A ofensiva estadunidense contra o Sul Global e a resposta multipolar de Pequim
A política externa estadunidense encontrou um grande concorrente em busca da hegemonia global
No último dia 14 de fevereiro, o Sul Global assistiu atônito a um dos maiores ataques contra sua soberania, cultura e riquezas. Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, convocou a Europa para uma cruzada contra as lutas anticoloniais, classificando os povos resistentes à dominação ocidental como bárbaros e radicais.
Em cerca de 20 minutos, o secretário de Trump reconstrói a histórica relação entre os Estados Unidos e a Europa. Retoma a história de Colombo e percorre um longo caminho até o “fim da história” de Fukuyama (ao qual se refere como “ilusão perigosa”). A descrição histórica de Rubio não é brilhante, tampouco séria e com rigor teórico, mas tira o véu das políticas externas que os EUA planejam para o mundo e das quais pretende incluir o continente europeu.
A “Guerra Santa” de Rubio
A Europa e os Estados Unidos, para o secretário, têm ligações transcendem o mercado, os exércitos e a política; seriam, sobretudo, ligações espirituais. Esse chamamento à “guerra santa” faz eco em outras linhas do discurso, quando são feitas agressões contra as políticas migratórias, acusando os imigrantes de romperem o tecido social e o processo civilizatório ocidental.
A globalização, diga-se, também é atacada por Rubio, sendo classificada como uma “ideia tola”, pois, enquanto economias ocidentais se abriam, alguns outros países se protegiam e cresciam suas economias (em uma velada referência à China).
O chamamento de Rubio aos europeus se desenrola em relação aos objetivos econômicos da política externa estadunidense. As fortes críticas às lutas anticoloniais e também às instituições globais (para as quais ele sugere reformas) são caminhos que o discurso yankee encontra para propor que o Sul Global volte a ser parte da “cadeia de abastecimento” do Ocidente, impedindo que essas nações caiam nas mãos de outras potências (em outra velada referência à China).
Os Sintomas Mórbidos
O discurso termina com Rubio chamando os europeus para construir o futuro: “Porque o ontem acabou, o futuro é inevitável e o nosso destino juntos nos espera”. A frase final do secretário nos remete à mais célebre linha escrita por Antonio Gramsci:
“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Mas não são só “sintomas mórbidos” que o jovem século XXI está recheado. No mesmo dia 14 de fevereiro de 2026 a mídia estatal chinesa confirmou a isenção dos impostos de importação de 53 dos países do continente africano, em medida que valerá a partir do dia 1º de maio de 2016 – uma data simbólica a todos os trabalhadores do mundo. Essa decisão é parte de um esforço chinês em fortalecer os laços econômicos e ampliar os fluxos comerciais entre a China e a África.
Devemos ressaltar que a iniciativa chinesa de abrir mercados e promover o desenvolvimento mútuo não se restringe apenas ao continente africano. Essa abertura faz parte de um projeto mais amplo e mais poderoso, como a Iniciativa Cinturão e Rota e o fortalecimento dos BRICS.
Hegemonia x Cooperação
Os chineses expressam em sua política externa o entendimento de que a busca por cadeias de abastecimento deve ser realizada com parcerias e trocas mútuas. Desse modo, a política externa chinesa é um contraponto às políticas proferidas no discurso de Rubio.
Enquanto os EUA empreendem ataques às lutas anticoloniais, sancionam ilegalmente países que defendem suas riquezas e promovem um cenário de falta de confiança e de submissão, a China oferece confiabilidade, estabilidade e dignidade às suas parcerias. Enquanto Washington sequestra presidentes, patrocina um genocídio em Gaza e ameaçam promover trocas de regimes aos quatro cantos do mundo, Pequim abre mercados, convoca à cooperação e trata seus parceiros com respeito.
Se, retomando Gramsci, o mundo velho agoniza e os monstros começam a sair da toca, os chineses parecem ter as armas necessárias para enfrentar os monstros e construir um novo mundo onde o respeito, a solidariedade e a igualdade entre as nações reinam, um mundo verdadeiramente multipolar. A política externa estadunidense encontrou um grande concorrente em busca da hegemonia global. Resta às nações decidirem se querem viver curvadas ou de cabeça erguida. Um novo mundo já nasceu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



