A obra de Haddad
A passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda o credencia a ser visto doravante como o ministro da justiça tributária
Prestes a sair do governo, conforme já anunciou, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deixa um legado de realizações capaz de apontá-lo como o ministro da área econômica que mais entregou resultados desde a redemocratização do país.
Aos seus títulos acadêmicos e reconhecido preparo intelectual, Haddad acrescentou talento e habilidade política, forçado que foi a negociar o tempo inteiro com um Congresso Nacional de composição hostil ao governo.
Atento também à correlação de forças na sociedade e à capacidade do mercado financeiro de gerar crises e impasses, amplificadas por seus porta-vozes na mídia, ele exibiu uma paciência de Jó no trato com a Faria Lima, tratando-a como um dado da realidade a ser enfrentado. Obrigado a fazer concessões, Haddad, no entanto, não cedeu no essencial: o compromisso com a justiça tributária.
Aliás, a gestão do ministro conseguiu o que parecia impossível no Brasil: a taxação BBB (bets, bancos e bilionários) e a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, compensada pela cobrança de uma alíquota progressiva de até 10% dos 140 mil brasileiros que recebem mais de R$ 600 mil por ano.
A passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda o credencia a ser visto doravante como o ministro da justiça tributária. Vamos lembrar do seu papel central no destravamento e na aprovação pelo Congresso Nacional de uma reforma tributária empacada no Legislativo há longos 30 anos.
O texto aprovado, cuja implantação será gradual, vai otimizar e racionalizar o modelo tributário brasileiro, caminhando na direção da progressividade, cobrando mais de quem pode mais e aliviando para os do andar de baixo.
Haddad, mesmo antes da posse, costurou a aprovação do Pacote da Transição, medida essencial para a travessia dos primeiros meses do mandato de Lula, pois o rombo eleitoreiro de Bolsonaro, para tentar se reeleger, devastara as contas públicas.
Vale destacar que caiu no colo do governo Lula um abacaxi financeiro gigantesco para descascar: o buraco orçamentário de mais R$ 300 bilhões, fruto do calote de Bolsonaro nos precatórios e no ICMS dos governadores, para baixar artificialmente os preços dos combustíveis em 2022, visando a obtenção de dividendos eleitorais. Essa montanha de dinheiro teve que ser paga pelo governo Lula.
Hoje o Brasil tem o menor desemprego da história, a menor inflação acumulada em quatro anos, a maior população ocupada der todos os tempos e taxas de crescimento econômico entre as maiores do mundo, sempre contrariando as previsões do mercado financeiro e dos analistas da mídia. Além disso, a política de valorização do salário mínimo segue proporcionando ganhos reais para mais de 30 milhões de brasileiros.
Mas, claro, nem tudo foram flores: a indicação de Gabriel Galípolo feita por Haddad para a presidência do Banco Central criou a expectativa de que os juros estratosféricos, que tanto prejudicam as pessoas e o setor produtivo e impedem o Brasil de crescer em ritmo mais acelerado, finalmente entrariam em uma trajetória de queda.
Aconteceu o oposto e a taxa Selic de 15% ao ano é a maior de todos os tempos.
No momento, Lula e diversas lideranças do PT defendem que Haddad vá mais uma vez para o sacrifício na eleição para o governo de São Paulo, pois ele é o quadro mais competitivo do partido para a disputa no maior colégio eleitoral do país, essencial para o projeto da reeleição de Lula.
Pessoalmente inclusive torço para que isso ocorra.
Mas, depois de assumir a missão da campanha presidencial de 21 dias em 2018, quando só não se elegeu presidente da República devido à fakeada, e concorrer ao governo de São Paulo, em 2022, conquistando uma votação expressiva, apesar da derrota, Haddad tem direito a não querer concorrer a cargo eletivo eletivo e almejar a coordenação da candidatura de Lula.
Penso que uma saída interessante para o impasse seria Haddad disputar uma das duas cadeiras ao Senado, pleito no qual teria amplas possibilidades de êxito.
O fato é que são grandes as chances de Lula passar o bastão para Haddad em 2030. Para pavimentar esse caminho, ele ocuparia a Casa Civil no próximo mandato de Lula.
O "libanês" merece.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



