autoridade dos alvarás concedidos pela racionalidade da ciência não conseguiram mobilizar seus pares para conter o crime praticado pelo obscurantismo bolsonarista em conluio com governadores e prefeitos da velha direita.
E agora gritam para que tenham cuidado com o excesso de esperança criado pela professora da Universidade Federal do Rio. Gritaram quando Miguel Nicolelis apresentou o exoesqueleto como mais um possível milagre da ciência, um golaço na Copa de 2014?
Doze anos depois, alguém vê alguém vestindo o exoesqueleto? Mas isso significa que Nicolelis fracassou por não ter correspondido a expectativas exageradas? Não.
No Roda Viva, Tatiana desafiou os que a questionam e disse que devem seguir estudando. Estudem, disse ela, sobre os que põem em dúvida os métodos que usa para avaliar os resultados iniciais das suas pesquisas.
Talvez não gostem, como se viu nas redes sociais, que ela fale da descoberta da polilaminina como algo inesperado e mágico. Porque ciência não combina com magia, dizem os mesmos racionais. Mas talvez não gostem mesmo da definição que a professora atribuiu a si mesma e está na última intervenção no Roda Viva:
“Nunca ouvi falar de um medicamento que fizesse pessoas com lesão completa (da medula) voltarem a ter movimentos. E também nunca ouvi falar de uma professora doida que conseguiu fazer um estudo clínico sem dinheiro e demonstrar isso. Então, eu acho que a gente tem que fazer coisas novidadeiras. Eu não tenho nenhum problema com isso. Eu vou fazer aquilo que achar eticamente correto, em primeiro lugar”.
Tatiana não é subestimada apenas por ser mulher e atrevida, mas também por ser doida e bruxa e nos oferecer esperança em meio a desencantos recentes e à ameaça de retorno do fascismo negacionista.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
